quarta-feira, 26 de maio de 2021

MAREANTES DO VENTO

 



Crescemos na nudez das pedras

crescemos e desmaiamos
conforme as marés

vertemo-nos líquidos
em caudais de sons
ardidos no sal
no delírio da espuma
por todo o corpo

crescemos na substância das pedras
com asas muito leves

não somos barcos de carregar velas

somos mareantes do vento


eufrázio filipe
(revisitado)


quinta-feira, 13 de maio de 2021

O ADMIRÁVEL GRÃO DE AREIA

 



Correm em bando os teus olhos
por cima das searas e dos ventos
porque é preciso transgredir
rasgar o véu que se demora em fascínios

encontrar no corpo interior
um sinal primitivo de nudez
uma pequena distração de flor
que agite o ambíguo coração dos  pássaros
e abra novos caminhos
por esse mundo 
onde todos os rios
deviam ser apenas água

provavelmente só nos teus olhos
há um brilho indígena em gestação

Eis a nova ordem emergente
a gota de orvalho que funde a luz

o admirável grão de areia
que não repousa


Eufrázio Filipe


quarta-feira, 5 de maio de 2021

VERDADES IMPROVÁVEIS (2)

 



Na ausência de palavras
desenhei uma flor encarnada
neste chão de marés

soltei-lhe as pétalas

cadenciadas
silvestres
musicais

agarrei o vento pelas crinas
esculpi 
um grão de areia
para a vida despontar
num sopro
e a luz se libertar
pelas fissuras das pedras

convoquei pássaros
e outros silêncios

escrevi de novo
verdades improváveis

Inesperadamente
hoje não quis salvar o mundo


Eufrázio Filipe


quinta-feira, 29 de abril de 2021

ESTÁTUA NO EXÍLIO

 



Sereníssima
oriunda dos melhores gestos
aos meus olhos
supera o criador

traz na voz
uma feira de barro
inscreve nas linhas
da palma das mãos
contornos de luz

celebra o efémero
no mais íntimo dos espelhos

Musa purificada de palavras
estátua no exílio


eufrázio filipe
(Chão de Marés)


quarta-feira, 21 de abril de 2021

MADRUGADA EM FLOR




Na incandescência
dos nossos lábios
arde em flor a madrugada
tangem cordas de oiro e prata
os nossos dedos

espargimos o sussurro
dos cravos
caminhos cingidos
na voz

passo a passo
saltam faúlhas
que nos alimentam

até arder de novo
 madrugada


eufrázio filipe