quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

ACENDAM AS VELAS


Sempre convidamos a nossa avó quando se prevê tempestade, de preferencia com relâmpagos e ventos fortes.
A nossa avó é uma jovem princesa, um cristal que ressoa marés e adora o tempo agreste.
Sempre desafiou sonhos impossíveis - mas com alguns conquistados, projecta-nos amanhãs.
A nossa avó sempre nos disse que não era perfeita por não acreditar em verdades absolutas. Acredita na poesia. Menos nos poetas, criaturas artesãs de palavras que almejam aproximar-se dos deuses para morrerem com eles, talvez mais infelizes.
A nossa avó nunca explicou esta aparente contradição - talvez por isso não tolere um convite para um dia de tempestade que não se cumpra com relâmpagos.
A previsão de intempérie para o fim-de-semana, afoitou-nos para um convite à nossa avó, que aceitou e foi recebida com todos os detalhes.
Ficámos felizes - nós e os cães.
Reunidos assistimos às horas que passavam. Desaguámos em conversas de família e memórias. Recitámos Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, David Mourão Ferreira e José Gomes Ferreira.
Os cães junto à lareira abanavam o rabo e davam sinais de nervoso. Estávamos bem mas a tempestade tardava.
De súbito, lá fora, a chuva dava inicio a um concerto magnifico. Em crescendo. Precipitava-se com força. muita força. Torrencial. Com relâmpagos. Um dilúvio a ribombar.
- Abram as portas.
Abrigados no alpendre assistimos ao espectáculo. Coisa linda.
Os cães nem tossiam, e a nossa avó - em festa, com olhos gulosos e meigos, afagava os trovões.
Ainda mais felizes ficámos quando um relâmpago mais forte apagou todas as luzes da azinhaga e da casa. No escuro a tempestade vivificava a negritude. Purificáva-nos.
Mais tarde o tempo amainou. Recolhemo-nos. Acendemos velas e candeeiros a petróleo. Sentámo-nos à mesa.
- Reparem como após o magnifico concerto, também aqui são belas as imagens da sombra, os retratos nas paredes. Como se evidenciam os contornos dos objectos, a arquitetura dos sons. Como respiram os nossos rostos e tudo se movimenta. Simplesmente tudo se move ao ritmo dos afectos recriados pela luz das velas. Reparem como fruimos dos sons quando o silencio se cala para nos aproximarmos mais uns dos outros. Como tudo isto seria um paraíso se fosse uma opção e não uma circunstancia.
- Avó - agora também não temos alternativa e isso doi-me.
- Pois é, mas sabes que um qualquer desconhecido
está a trabalhar para resolver o teu maior desejo.
Os cães só abanavam o rabo quando a avó falava. Talvez por isso fizemos uma pausa breve até que uma voz grave mas pautada começou a interpretar um tema de jaze, precisamente quando regressou a luz eléctrica e nós de imediato soprámos as velas.
- Por favor. Ainda não terminei. Apaguem as luzes. Acendam as velas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

SEARA NOVA



Seara Nova - uma revista que continua a ousar ser livre - escrita e dirigida por homens e mulheres livres.




quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

ROSA FOLHEADA





AMANHECI

A DESENHAR

O TEU CORPO

PARA DESFOLHAR

UMA ROSA



PORQUE NÃO UMA ROSA?



TODAS AS FLORES

SE DESFOLHAM



TAMBÉM TU ROSA




sábado, 24 de janeiro de 2009

UM HINO ÁS TEMPESTADES



Na tremulina deste mar

que não se consente agrilhoado

mesmo que seja breve o azul

no perfume das águas

mesmo que o cíclico pássaro

de plenas asas

adocique o bando

não te vejo a abandonar a luz

clara silvestre dos relâmpagos


O ar que respiras

pelas narinas do vento

continua a movimentar-se

agita as dunas

grita nas falésias

contra a absolvição dos destinos


Submerso no chão das maresias

um dia virás à tona

só para tanger um hino

à ternura das tempestades

mas o brilho dos teus olhos

de tão órfãos

ainda terão uma pedra

para atirar às estrelas

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

OBAMA BIBLICO POIS CLARO

Por aqui chove, faz frio e o sol tímido espreita por nesgas.

Enquanto reproduzo o vídeo que a minha confrade Gabriela, amavelmente me recordou - interrompo o tempo
para assistir ao grande momento.
No relativo de todas as verdades - também Vinicius
de Moraes se considerou o branco mais negro do Brasil.

Obama que deixou de ser Hussain passou a ser o negro
mais branco dos E.U.A. - e eu vulgo mortal, gosto da minha pele e respeito a pele dos outros - não me apetece mudar, pelo simples facto de não me rever nas raças humanas mas tão só nas pessoas de todas as cores, credos e géneros.

Entretanto Obama já alertou o mundo para o facto
de estarem a colocar a fasquia alta, por excesso, quanto à sua prestação.
Este facto constitui uma diferença - pois na verdade não
existem homens providenciais e até Darwin, um revolucionário do seu tempo, rejeitou o sobrenatural.

Uma coisa parece evidente - na Palestina os objectivos foram cumpridos com 1400 mortos - precisamente até
à vespera da tomada de posse, com sentidas referencias
à tradição bíblica.

Vinicius - sempre
Obama - pois claro

Por aqui - nem a chuva, nem o frio, nem o sol, prometeram parar.