segunda-feira, 16 de novembro de 2020

DIA DE SEMENTEIRAS

 




No casario em redor da baía
gentes sequestradas à janela
aguardam um silvo
para navegar

os barcos ancorados
entardeciam
à bolina dos ventos

mas hoje
o imaculado silêncio
foi adocicado
pelo chilrear dos pássaros
em pleno vôo

foi dia de sementeiras
neste mar arável
para me alimentar
de relâmpagos
nos teus olhos


eufrázio filipe

domingo, 8 de novembro de 2020

CUMPRIR ESTE CHÃO

Passo a passo
a desbravar caminhos
na vertigem das marés

andas desandas tropeças
constróis pontes
precárias definições

passo a passo
até acontecer uma pedra
com vida por dentro

Sabes que não existem pedras
com vida por dentro
mas continuam a andar 

os teus pés

passo a passo
a cumprir este chão


eufrázio filipe


domingo, 1 de novembro de 2020

MAR

 




O que mais me doi
não são folhas caídas
nem palavras soltas

não são as romãs
em coro
quando se abrem

a sombra que rebenta
desgrenhada 
à nossa mesa

o que mais me doi
não é o Outono

é a falta de relâmpagos
nos teus olhos

mar



eufrázio filipe


domingo, 25 de outubro de 2020

APENAS UM TRAÇO

 




No rasto de um risco
em pleno voo
com asas de vento
as pétalas no chão
que os cães não pisam

no rasto de um risco
deixei no papel a  caligrafia
de uma pestana
em forma de vírgula
um gesto de lágrima cansada

no rasto de um risco
em pleno voo
com asas de vento
a carvão
sombras amovíveis
no entardecer das paredes da casa

marés ao rubro

Que fiz eu?

nada

apenas um traço


eufrázio filipe

poesia

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

NÃO HÁ ESPAÇO PARA CANTAR

 




Entre oliveiras buganvílias
e  latidos de cães
resiste um poço
a céu aberto
onde temos por hábito
falar baixinho
para não acordar silêncios

No fundo do poço
há um espelho vertiginoso
luz que assoma
aos nossos olhos escarpados

Quando chove a cântaros
tudo fica mais claro
a fluir
na solidão das estrelas

No fundo do poço
não há espaço para cantar
mas tu cantas


eufrázio filippe