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sábado, 19 de junho de 2021

A NOSSA ROMÃ

 


Nesta ilha de jangadas imperfeitas, as romãs abriam os  lábios,
explodiam multidões.
Os cães adivinhavam o brilho dos relâmpagos e tu caías abrupta
nos meus braços.
Quando te ouvi assim a cair dos céus, desamparada a lubrificar a terra,
não sabia o teu nome, muito menos como te beijar os pés.
Quando te vi assim pendente, incolor, nua de tudo, chamei-te chuva,
um qualquer nome - e tu chegaste a cântaros, tão líquida por entre os meus dedos.
Recebi-te quase ninfa , de braços abertos na minha escarpa e assim ficámos
vagarosos instantes a respirar eternidades.
Ainda hoje não sei quem és senhora.
Trazias nos cabelos um mar desgrenhado a derramar estrelas, um cântico 
sibilino, barcos do outro lado do cais.
Escancarei as janelas, acendi um fósforo no alpendre da casa, e tu lá estavas
sem muros nem amos, a cantar.
Se tivesse que te desenhar faria um gesto, um risco a carvão no ar
que respiramos, bebia-te às mãos cheias,
mas deixaria na tua árvore preferida - uma romã.


Eufrázio Filipe

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O APEADEIRO DA BEMPOSTA

 




Parti numa folha de papel por mares desnavegados, vales, rios e montes. Sem mapas nem estrêlas a despertar azinhagas e amoras silvestres. 
Foi assim que tropecei numa aldeia - casas dispersas, outras geminadas, um café, uma taberna, uma capela, um pelourinho e um apeadeiro de caminho de ferro.
Uma aldeia linda, afagada por canaviais, chorões e o cantarolar de um riacho onde corriam em paz águas cristalinas. 
O Café Moderno, no largo do pelourinho exibia um jogo de matraquilhos, seis mesas e um rádio antigo em voz alta. 
- Como se chama a vossa aldeia? 
- Bemposta. Diz a lenda que uma senhora real, muito bem vestida e triste, visitava aqui um aldeão. Chegava de charrete e partia, nua e sorridente. 
O Alexandre é que sabe explicar estas coisas. Deve estar no apeadeiro. 

No apeadeiro encontrei o Alexandre - um velho sentado num banco em frente  à linha do comboio. 

- Velho não, jovem com muita experiência.
Aprendi que a vida tem muitos apeadeiros mas aqui fiquei eternamente livre com uma mulher no coração. Uma santa mulher que me ensinava a contar pelos dedos todos os silêncios e a cantar baixinho para não acordar os pássaros. Uma santa mulher, mais linda que a Bemposta. 
Nunca por aqui passou. Foi eu que a inventei. 
Na memória essencial sou caçador de relâmpagos e o amigo que faz na vida? 

- Sou artesão de metáforas. 



eufrázio filipe
texto revisitado

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

NEM TODOS OS CÃES SÃO DE BARRO

 


A minha escarpa tem uma janela para o vento entrar de preferência com relâmpagos. 

Quando troveja inconformado abro a porta que dá para o alpendre e os Serra da Estrela vertiginosos avançam amedrontados.

Aninham-se nos tapetes da sala.

De alma lavada e farto pêlo,entram casa adentro, sacodem-se vivificam as paredes onde me acompanham um óleo de Kiki Lima outro de Albino Moura, pratos alentejanos, uma falua em casca de ostra, uma estatueta da Papua Nova Guiné, o velho relógio de pêndulo, um poema de Eugénio de Andrade. 

Quando o sol se esconde, troveja e os céus se derramam, a minha escarpa alumia-se.

Os Serra da Estrêla deitam-se e ressonam nos tapetes até eu pegar no sono e acordar a fazer poemas ou quase nada. 

Lá fora imperturbável (e)terno a dizer coisas improváveis - o meu cão de barro - resiste em vigília ao tempo que faz.


eufrázio filipe


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

TUDO PELO MELHOR





Por exclusão social ou sinal de lucidez, nem todas as famílias são um presépio

Foi assim que pensei

quando vi na esquina do prédio uma senhora com uma criança ao colo 
a pedir esmola e a desejar boas festas a quem passava. 


eufrázio filipe

segunda-feira, 9 de julho de 2018

A VERDADE DOS SONHOS


                                              René Magritte
                                                       


                                                                                                                                                                                                   
"Para ser grande sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui.Sê todo em cada coisa,põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua brilha, porque alta vive."
-Fernando Pessoa
-Não, Ricardo Reis
-Estávamos como estamos,num país onde os cães que não mordem se desesperam a ladrar. 
-O Dique não ladra
-Mesmo assim, o país com olhos tristes, ri de cócoras
-Fernando Pessoa foi um místico
-Vamos dormir?
A esta hora todos dormem

Foi assim neste diálogo  inventado,quase institucional que exaustos numa amálgama de sons imperfeitos nos recolhemos ao paraíso dos silêncios tresmalhados. 
Aqui beneficiamos dos improvisos sábios do Dique, do generoso galinheiro com vistas para a rega automática, da serenata das folhas quando o vento lhes assobia. 

Um dia parámos as bicicletas numa azinhaga junto de uma tosca placa, de madeira, que anunciava - Vendo patos. 
Adolescentes como Ricardo Reis, comprámos uma pata com as crias. Todos mudos para não interferirem no belo canto do galo - um tenor ancião que subia ao poleiro para exibir a voz quando a lua acontecia. Na lua cheia chegava mesmo a enrouquecer, mas ao país que o aplaudia não votava. 

Nesta harmonia bucólica os patos cresceram e inesperadamente começaram a depenar as galinhas. 
O galo deixou de cantar e o Dique esteve na eminência de ladrar, mas conteve-se para não se confundir com o poder. 

A noite estava cerrada quando decidimos intervir. Transportámos os bancos da cozinha para o galinheiro, um violino e o meu mais recente livro de metáforas. 

Patos de um lado, galinhas do outro. Nem um piu, um pestanejar de olhos. Só um ressoar de penas para aconchego das asas. 

À porta do galinheiro, o Dique, imponente, observava sem dizer uma palavra. 

-Começas tu com as metáforas? 
-Prefiro o violino

Comecei a soletrar um poema, e outro e outro. ao som do violino, até os animais adormecerem. 

O Dique levantou a cabeça e fez-se luz. Começou a lamber a lua cheia e o galo despertou para cantar. 

Retirámo-nos pé ante pé para não perturbar o concerto.

No dia seguinte a pata tinha sido galada pelo tenor. A s crias visivelmente reconhecidas afagavam as penas das galinhas, que punham ovos nos sítios mais incríveis. 

-Acorda - acabei de sonhar 
-Outra vez o Ricardo Reis? 

-Já ouvi essa historia e continuo a não entender como é possível um cão numa noite cerrada
lamber a lua cheia.
Onde está a verdade dos sonhos?


Eufrázio Filipe


segunda-feira, 4 de junho de 2018

CHOREI COM OS CÃES






Conduzia na estrada do Barranco do Bebedouro - serpenteada,estreita,iluminada pela lua cheia.
De repente um vulto na minha rota. Não pude evitar. Só o vi pelo retrovisor. 
Ao contrário do que se diz, as fotografias não substituem as palavras, mas esta sangrou-me.
Saí do carro e ajoelhei-me junto do animal- um rafeiro alentejano, lindo, que ainda me olhou nos olhos e disse baixinho 
- É pá - mataste um cão livre.  
A lua cheia derramava-se, inundava o silêncio de cores pálidas e eu levei-o ao colo. 
Quando chegámos a casa só pude fazer o que fiz.
Chamei o Dique e pedi-lhe para convocar todos os cães da aldeia. O funeral foi marcado para a meia noite.
Todos compareceram.
Solidários quatro amigos mais corajosos ofereceram-se para escavar a terra, num canto da horta, onde espontâneas medram as hortelãs.
Todos reunidos no mais profundo silêncio, quando um uivo comovido despoletou um choro colectivo.
Só o Dique não chorou. Trazia na boca uma papoila que largou na sepultura. 


Eufrázio Filipe
"Caçador de relâmpagos"

domingo, 15 de abril de 2018

A DUNA SOU EU






Enquanto aquele anjo permanecer nas areias, bem pode o vento soprar.
- O cão ou o velho? 

Lentos, trôpegos, com os pés a tracejarem os caminhos de sempre, todos os dias aquelas almas percorriam memórias. 
O cão, mais velho que o dono, era o guia, a sua bengala de cego. 
Pela orla da praia, desde a gruta onde viviam até à colossal duna abrupta sobre as águas. As aves marinhas mergulhavam a pique, esbracejavam só para os salpicar. Lá iam  serenos livres sem palavras - imensos.
No ar o sussurro dos silêncios embalava-lhes os passos num concerto de marés. 
Chegados ao topo da montanha era sempre assim - o velho afagava as orelhas do cão e o cão lambia-lhe as mãos. 
Sentados respiravam infinitos - o perfume das algas. Adormeciam de olhos abertos. 

Um dia, ao longe, alguém de um barco bramou 

- Fuja a duna vai desmoronar-se. A duna vai cair. 

Imperturbável, com as areias por entre os dedos, respondeu baixinho para não acordar o cão 

- A duna sou eu. 


Eufrázio Filipe
"Caçador de relâmpagos"

terça-feira, 27 de março de 2018

ILHAS ADJACENTES




Na alquimia do tempo que faz, há sempre um albatroz que atravessa as arcadas da memória, desfaz-se em gestos de ternura, dissolve-se no pôr-do -sol, invade-nos o sonho, passo a passo. 
- Desejo que germines em vagas nas arribas, que rebentes a marulhar no labirinto das areias. 
- Desejo que nunca encontres marinheiros cegos, muito menos na esquina das palavras a apascentarem barcos prateados com mãos incompletas. Desejo ficar aqui no perfume dos limos, mesmo que as vagas só despertem por sobre os restos do último naufrágio. 
- Sejamos navegantes desgrenhados contra todos os destinos. 
- As melhores viagens acontecem sempre antes da partida e no regresso. No ciclo das marés. Só assim consigo partilhar o ardor das velas do nosso mar. 
- Pareces a ministra que conheci no dia da remodelação do governo.
- Meu amor rema.
- Não consigo dormir. 
- Vamos fazer amor? 
- Só nos espelhos. 
- Hoje não estou a gostar do modo como os espelhos nos olham. Este rio está uma sopa. Ressoa brando nas fissuras das pedras. Repara como a praia deserta se amontoa de areias sem abrigo. 

Inesperadamente um albatroz poisou majestoso aos nossos pés. Fixou-nos com olhos vivos e perguntou-nos baixinho num afago de asas - de que cor são os meus olhos - e tu não soubeste responder. 

- Apetece-me viajar ainda mais . Porque não vamos ao Bugio? 

Construímos um barquinho de papel e partimos ao sabor da brisa. 
Lá estava sentado nas águas do rio, imponente, coluna na vertical e sereno. Sábia fortaleza, sempre alerta, - hoje um farol a piscar os olhos no estuário do Tejo, como nós, ilhas adjacentes. 

- Vamos fazer amor?
- Ainda não disseste a cor dos meus olhos. 


Eufrázio Filipe

terça-feira, 20 de março de 2018

O APEADEIRO DA BEMPOSTA






Parti em viagem.com todo o tempo,por vales,rios e montes - mapas rasgados a despertar azinhagas e amoras silvestres. 
Tropecei numa aldeia - casas dispersas, outras geminadas, um café, uma taberna,uma mercearia, uma capela, um pelourinho e um apeadeiro de caminho-de-ferro. Uma aldeia linda, afagada por canaviais, chorões e o cantarolar de um riacho onde corriam águas cristalinas. 
O Café Moderno exibia um jogo de matraquilhos, seis mesas, e um rádio antigo em voz alta. 
- Como se chama a vossa aldeia? 
- Bemposta. Diz a lenda que uma senhora real, muito bem vestida e triste, visitava aqui um aldeão. Vinha de charrete e depois partia, nua e sorridente. O Alexandre é que sabe explicar estas coisas. Deve estar no apeadeiro. 
No apeadeiro encontrei o Alexandre - um velho que se recusava a ser velho, sentado num banco em frente à linha dos comboios. 
- Velho não, um jovem com experiência. 
Um dia quis ser músico, precisava de dinheiro e parti. A minha vida foi sempre partir e chegar. 
Emigrei para uma grande quinta, sem contrato, perto de Marselha. Uma vez por ano trabalhei ali na apanha da maçã. 
Três armazéns albergavam o pessoal - portugueses, espanhóis e polacos. 
Os que chegavam primeiro, apanhavam camaratas - os outros dormiam no chão. 
Quase sempre chovia nos armazéns. No primeiro ano rasgou-se o meu impermeável . Não fácil resistir, mas resisti. 
Cada um tinha um "rego" com cinco quilómetros de macieiras.
Colocávamos o cesto de verga, com alças, amarrado à cintura, subíamos e descíamos o escadote, até apanharmos 350 kg por dia. Quem mais apanhava mais ganhava. 
- Mas quem mandava em si? 
- Eram as maçãs. Enquanto houvesse uma maçã na árvore, quem mandava era a maçã. 
Ouvi dizer que a liberdade não cai do céu, conquista-se no chão que pisamos, mas no meu caso só de escadote, em cima das macieiras.
À noite cada um fazia o seu repasto. Estoirados dormíamos à pressa. 
Só tínhamos o domingo para ir aos molhos no atrelado do patrão, abastecer-nos para toda a semana e divertir-nos à chegada no armazém dos polacos. 
Os tipos estacionavam um Volkswagen a cair de podre junto do armazém e ligavam o rádio. Uns dançavam com as mulheres que por ali apareciam, outros embebedavam-se e jogavam às cartas. 
- E no dia seguinte? 
- No dia seguinte, as maçãs geladas entravam-nos pelas mãos até aos ossos. 
Um polaco que se dizia iluminado por Deus gritava todas as manhãs - "Estou no topo do mundo" . Um dia caiu do escadote, partiu os dentes e deixou a religião. 
Nunca consegui dinheiro suficiente para ser músico, mas fiquei para sempre  com uma mulher no coração. 
Uma santa mulher que me ensinou a contar pelos dedos todos os silêncios. E a cantar. Mais linda que a Bemposta. Parecia um pássaro azul. 
Sou caçador de relâmpagos e o amigo que faz na vida? 
- Sou artesão de metáforas. 



Eufrázio Filipe

sábado, 16 de dezembro de 2017

O NATAL VAI COMEÇAR




O Inverno purifica. 
Sacode-se nas árvores penadas, inventa polícromos arco-iris, manifesta-se lúcido contra a perfeição, faz trejeitos ao rosto. Ri-se nos olhos de toda a gente. 
Lá no alto, por cima das nuvens de chumbo, levanta a voz dos relâmpagos e às primeiras pancadas de Moliére, abre o pano.Vem ao palco e anuncia: 
Senhoras e senhores a fábula"é uma pintura onde podemos encontrar o nosso retrato"
Que dia é hoje?
Silêncio. 
Senhoras e senhores ides assistir à mais fabulosa história da minha estação. 
As luzinhas furta-cores são as mesmas. O mesmo burro, o mesmo pinheiro,o mesmo musgo, as mesmas pedras, a mesma estrelinha no presépio. O mesmo rebanho, os mesmos pastores, a mesma palha, o mesmo bafo.
Ides ser cúmplices dos animais,dos anjos que vão cair nas chaminés, nos sapatinhos dos meninos ajoelhados- até que o galo cantará. 
Lá fora as ruas estarão um sonho - até nos olhos dos outros meninos, na montra dos céus. 
Tudo será luz nos corações vibrantes, menos nos olhos sem abrigo.
Aqui não há tempestades, só ventos fortes, água abrupta e belos relâmpagos.
Amai-vos uns aos outros
Eu sou o Inverno.
Não creio, mas o Natal vai começar. 


Eufrázio Filipe
"CAÇADOR DE RELÂMPAGOS"

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

AMIGO DE QUATRO PATAS


 A pedido do meu neto reedito uma das dez" garatujas "que lhe desenhei por escrito 




Na rua chovia. As folhas das árvores caíam. 
Estávamos no Outono, mas hoje acordei com um sonho lindo. 
Apeteceu-me correr no jardim da escola, mesmo pelo meio das flores. Eu sei que não devia, mas apeteceu-me. 
Estou a falar de um sonho, porque a minha escola não tem jardim com flores. 
De repente tropecei numa flor com espinhos, caí, feri-me numa perna. 
Ali fiquei no chão com muitas dores a chorar. 
De repente apareceu um cão e assustei-me.
Não sabia o que fazer. 
Ele olhou para mim e lambeu-me a ferida. 
Cocei-lhe as orelhas e abanou o rabo de contente. 

Já acordado pensei no meu sonho lindo e disse 

Nunca mais corro pelo meio das flores, mas quero ter um amigo de quatro patas 


Eufrázio Filipe

terça-feira, 9 de agosto de 2016

A SENHORA DA LIMPEZA





Antes de chegar às galerias, identificaram-me com um sorriso. 
Subi no magnífico elevador, conduzido por um delicado polícia. 
Sentei-me nas galerias e olhei para baixo.
Lá estavam os representantes da nação. Os eleitos da república. A palavras cruzadas, as ideias esgrimidas, as bandeiras nas lapelas, os passos perdidos. As palavras os gestos os silêncios. Os crentes e os farsantes. Desiguais. 
Inocente,segredei a um jovem cabisbaixo, companheiro de galeria: 
- " coisa linda esta democracia" 
Lá em baixo também estavam os meus, pouco numerosos  ainda mas a combaterem pelas minorias que vivem nos subúrbios de tudo. 
Lá em baixo quase todos esquecidos de subir os olhos para as galerias, tricotavam a verve, gesticulavam poses de verniz. 
De quando em vez disparavam blasfémias, partilhavam impropérios para mais tarde se abraçarem à hora do repasto. 
Inocente o jovem cabisbaixo segredou-me: 
- "comigo um dia isto será diferente" 
Terminada a sessão plenária os deputados saíram como estava previsto. O amplo salão ficou vazio, soberbo e solene.
O salão ficou a registar memórias e eu deixei-me ficar até ser convidado a sair pelo mesmo delicado polícia.
Como foi o último plenário antes das férias de Verão, resolvi festejar em silêncio. 
Procurei um restaurante no belo bairro de São Bento e sentei-me à mesa. 
Pedi o prato do dia. 
Serviram-me um discurso de Passos Coelho. Rastejante. Intragável. 
Fechei os olhos, abri os olhos e pedi o livro de reclamações. 
Levantei-me da mesa sem pagar. Os empregados  ficaram a ler o meu protesto. 
Lá fora ainda ouvi alguns aplausos mas fiquei na dúvida quanto aos seus votos. 
Dei uma volta ao quarteirão e na passagem ainda olhei para o magnífico edifício. 
Para meu espanto a porta rangeu. 
Começou a abrir-se lentamente. 
Era a senhora da limpeza. 

Eufrázio Filipe

Publicado (reconstruído) no "CAÇADOR DE RELÂMPAGOS " 2010 "ÂNCORA EDITORA

sábado, 14 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 10 )

                                                 Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas


Avô - está ali uma senhora a chamar pela cadela da vizinha.

Só pode ser a vizinha.

A minha cadela saltou a vedação e anda por aí com o vosso cão.
Timóteo chama o Oli.
O Oli está debaixo da romãzeira a brincar com a cadela da vizinha.

A vida é uma surpresa minha senhora. Ontem dissemos ao Oli para respeitar o silêncio da sua cadela. Como vamos fazer?
Eu vou buscá-la . Importa-se que salte a vedação?

E foi assim, contra a vontade dos dois, separados, cada um ficou no seu espaço.

Avô - porque não ficaram cá todos?

Temos que respeitar o espaço de cada um.
A cadela tem dona, o Oli não.

Cabisbaixo, rabo entre as pernas e orelhas murchas chegou o Oli.
Não fiques triste.
Não fico triste? Eu estou triste.
Diz ao teu avô que não quero mais o paraíso.
Prefiro a rua da nossa cidade


eufrázio filipe


 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 9 )


                                 aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas



Timóteo diz ao Oli que na cadela da vizinha ninguém toca. 

Ele só queria que não estivesse isolada. 

Certo - mas ele pode correr atrás dos coelhos que por aí andam a comer tudo na horta. 

Avô - disseste que estávamos no paraíso . 

Timóteo - os paraísos têm regras. Aqui todos somos livres como se estivéssemos numa prisão com as chaves no bolso. 
O Oli deve respeitar o silêncio da cadela da vizinha. 

Vou falar-lhe. 

Amigo - continua a ladrar para as estrêlas. 
És um bom tenor, mas para cantar em conjunto, tens de aprender 
a ouvir os pássaros. 

eufrázio filipe
  

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 8 )


                                aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas

Dormiste bem? 

Passei pelas brasas. O galo fartou-se de cantar. 
Estamos numa casa de campo para descansar. 

Mas tu também ladras às estrêlas. 

Tens razão, nós é que invadimos o seu espaço. 
Na cidade dormia bem com ruído, aqui oiço pássaros de todas as cores e protesto. 

Oli - quem sabe um dia na diferença da voz, daremos um concerto, fora do coreto, sem gente estranha a ouvir. 

Se for em família até podemos convidar a cadela da vizinha. 

A cadela da vizinha não canta - vive só. 

Por vezes sós mas nunca isolados. 

eufrázio filipe

  

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 7 )


                                Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas 




 Chegámos. Era Outono. 
As videiras estavam podadas e a casa ao fundo à nossa espera. 
Visitámos os galinheiros. Aplaudimos um bando de rolas, apanhámos uma romã e olhámos em frente para o castelo. 
O silêncio afagava todo o espaço como se estivéssemos no princípio do mundo. 
Avô - aqui só falta o jardim que eu não tenho na escola. 
Tens razão. Vamos plantar sonhos. 
Estás de acordo Oli? 
Eu sou um cão da cidade com vistas para o mar. 
Aqui só vejo terra, muita terra, muita terra. 
Logo à noite vou ladrar para as estrêlas me orientarem nesta aventura. 
Oli - queres dormir no galinheiro?
Um cão como eu só pode dormir a céu aberto. 
Mesmo que chova no paraíso. 

eufrázio filipe
 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 6 )


                                                     Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas 


Oli - tenho uma novidade. 
O avô tem um espaço rural para nós. Não é muito grande mas dá para todos. 
Queres vir? 

A quinta tem portão? 
Tem mas não é para te prender é para os outros não entrarem. 

Quando vamos à quinta?
Quando despontar uma nesga de sol. 
Então vamos amanhã. Ontem à noite quando ladrava para o céu, vi uma estrêla a brilhar nos meus olhos. Foi o sinal, porque nem todas as estrêlas olham para mim. 

E foi assim.
No dia seguinte lá fomos a caminho do paraíso. 

eufrázio filipe 

                                 

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 5 )


                                                   Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas 




O Outono brilhou por uma nesga e nós decidimos passear. 
Lá fomos a cantarolar. Música minha, letra do meu avô com arranjos do Oli. 

Pelo caminho até ao jardim da aldeia alguns cães sem abrigo juntaram-se a nós. 
Não sei porquê. 
Talvez gostássem da cantoria. 
Cumprimos o objectivo, chegámos ao coreto. 
Quando nos preparávamos para o concerto, o Oli disse em voz alta. 
Não canto mais. Está aqui muita gente desconhecida. 

A música acabou. 
Começou a chuviscar e os cães choraram. 
 

eufrázio filipe

 

domingo, 8 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 4 )


                                              Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas                                    
   

    Antes de falar com o cão, falei com o avô, que me deu um conselho. 
  
  Se o animal é teu amigo dá-lhe um nome. 
  
  Foi assim. 
  Deitei-lhe um copo de água na cabeça e chamei-lhe OLI. 

   Ele estranhou. 
   Abanou-se todo. 
   Repeti - Oli, Oli, Oli. 
   
   Parece que o estou a ouvir. 
   
   Ninguém pede para nascer. 
   Podias ter evitado o copo de água. 
   Não pedi nada, nem para ser baptizado, mas se foi da tua vontade, aceito que me chames Oli. 
   
   Eu vou chamar-te Timóteo 
   porque já ouvi o teu avô. 

   Aprecio as coisas simples da vida      



      eufrázio filipe

                                            

GARATUJAS ( 3 )


                                                           Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas


 Vim à rua e lá estava aninhado à nossa porta. 
Cumprimentámo-nos antes de lhe dar o entrecosto. 
Não comeu de imediato. 
Olhou para cima ladrou e só depois começou a trincar 

Avô - disseste-me que os cães, à noite ladram 
para as estrêlas. 

Estávamos no Outono, o céu cheio de nuvens, 
não vi estrêlas mas ele ladrou 
baixinho mas ladrou. 

Quando fechei a porta comecei a pensar 
um dia vou à fala com o meu amigo. 

 eufrázio filipe