quinta-feira, 11 de abril de 2019

EM PLENO VOO POR UM GRÃO DE AREIA







Não são únicos os caminhos

mesmo quando se cumpre
a rota dos sonhos
e os barcos se despem
de destinos por sobre as águas

Já tínhamos visto longe
a céu aberto
palavras íntegras
a respirar por guelras

pétalas a despontar nos desertos

mares a gorgear
na folhagem das escarpas
noites claras
ao som do relógio de pêndulo

Não são únicos os caminhos

mesmo quando andamos
a sibilar no vento
desapercebidos do pássaro
que renasce em pleno voo

por um grão de areia


eufrázio filipe

terça-feira, 2 de abril de 2019

VERDADES IMPROVÁVEIS (2)





Na ausência de palavras
desenhei uma flor encarnada
neste chão de marés

soltei-lhe as pétalas

cadenciadas
silvestres
musicais

agarrei o vento pelas crinas
esculpi um grão de areia
para a vida despontar num sopro de vento
e a luz se libertar
pelas fissuras da pedra

convoquei pássaros
resgatei memórias
e outros silêncios

escrevi de novo
verdades improváveis

inesperadamente
hoje não quis salvar o mundo


eufrázio filipe

(Chão de claridades)

terça-feira, 26 de março de 2019

UM DEUS ENTRISTECIDO






Os teus olhos pássaros espantados
dedilham um rio
à flor da pele

mas o que mais me doi
é a expressão
de um deus entristecido 
que não canta
por falta de espaço


eufrázio filipe

terça-feira, 19 de março de 2019

NA LINGUAGEM DOS ESPELHOS







"Sem o conflito dos espelhos"
silvestre a lamber o leito
por onde corre
num acorde de timbres
desgrenhado o rio
da minha aldeia
atravessou passo a passo
a sombra das pontes

desaguou
quase perfeito

a remar

na linguagem dos espelhos


eufrázio filipe

sexta-feira, 8 de março de 2019

SEM MUROS NEM AMOS





As andorinhas chegaram mais cedo
ao seu ninho preferido
o de sempre

Os senhores do mundo
que não são os senhores da vida
designaram dias
para todos os santos

criaram
não o dia das andorinhas
mas o dia das mulheres

Na verdade dos desertos
há flores nas areias
mulheres que valem por si

atravessam oceanos
rasgam o chão

São as mulheres que amo
com asas

sem muros nem amos


eufrázio filipe