sexta-feira, 7 de maio de 2010

ANTES DE PÉ





Há uns dias disse na apresentação do meu " Para lá do azul " que a vida pode ser vivida sem poetas, mas nunca sem poesia.
Hoje apetece-me dizer - europa pois claro - mas não esta - vulnerável e cordeira, sem dimensão social evolutiva, a fingir de coesa, culta e solidária, a reboque do dólar e das agências americanas de rating.

Europa pois claro - mas não com o euro de joelhos perante um sistema selvagem
de arbítrios, a mando dos promovidos a donos do mundo, a saque nas mãos de um punhado de famílias nas duas margens do Atlântico.

Esta europa está à espera de quê - nesta liturgia penosa que expropria direitos
adquiridos aos pobres para os emprestar a juros altos aos pobrezinhos.

Esta europa está à espera de quê?

Com excesso de chefes e na ausência de lideranças credíveis, esta europa pífia,
revela incapacidades estratégicas para a construção de um espaço comum,
no respeito pela diferença - provoca inevitáveis revoltas, justas, globalizadas -
mobiliza o incomensurável exército dos pobres, cada vez mais arredados
nos subúrbios da vida.

Esta europa está à espera de quê?

Que os povos espoleados peregrinem silenciosos rumo à indiferença?
Que a esperança bendita nos céus calem os vulcões?

Antes nas ruas, em protesto.

Neste chão - antes de pé. 

segunda-feira, 3 de maio de 2010

PARA LÁ DO AZUL


Foi um agradável momento - um encontro de amigos - a apresentação pública do meu " para lá do azul "
na galeria Augusto Cabrita no Seixal

... ... quando um dia escrevi - " hoje acordei a fazer versos ou quase nada " sabem a que horas acordei? A deshoras.
Estavam ainda os barcos de remelas no cais e uma senhora que inventei de cabelos brancos a tricotar nos mastros mais altos
os meus melhores sonhos e outros destinos
a apontar infinitos desconhecidos
que sempre me atraíram

Essa senhora é a pátria dos meus "vagarosos instantes"
a içar velas, a partir e a chegar
um chão de espumas a marulhar silêncios partilhados

Talvez por isso, um outro dia escrevi " sopro-te e voo "

Foi quando a senhora de mim me ofereceu uma flor vermelha
para nidificarem as marés
e eu respondi

Estas são " palavras  vertebradas " escritas à mão
no branco dos seus cabelos
porque a vida pode ser vivida sem poetas
mas nunca sem poesia

Após um breve silêncio pareceu-me ouvir

" Para lá do azul "
talvez ainda seja mar





quarta-feira, 28 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

CHÃO DE PÉTALAS

                                                          Gustav Klimt




A princípio eras um nimbo
a desfolhar-se
por entre mastros
no remanso das águas

um rio a gatinhar escombros
em surdina
um farol a projectar mais longe
a luz retida no cais

Foi assim
vestida de barcos
que te vi içar velas
contra o vento
até os olhos se fundirem
num vagaroso instante

Foi assim
que te ofereci os meus silêncios
muito antes de madrugarmos em flor

num chão de pétalas




quarta-feira, 14 de abril de 2010

BEIJO O TEU RETRATO





Nunca vivemos mares deshabitados

nem hoje quando passo
só para te ver
resgatar aromas
à nossa flor preferida

nem hoje quando nos olhamos
como se fossemos um rio
no chão de uma ponte
e o chão da ponte fosse um espelho
de águas interditas
onde ainda não se pode passar

Quando os barcos se fizeram à claridade
entraram pelo corpo a cantar
ao som de um relógio de pêndulo

talvez por isso

nas paredes da casa

beijo o teu retrato