sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

NO CAIS A DARDEJAR






Na memória das areias

as aves marinhas

alimentam os nossos passos



No ar que se respira

uma minúcia

de chuva primitiva

esculpe persistente

gota a gota

a sombra das pedras



Meu amor

que faremos das palavras

aqui tão longe



Levantadas as âncoras

partimos sem limites

no risco que os barcos

deixaram à tona da água



Em floração ficaram intactos

alguns mastros a dardejar

no cais

rente à nossa janela



domingo, 11 de janeiro de 2009

UM CONCERTO DE PÁSSAROS

Picasso - rapaz a guardar cavalo

Uma saraivada de granizo caía abrupto nas nossas vidas, queimava-nos a alma até aos ossos. Nunca mais chovia água de beber.

Lânguidos os rios mal desaguavam de tanto frio e solidão. O mar vadiava nas frinchas das falésias e os barcos ancorados, aguardavam nos mastros outros ventos.

Foi então que os galos cantaram. Mais cedo. Inutilmente pois ninguém dormia.

Havia uma certa efervescência no ar. Um respirar ofegante.

Nas ruas - as esquinas dos prédios voaram - para os cegos abrirem os olhos. Nas árvores - o Inverno colaborava. Nem uma folha para esconder o arrepio dos pássaros. Nem um piar. Nem um sussurro no mar.

Inesperadamente uma criança atravessou a rua.

Aquartelados os lobos uivaram. Alguém disparou.

Os galos cantaram de novo. Inutilmente pois ninguém dormia. No ar - farrapos de uma certa neblina. Nas ruas - as esquinas dos prédios permaneciam despovoadas de cegos. Os rios despertavam e o mar dava um sinal de chamada.

O vento amainou para um afago de velas e os barcos partiram para a faina.

O Inverno - por cima dos escombros - convocou-nos para um concerto ao ar livre. As folhas rebentaram nas árvores.

Uma criança, renascida das cinzas, desafiou o uivo dos lobos - começou a cantar com os pássaros.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

NO BICO DAS ESTRELAS


Parecem-me estrangeiros

todos os barcos

que caminham

na tua rua de seixos

escombros e frinchas de costelas

até os olhos que passam

a arder nas velas

deste mar

Todos me parecem estrangeiros

menos tu menino

com uma pedra na mão

a projetar-se no bico das estrelas

Parece-me estrangeira

a tua rua acidental

calçada de velho

quase um vaso de barro

onde à noite vêm mijar

cães vadios

Menos tu menino
que respiras por guelras


segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ARDEM AS VELAS DESTE MAR




Todas as guerras são lamentáveis - mas quando os invasores exibem uma desporporção bélica relativamente aos invadidos - a injustiça e a cobardia
assumem um descontrole colossal, mesmo perante
o genocídio de inocentes.

Israel com o pretexto de destruir o Hamas, quer dizimar os palestinos como a América fez aos índios.

Entretanto Obama (a esperança universal) parece
querer tudo "resolvido" até ao dia da sua posse, e o Bush pai anunciou agora que o seu segundo filho seria um bom presidente.

A Europa desunida faz comunicados,reza e subsidia a remoção dos escombros - e assim ardem as velas

deste mar.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Á CONQUISTA DO IMPOSSÍVEL

MAGRITTE- 1928


Anoitecidos madrugámos
timbres de outros mares

Aparentemente enxutos
de tempestades
mãos enclavinhadas
por sobre a mesa
e o olhar lúcido
numa migalha de pão
comida por um pássaro
colhemos o aroma do silêncio
e em voz baixa
participámos clandestinos
no rebentar prematuro
das camélias

Eternos partimos
à conquista do impossível
até a chuva desvendar
todos os segredos da água
para que tudo aconteça