sábado, 19 de junho de 2021

A NOSSA ROMÃ

 


Nesta ilha de jangadas imperfeitas, as romãs abriam os  lábios,
explodiam multidões.
Os cães adivinhavam o brilho dos relâmpagos e tu caías abrupta
nos meus braços.
Quando te ouvi assim a cair dos céus, desamparada a lubrificar a terra,
não sabia o teu nome, muito menos como te beijar os pés.
Quando te vi assim pendente, incolor, nua de tudo, chamei-te chuva,
um qualquer nome - e tu chegaste a cântaros, tão líquida por entre os meus dedos.
Recebi-te quase ninfa , de braços abertos na minha escarpa e assim ficámos
vagarosos instantes a respirar eternidades.
Ainda hoje não sei quem és senhora.
Trazias nos cabelos um mar desgrenhado a derramar estrelas, um cântico 
sibilino, barcos do outro lado do cais.
Escancarei as janelas, acendi um fósforo no alpendre da casa, e tu lá estavas
sem muros nem amos, a cantar.
Se tivesse que te desenhar faria um gesto, um risco a carvão no ar
que respiramos, bebia-te às mãos cheias,
mas deixaria na tua árvore preferida - uma romã.


Eufrázio Filipe

sexta-feira, 4 de junho de 2021

OS TEUS PÉS

 




Passo a passo
a desbravar caminhos
na vertigem das marés

andas desandas tropeças
constróis pontes
precárias definições

passo a passo
até acontecer uma pedra
com vida por dentro

Sabes que não existem pedras
com vida por dentro
mas continuam a andar
os teus pés

passo a passo
a cumprir este chão


eufrázio filipe

quarta-feira, 26 de maio de 2021

MAREANTES DO VENTO

 



Crescemos na nudez das pedras

crescemos e desmaiamos
conforme as marés

vertemo-nos líquidos
em caudais de sons
ardidos no sal
no delírio da espuma
por todo o corpo

crescemos na substância das pedras
com asas muito leves

não somos barcos de carregar velas

somos mareantes do vento


eufrázio filipe
(revisitado)


quinta-feira, 13 de maio de 2021

O ADMIRÁVEL GRÃO DE AREIA

 



Correm em bando os teus olhos
por cima das searas e dos ventos
porque é preciso transgredir
rasgar o véu que se demora em fascínios

encontrar no corpo interior
um sinal primitivo de nudez
uma pequena distração de flor
que agite o ambíguo coração dos  pássaros
e abra novos caminhos
por esse mundo 
onde todos os rios
deviam ser apenas água

provavelmente só nos teus olhos
há um brilho indígena em gestação

Eis a nova ordem emergente
a gota de orvalho que funde a luz

o admirável grão de areia
que não repousa


Eufrázio Filipe


quarta-feira, 5 de maio de 2021

VERDADES IMPROVÁVEIS (2)

 



Na ausência de palavras
desenhei uma flor encarnada
neste chão de marés

soltei-lhe as pétalas

cadenciadas
silvestres
musicais

agarrei o vento pelas crinas
esculpi 
um grão de areia
para a vida despontar
num sopro
e a luz se libertar
pelas fissuras das pedras

convoquei pássaros
e outros silêncios

escrevi de novo
verdades improváveis

Inesperadamente
hoje não quis salvar o mundo


Eufrázio Filipe