sábado, 22 de março de 2014

NO CORAÇÃO DAS PEDRAS HÁ PÁSSAROS EM RISTE







Quando chegaste
sangravas de uma asa
menina dos meus olhos
pátria efémera
a rasgar palavras
despida de tudo

regressaste ao concerto
dos meus silêncios preferidos
vestiste a cal de branco
num véu de noiva
e escreveste uma frase
trinada nas paredes da casa
que ainda hoje conservo

no coração das pedras
há pássaros em riste


 

segunda-feira, 17 de março de 2014

UMA FLOR VERMELHA NAS PAREDES DO CAIS



                                                 Publicado no meu "Chão de Claridades"




Não sei quem és
mas pelos gestos vieste por bem
rasgar o vento com as mãos
a neve dos meus cabelos
e eu cansado de florestas apócrifas
das palavras em bando
comecei a plantar árvores
vi os pássaros regressarem
em acordes
a luz das noites que não dormem

na partilha de horizontes
o amor é revolucionário
voa nos mastros mais altos
garatuja búzios de sons
intervém por causas
muito para lá das utopias
e se levanta resiste
ao pôr do sol
mesmo que os barcos entristecidos
estilhacem
nos espelhos da água
algumas pedras com vida por dentro

registo por um instante
o ar que se move

pinto com a boca
na tua boca

uma flor vermelha
nas paredes do cais



 

quarta-feira, 12 de março de 2014

A MINHA JANELA








Subi todos os degraus
do teu olhar
só para te ver
na escarpa

enquanto subia
o teu olhar derramava-se
no meu chão

quando cheguei
ao mastro mais alto
onde só o vento
e algumas aves se atrevem
descobri um secreto rumor
a maresias

na verdade o teu olhar
rasgado por sobre o rio
era a minha janela

desmoronados os acessos
por lá ficámos a respirar
o silvo dos barcos

e as sombras


 

quinta-feira, 6 de março de 2014

TRANSUMANTE







Passo a passo com os cães
já fui à fala
até ao muro
decifrar garatujas

Ali fiquei
sentado numa pedra
na liturgia da luz
a confluir relâmpagos

Transumante
atravessei por um fio
rotas tresmalhadas

mas hoje
não sei porquê

apeteceu-me morrer
por um instante
nos teus braços


 

sábado, 1 de março de 2014

OLHOS REMOÇADOS



                                                    publicado no "Chão de Claridades"
                                                



No tempo em que crescíamos
a noite bramava tão parda
que nem parecia noite

de súbito um frémito de luz
pestanejou nos mastros do cais

o mar restolhou

e eu vi claramente
os teus olhos remoçados
alumiarem as águas

Após tantos relâmpagos vividos
julgavas estar preparada
para voar

mas os pássaros ainda aprendiam
a ter asas