sábado, 7 de março de 2009

4 PAUSAS PARA UMA PAUTA

Picasso
Óleo de Olbiski
Inclino-me
para te oferecer
a única flor púrpura
deste chão
e só depois recolher
a tua infinita nudez


Tens mais barcos
nos olhos
que todos os mares
e eu só posso
dar-te os meus


Acordei inesperadamente
a sombra dos corvos
clareei as sílabas
no timbre pautado das marés


Caminho por entre
os ponteiros do relógio
precisamente
no espaço livre do tempo
para regressar às pausas
intermitentes

segunda-feira, 2 de março de 2009

QUASE PERFEITOS

Almada Negreiros


Estava tão leve e desnudo
o teu rosto no espelho da água
que se enlearam nos limos
os nossos olhos

Foi assim que adormeceste intacta
em novelos de espuma
e eu soletrei os contornos
dos teus cabelos soltos
que de tão brancos
se tornaram divinos

Em silêncio recolhi a sombra
nas paredes da casa
soltei as âncoras
do meu barco preferido
e partimos em cinzas
tão leves tão breves

sem rasto

quase perfeitos


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

MARINHAS VALENTES


No chão dos marnotos caminhamos azinhagas, comemos amoras, tropeçamos memórias, pedras, pérolas e pó - para compreendermos melhor as palavras de carne e osso até as metáforas se ajoelharem como pequenos deuses inúteis, à nossa mesa.

Só depois provamos o sal das marinhas. A safra.
O tempo dos homens que se chafurdam no moliço.
A distancia que nos atrai e separa, a pele esfarrapada para resistir aos Invernos, mastros de flores salgadas nos olhos distantes a gatinharem no tempo, até ao aborrecimento final.

Após a "botadela" a marinha começa a parir uma massa branca que envaidece os homens quando se olham
nas sombras curvas projectadas na água.

O sal aparece ao ar livre. Reunido em montículos junto aos tabuleiros das marinhas e
aí fica a escorrer as últimas lágrimas. Depois é o marnoto que enche canastras transportadas à cabeça dos moços. Depois é sempre assim. O mesmo peso até estar construído o grande cone branco.

Antes de regressarmos às azinhagas e comermos o resto das amoras, os homens reunem-se ao cair do dia, para festejar.

Enquanto se embebedam, cantam com a ajuda de uma gaita de beiços. Há sempre um que vomita e volta a cantar.

São os rudes corações de oiro, meninos triturados, construtores de marinhas valentes. São os que transformam água em pão, enquanto à nossa mesa se ajoelham as metáforas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

VOZES DE PÁSSAROS NA SOMBRA DOS CÃES


Tímbricas as vozes resgatadas aos pássaros silvestres, mesmo que a chuva purificada se precipite nas nossas asas improváveis.
Cantam a horas certas mas nós continuamos a não reconhecê-los pela voz.
Não fora ainda a sombra dos cães no espelho da água, a deslocar-se vagarosa - como seria possível saber ouvir em silêncio o ladrar desta vida?
Na verdade atravessámos uma série de estações, apeadeiros vertiginosos, com mais ou menos estrume na caldeira das árvores, mais poda menos poda, nos tempos incertos de sempre, só para projectarmos palavras insondáveis.
- Os cães só têm força no maxilar inferior. Se o prender com o polegar não será mordido.
- Nunca dei grande valor a esse dedo. Está a desconversar.
- Confirmo que a Lassie está grávida.
- Não prescindo do perfume que os livros me oferecem, nem do insuportável pó das bibliotecas.
- Reparo que não está disponível, mas recordo que foram os cães que nos aproximaram.
- Nós aproximámos os cães.
- Seja como for, os velhos não deviam ter idade para mentir.
- Que idade tem a sua cadela?
- É inocente.
- O Dique está no ciclo confortável dos que desejam ser avós, mas ainda não têm filhos.
- Estamos perante uma agradável desconstrução da fala.
- Faz recordar-me Lobo Antunes que já não se considera escritor mas tão só um instrumento de Deus para a escrita. Pegam-lhe na mão e ele escreve.
- Está a desconversar.
- Oiça. Era uma vez um país à beira-mar betonado, paraíso de lágrimas a prestações. Um deserto de braços caídos e alguns resistentes. Duas lágrimas hoje, uma outra amanhã. Lágrimas nunca choradas ao mesmo tempo, com medo de se afogarem.
- Fui eu que lhe peguei nas mãos.
- Por um instante oiça como são harmónicas e aveludadas as vozes dos pássaros na sombra dos cães. Como tudo se move e transforma neste palco, a partir do nada.
- A noite caíu para nos abrir os olhos.

- Certo. Traga os cães. A partir de hoje seremos uma família. De facto.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

ILHAS ADJACENTES




Na alquimia do tempo que faz, há sempre um albatroz que atravessa as arcadas da memória, desfaz-se em gestos de ternura, dissolve-se no pôr-do-sol, invade-nos o sonho, passo a passo.

- Desejo que germines em vagas nas arribas, que rebentes a marulhar no labirinto das areias.

- Desejo que nunca encontres marinheiros cegos, muito menos na esquina das palavras a apascentarem barcos prateados com mãos incompletas. Desejo-me ficar aqui no perfume dos limos, mesmo que as vagas só despertem por sobre os restos do último naufrágio.

- Sejamos navegantes desgrenhados contra todos os destinos.

- As melhores viagens acontecem sempre antes da partida e no regresso. No ciclo das marés. Só assim consigo partilhar o ardor das velas do nosso mar.

- Pareces a ministra que conheci no dia da remodelação do governo.

- Meu amor - rema.

- Não consigo dormir.

- Vamos fazer amor?

- Só nos espelhos.

- Hoje não estou a gostar do modo como os espelhos nos olham. Este rio está uma sopa. Ressoa brando na fissura das pedras.

Repara como a praia deserta se amontoa de areias sem abrigo.



Inesperadamente um albatroz poisou magestoso, aos nossos pés. Fixou-nos com olhos vivos e perguntou-nos baixinho num afago de asas - " de que cor são os meus olhos? " - e tu não soubeste responder.

- Apetece-me viajar. Porque não vamos ao Bugio?


Construimos um barquinho de papel e partimos ao sabor da brisa.

Lá estava, sentado nas águas do rio, imponente, coluna na vertical e sereno. Sábia fortaleza, sempre alerta - hoje um farol a piscar os olhos no estuário do Tejo, como nós - ilhas adjacentes.


- Vamos fazer amor?

- Ainda não disseste a cor dos meus olhos