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Há noites tão pardas
que nem parecem noites
Se as noites sonhadas
fossem mares escancarados
poderíamos em carne viva
respirar uma flor
estremecida
no pestanejar dos olhos
assim
viajantes apócrifos
mais leves que o voo
nesta feira de pássaros
sem pátria nem rosto
como poderemos ver mais longe?
hastear um beijo
no outro lado do cais
ser de novo crianças
e fazer das palavras
aviões de papel
Eufrázio Filipe
Chão de marés - Lua de marfim editora
Neste chão de ressonâncias
marés vivas
marnotos
marinhas valentes
e outros relâmpagos
transportámos
um sol de mãos cheias
à cintura um mar de sargaços
Nus de tudo
soprámos o espinho
que nos sangrava as pétalas
descobrimos as mãos
e os lábios ao entardecer
dulcíssimos
oferecemos ao rio
uma rosa de sal
eufrázio Filipe
Colectânea "Chão de Marés" editora Lua de marfim
Em sentido lato, todos somos religiosos, políticos, sociais - numa luta por símbolos que alimentam pensamentos, palavras e gestos.
Os símbolos assumem poderes irracionais em todos os domínios da vida.
Visões que se fossem todas canonizadas revelariam uma miríade de estrêlas a tilintar nos palcos. vergariam ainda mais amplas multidões de inocentes.
O Papa Francisco de visita a Fátima - aflora por vezes a racionalidade dos símbolos - torna racional a irracionalidade dos símbolos e assim rasga fronteiras, tenta libertar o "pecado original ", sendo certo que pelo sonho é que vamos.
Digo eu, no respeito pela diferença.
A vida também é feita de vagarosos instantes.
No Fórum Cultural do Seixal, o meu Chão de Marés foi partilhado pelas excelentes intervenções da Licínia Quitéria,da Vera Silva,da Maria José Bravo,dos apontamentos musicais da Escola de Artes do Independente Torrense e de tantos outros amigos (Manuel Veiga ,Rogério,Alfredo Monteiro,Joaquim Santos- ex e actual presidentes da Câmara Municipal) .
A todos presentes e ausentes que se manifestaram num abraço inestimável
- uma flor mais vermelha que os nossos lábios.
Eufrázio Filipe