quinta-feira, 6 de março de 2014

TRANSUMANTE







Passo a passo com os cães
já fui à fala
até ao muro
decifrar garatujas

Ali fiquei
sentado numa pedra
na liturgia da luz
a confluir relâmpagos

Transumante
atravessei por um fio
rotas tresmalhadas

mas hoje
não sei porquê

apeteceu-me morrer
por um instante
nos teus braços


 

sábado, 1 de março de 2014

OLHOS REMOÇADOS



                                                    publicado no "Chão de Claridades"
                                                



No tempo em que crescíamos
a noite bramava tão parda
que nem parecia noite

de súbito um frémito de luz
pestanejou nos mastros do cais

o mar restolhou

e eu vi claramente
os teus olhos remoçados
alumiarem as águas

Após tantos relâmpagos vividos
julgavas estar preparada
para voar

mas os pássaros ainda aprendiam
a ter asas



 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

QUE FIZESTE DAS NOSSAS FLORES?


 
 
                                                                             Imagem de Mário Nagamura
                                                   Texto publicado em 2008



As árvores viajam
na sombra do verde
um sussurro de folhas
e tu foges dos ramos

amanheces tão distante
que nem os meus olhos
descobrem os teus gestos

As árvores viajam
onde acontece a cor do fruto
no chão
e os pássaros sem amos
deixam que a sombra
se rebente

Meu povo
que fizeste das nossas flores?


 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ATÉ ÀS CINZAS







Na fluidez dos gestos mais simples
pode renascer um certo fulgor
no brilho silvestre dos relâmpagos

Na memória tatuada
onde pastamos com os animais
um rumor de plantas

as línguas mergulham na saliva
consomem-se em cânticos
até às cinzas



 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O ADMIRÁVEL GRÃO DE AREIA







Correm em bando os teus olhos
por cima das searas e dos ventos
porque é preciso transgredir
rasgar o véu que se demora em fascínios
encontrar no corpo interior
um sinal primitivo de nudez
uma pequena distração de flor
que agite o ambíguo coração das aves
e abra novos caminhos
por esse mundo onde todos os rios
deviam ser apenas água em movimento

provavelmente só os teus olhos sabem
que na obscuridade mais imperceptível
há um brilho indígena em gestação

Eis a nova ordem emergente
a gota de orvalho que fende a luz

o admirável grão de areia
que não repousa