
Tímbricas as vozes resgatadas aos pássaros silvestres, mesmo que a chuva purificada se precipite nas nossas asas improváveis.
Cantam a horas certas mas nós continuamos a não reconhecê-los pela voz.
Não fora ainda a sombra dos cães no espelho da água, a deslocar-se vagarosa - como seria possível saber ouvir em silêncio o ladrar desta vida?
Na verdade atravessámos uma série de estações, apeadeiros vertiginosos, com mais ou menos estrume na caldeira das árvores, mais poda menos poda, nos tempos incertos de sempre, só para projectarmos palavras insondáveis.
- Os cães só têm força no maxilar inferior. Se o prender com o polegar não será mordido.
- Nunca dei grande valor a esse dedo. Está a desconversar.
- Confirmo que a Lassie está grávida.
- Não prescindo do perfume que os livros me oferecem, nem do insuportável pó das bibliotecas.
- Reparo que não está disponível, mas recordo que foram os cães que nos aproximaram.
- Nós aproximámos os cães.
- Seja como for, os velhos não deviam ter idade para mentir.
- Que idade tem a sua cadela?
- É inocente.
- O Dique está no ciclo confortável dos que desejam ser avós, mas ainda não têm filhos.
- Estamos perante uma agradável desconstrução da fala.
- Faz recordar-me Lobo Antunes que já não se considera escritor mas tão só um instrumento de Deus para a escrita. Pegam-lhe na mão e ele escreve.
- Está a desconversar.
- Oiça. Era uma vez um país à beira-mar betonado, paraíso de lágrimas a prestações. Um deserto de braços caídos e alguns resistentes. Duas lágrimas hoje, uma outra amanhã. Lágrimas nunca choradas ao mesmo tempo, com medo de se afogarem.
- Fui eu que lhe peguei nas mãos.
- Por um instante oiça como são harmónicas e aveludadas as vozes dos pássaros na sombra dos cães. Como tudo se move e transforma neste palco, a partir do nada.
- A noite caíu para nos abrir os olhos.
- Certo. Traga os cães. A partir de hoje seremos uma família. De facto.