Esta noite ouvi um certo rumor de palavras antigas apelavam na vegetação ao instinto dos pássaros mas nas paredes da casa onde nunca se calam os teus retratos estavam reunidas todas as condições para salvar o mundo foi o que fiz passámos de novo a respirar por guelras e tudo aconteceu Eufrázio Filipe
Todos os dias conforme as estações acordava à hora dos pássaros escancarava a janela abria os braços dava um grito para chamar os cães descia pedra a pedra todos os degraus da escarpa até ao chão das marés para hastear uma bandeira enchia um jarro de água sentava-me na mesa do alpendre e começava a desenhar palavras improváveis Ao fundo muito para lá da romãzeira fremiam as águas não sei porquê mas fremiam os cães latiam e as palavras por uma nesga espreitavam entre os dedos como se fosse o fim da história um paraíso inventado Todos os dias despertamos mesmo de olhos fechados Eufrázio Filipe
"Para ser grande sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui.Sê todo em cada coisa,põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua brilha, porque alta vive." -Fernando Pessoa -Não, Ricardo Reis -Estávamos como estamos,num país onde os cães que não mordem se desesperam a ladrar. -O Dique não ladra -Mesmo assim, o país com olhos tristes, ri de cócoras -Fernando Pessoa foi um místico -Vamos dormir? A esta hora todos dormem Foi assim neste diálogo inventado,quase institucional que exaustos numa amálgama de sons imperfeitos nos recolhemos ao paraíso dos silêncios tresmalhados. Aqui beneficiamos dos improvisos sábios do Dique, do generoso galinheiro com vistas para a rega automática, da serenata das folhas quando o vento lhes assobia. Um dia parámos as bicicletas numa azinhaga junto de uma tosca placa, de madeira, que anunciava - Vendo patos. Adolescentes como Ricardo Reis, comprámos uma pata com as crias. Todos mudos para não interferirem no belo canto do galo - um tenor ancião que subia ao poleiro para exibir a voz quando a lua acontecia. Na lua cheia chegava mesmo a enrouquecer, mas ao país que o aplaudia não votava. Nesta harmonia bucólica os patos cresceram e inesperadamente começaram a depenar as galinhas. O galo deixou de cantar e o Dique esteve na eminência de ladrar, mas conteve-se para não se confundir com o poder. A noite estava cerrada quando decidimos intervir. Transportámos os bancos da cozinha para o galinheiro, um violino e o meu mais recente livro de metáforas. Patos de um lado, galinhas do outro. Nem um piu, um pestanejar de olhos. Só um ressoar de penas para aconchego das asas. À porta do galinheiro, o Dique, imponente, observava sem dizer uma palavra. -Começas tu com as metáforas? -Prefiro o violino Comecei a soletrar um poema, e outro e outro. ao som do violino, até os animais adormecerem. O Dique levantou a cabeça e fez-se luz. Começou a lamber a lua cheia e o galo despertou para cantar. Retirámo-nos pé ante pé para não perturbar o concerto. No dia seguinte a pata tinha sido galada pelo tenor. A s crias visivelmente reconhecidas afagavam as penas das galinhas, que punham ovos nos sítios mais incríveis. -Acorda - acabei de sonhar -Outra vez o Ricardo Reis? -Já ouvi essa historia e continuo a não entender como é possível um cão numa noite cerrada lamber a lua cheia. Onde está a verdade dos sonhos? Eufrázio Filipe