quinta-feira, 17 de setembro de 2020

NEM TODOS OS CÃES SÃO DE BARRO

 


A minha escarpa tem uma janela para o vento entrar de preferência com relâmpagos. 

Quando troveja inconformado abro a porta que dá para o alpendre e os Serra da Estrela vertiginosos avançam amedrontados.

Aninham-se nos tapetes da sala.

De alma lavada e farto pêlo,entram casa adentro, sacodem-se vivificam as paredes onde me acompanham um óleo de Kiki Lima outro de Albino Moura, pratos alentejanos, uma falua em casca de ostra, uma estatueta da Papua Nova Guiné, o velho relógio de pêndulo, um poema de Eugénio de Andrade. 

Quando o sol se esconde, troveja e os céus se derramam, a minha escarpa alumia-se.

Os Serra da Estrêla deitam-se e ressonam nos tapetes até eu pegar no sono e acordar a fazer poemas ou quase nada. 

Lá fora imperturbável (e)terno a dizer coisas improváveis - o meu cão de barro - resiste em vigília ao tempo que faz.


eufrázio filipe


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A CADEIRA VAZIA

 





Em cardume
nos olhos dos peixes
lá estavam os pescadores

Na véspera dos relâmpagos
e outros afectos
dulcíssimos corações
clareavam as noites
e nós só podíamos fazer
o que fizemos

sentámos à mesa os ausentes
levitámos em voz alta
o sussurro das marés
recolhemos estrêlas
no chão das águas

celebrámos a cadeira vazia


eufrázio filipe

poesia



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

RESGATAR UM BEIJO

 



Rodeado de mares

contra todos os destinos

caminho por sobre as águas

à semelhança dos barcos


de quando em vez

regresso à minha escarpa

só para ver


Rodeado de mares

nesta ilha candente

ainda há espaço para cantar

levar o pão à boca

resgatar um beijo


eufrázio filipe


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

NO ANVERSO DAS PALAVRAS

 



Regressados aos sulcos conhecidos

de tantos mares desnavegados

lá estavam os pássaros

em festa

no chão flamejante

íntegros e vermelhos

no bico dos teus seios

onde florescem româzeiras

no anverso das palavras


eufrázio filipe



terça-feira, 28 de julho de 2020

VOU ALI E JÁ VOLTO






Com ou sem máscaras sobrepostas
pior que todos os medos é ignorá-los sem combate

com os pássaros andantes por sobre as águas 
vou ali e já volto

Tudo pelo melhor


eufrázio filipe