quinta-feira, 8 de abril de 2010

PELA BERMA DOS TEUS OLHOS





Levantámos âncoras
libertámos o pó das azinhagas

e foi assim

a bordejar caminhos
que as gavinhas cresceram
enclavinhadas nas nossas mãos

Muito para lá da erosão do tempo
folha ante folha
ainda há um barco que se ateia
contra o vento
um pássaro que resiste
e se demora nas arribas

nos mesmos sítios onde vertiginosas
se desmoronam as palavras

pela berma dos teus olhos





quinta-feira, 1 de abril de 2010

UM RIO SEM MARGENS

                                                     René Magritte


Nas minhas veias já fluia um rio
quando julgávamos saber tudo
mas ainda não tinha nascido a primavera

Aconteceste herética solta e doce
no meu cavalo
desobrigada de destinos

Eu sabia que partilhávamos o uivo
quase infinito dos cães

só não sabia se anoiteciam
ou iluminavam as nossas estrelas

Encontrámo-nos estranhos
numa povoação de salivas
e foi assim que partimos
a navegar azinhaga fora

Apanhávamos amoras e papoilas
despojados de tudo
menos da tua voz silvestre
onde um pássaro desconhecido
cantava um rio sem margens
até ficarmos presos nas silvas

Vamos construir um barco?

Que fizeste do meu cavalo
e do uivo dos cães?

Estão a chegar meu amor

quinta-feira, 25 de março de 2010

MAIS VERMELHA QUE OS TEUS LÁBIOS

óleo de SVETLANA NOVIKOVA



A noite carregava
a sua própria sombra
mas nós carregávamos uma noite
que não era a nossa

quando uma luz de sal
despontou nas paredes do cais
para ergueres as pálpebras
e veres claramente
espalhadas no chão dos barcos
o que pareciam ser
as últimas flores do Inverno

Tu sabias
que estavam a medrar
novas marés
quando subiste à gávea
dos barcos ancorados
para confirmar o rosto branco
da madrugada

Tu sabias
que alguém andava
a lavrar desertos
para nascer uma flor
mais vermelha que os teus lábios




sexta-feira, 19 de março de 2010

MÃOS VERTIGINOSAS







Nos meus dedos as tuas mãos
são vertiginosas
capazes de criarem asas
para voarmos quase imortais

mas hoje inconciliei-me
com as tuas mãos
porque sufocaste um pássaro
ferido na voz
e desenhaste no chão
a dor que sentimos

Eu conhecia mal as tuas mãos
mas quando as vi nos meus dedos
a rebentarem em flor

perguntei-me

É preciso matar um pássaro
para nascer a primavera?




sábado, 13 de março de 2010

SEM MUROS NEM AMOS




Tinhas um nome secreto
para acordar os pássaros
mas deixavas cair um sinal
muito antes dos barcos ancorarem
lá onde costumo pegar ao colo
os poemas e partias

No domínio dos silêncios interditos
desvendavam-se as escarpas
quando florias sem muros nem amos
no chão do Inverno
lá onde desmorono as arestas das palavras
só para te ver chegar e partir

tão secreta que nem eu sei
como envelhecemos assim
inscritos na rasgada escarpa
onde demorados
ainda hoje
dormem os pássaros