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Silvestre a lamber o leito
por onde corre
num acorde de timbres
sereníssimo o rio
atravessou
passo a passo
a sombra das pontes
desaguou sem amos
no chão das marés
barco desgrenhado
quase perfeito
a lapidar as águas
Passo a passo
demorou-se por um fio
a subir às gáveas
precipitou-se
do último verso
do seu poema
mas resiste
olhos abertos
na linguagem dos espelhos
publicado no "A linguagem dos espelhos" 1982
Arde a madrugada na incandescência
dos nossos lábios
tangem cordas de oiro e prata
os nossos dedos
transportamos anéis de fogo
no interior dos corpos
labaredas cingidas
nas línguas
No regresso é o caminho que nos trás
exaustos de muitos pesos
rangem os corpos
mas dos lábios
saltam faúlhas que nos alimentam
até arder de novo a madrugada
" Chão de claridades "
Quando foi urgente criar um deus
as uvas ainda não estavam maduras
no corpo das videiras
inocente subiste ao púlpito
das vinhas decepadas
improvisaste um sermão
ergueste o cálice
e a companha exausta aprendeu
que nada é perfeitamente inútil
após as vindimas
bebemos do mesmo vinho
foi quando enfunaste as velas
começaste a despontar relâmpagos
nos mastros mais altos
quando afloraste o chão com um beijo
partiste sem destino
por sobre as águas revolto
à pergunta de outros mares
Mesmo que nos queiram
roubar a luz
não conseguirão
amordaçar a voz
que rebenta do chão
em flor
às mãos cheias
Abril respira a céu aberto
contra nevoeiros
mares desgrenhados
e outros destinos
Ainda há crianças
a plantar cravos
no coração das aves
a levar o pão
à boca das sementes
até ser outro dia
publicado no meu "chão de claridades"
(reconstruído)
Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro
nas mãos
só para desenhar no chão
a dor que sentimos
chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés
chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
de grânulos
e recolher todos os beijos disponíveis
chamei-a
para acordar o sono deste chão
libertar os pássaros
Hoje vi uma mulher
amada
esculpida na praia
a despontar na areia
inacabada
flor de Abril