
Enquanto aquele anjo permanecer nas areias, bem pode o vento soprar
- O cão ou o velho?
Lentos, tropegos, com os pés a tracejarem os caminhos de sempre, todos os dias aquelas almas percorriam memórias.
O cão - mais velho que o dono - era o guia, a sua bengala de cego.
Pela orla da praia, desde a gruta onde viviam até à colossal duna, abrupta sobre as águas, as aves marinhas mergulhavam a pique e esbracejavam só para os salpicar. Lá íam - serenos - livres - sem palavras - imensos.
No ar o sussurro dos silêncios embalava-lhes os passos num concerto de maresias.
Chegados ao topo da montanha era sempre assim - o velho afagava as orelhas do cão e o cão lambia-lhe as mãos.
Sentados - respiravam infinitos - o perfume das algas - adormeciam no tempo.
Ao longe, muito ao longe - alguém de um barco bramou
- Fuja - a duna vai desmoronar-se.
Imperturbável respondeu baixinho para não acordar o cão.
- A duna sou eu.