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Passo a passo com os cães
já fui à fala
até ao muro
decifrar garatujas
Ali fiquei
sentado numa pedra
na liturgia da luz
a confluir relâmpagos
Transumante
atravessei por um fio
rotas tresmalhadas
mas hoje
não sei porquê
apeteceu-me morrer
por um instante
nos teus braços
publicado no "Chão de Claridades"
No tempo em que crescíamos
a noite bramava tão parda
que nem parecia noite
de súbito um frémito de luz
pestanejou nos mastros do cais
o mar restolhou
e eu vi claramente
os teus olhos remoçados
alumiarem as águas
Após tantos relâmpagos vividos
julgavas estar preparada
para voar
mas os pássaros ainda aprendiam
a ter asas
Imagem de Mário Nagamura
Texto publicado em 2008
As árvores viajam
na sombra do verde
um sussurro de folhas
e tu foges dos ramos
amanheces tão distante
que nem os meus olhos
descobrem os teus gestos
As árvores viajam
onde acontece a cor do fruto
no chão
e os pássaros sem amos
deixam que a sombra
se rebente
Meu povo
que fizeste das nossas flores?
Na fluidez dos gestos mais simples
pode renascer um certo fulgor
no brilho silvestre dos relâmpagos
Na memória tatuada
onde pastamos com os animais
um rumor de plantas
as línguas mergulham na saliva
consomem-se em cânticos
até às cinzas
Correm em bando os teus olhos
por cima das searas e dos ventos
porque é preciso transgredir
rasgar o véu que se demora em fascínios
encontrar no corpo interior
um sinal primitivo de nudez
uma pequena distração de flor
que agite o ambíguo coração das aves
e abra novos caminhos
por esse mundo onde todos os rios
deviam ser apenas água em movimento
provavelmente só os teus olhos sabem
que na obscuridade mais imperceptível
há um brilho indígena em gestação
Eis a nova ordem emergente
a gota de orvalho que fende a luz
o admirável grão de areia
que não repousa