domingo, 9 de fevereiro de 2014

A VOZ OCULTA DA LUZ



                                           "VIOLINISTA"  Diego Dayer



As pedras marinhas de tão azuis regressam à tona
juntam-se para respirar a paciência das aves
pousadas no ar
a cumprirem destinos de migalhas

(respiram fundo pelas narinas do vento)

Viris e soltas povoam afluentes puríssimos
novos celeiros

(talvez por isso queiram voar contra o rosto das palavras
ou pairar como sinais de penas)

As pedras marinhas reanimam a voz oculta da luz
que se quer liberta insofrida

(a coragem de lutar sobre ruínas)


 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

NA MEMÓRIA DAS PALAVRAS




                                Com a poeta LICÍNIA QUITÉRIO na Ericeira



Quando reivindico um sopro de música
para o teu andar de ancas vagaroso
sobre a nudez branca das dunas
é para despertar o sabor do vento
desfolhar os teus cabelos em partículas

Quando reivindico um futuro quase divino
para as aves marinhas que perfumam
as clareiras solares mais íntimas deste espaço
desejo apenas um porto seguro para o teu corpo
uma jangada efémera de cristal

Quando reivindico para ti um sonho verdadeiro
brotas do chão como um pomar de faúlhas
como se fôssemos uma lenda
em viagem sinuosa pelo tempo

És a pátria em alvorada que navego
e me desprende
o acesso intangível às brevíssimas papoilas
grão de areia esculpido com amor
na memória das palavras


 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

SE TIVÉSSEMOS UM BARCO



                                            Esta bela imagem é propriedade do fotógrafo
                                                                             Luis Rodrigues   




O mar
já nos tinha entrado pelo corpo
num abraço de limos
 
com bandeira e sangue
de cores lúcidas
 
Nesta ilha
se tivéssemos um barco
 
ai se tivéssemos um barco
 
seria inútil
 
Seremos como somos
onde estamos
 
 
 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A SOMBRA SE FAZ LUZ




 
 
 
 
Inextinguíveis
tardam os relâmpagos
mas o Inverno
gorjeia
dá sinais de vida
desfolha-se
no palco
onde a sombra se faz luz
e as amendoeiras
começam a florir
para espanto dos pássaros
 
  



sábado, 25 de janeiro de 2014

NA TUA VOZ



                                                                          Magritte                                      



Neste sítio de silêncios
sequestrados sem fronteiras

cantavas
cantavas
cantavas

e eu não sabia
se eras tu
ou um pássaro
simples  mente
a prender-me
o olhar
na tua voz