domingo, 28 de dezembro de 2008

ATÉ SER OUTRO DIA

Óleo de Vincent Van Gogh


Aparentemente só uma lágrima fria e um súbito nevão assumem a responsabilidade pelo bloqueio às vias alternativas.

Mesmo assim - atraídos pela música de Strauss que irradiava pelas frinchas de uma janela, atrevemo-nos a desaguar nas redondezas da mesquita.

Sentado na caixa de polir, meio desconchavada, fazia sorrir os sapatos passageiros e os seus braços estavam cansados do vai-vem e as suas mãos eram pomada e os seus dedos tremiam e o seu desejo era dar um estalido com o trapo, capaz de arrancar uma palavra de conforto.

Com olhos de esmeralda a rolarem pelo chão - em busca de outros sapatos, só via pés descalços - e a caixa gemia.

- Estou a conhecê-lo?

- É bem possível - eu não fugi de mim. Retirei-me temporáriamente para este exílio, porque sois um país pobre e aparentemente livre.

- Os pobres não são livres.

- Depende do seu código de valores. Eu combato paraísos artificiais e em nome da minha liberdade, beijo uma flor, engraxo-lhe os sapatos.

- Estou a conhecê-lo.

- Talvez. Quando um homem é notícia após ser agredido por quem nos ama, só a poesia pode decifrar a metáfora. Talvez seja o seu caso.

- Não insistas.

- Posso insistir?

- Pode.

- O senhor é Muntazer al- Zaidi.

- Meu caro desconhecido, quando Galileu, em defesa da sua teoria, jurou que a Terra girava em torno do Sol, foi condenado. Só muito mais tarde o Vaticano admitiu ter errado na sua condenação.

- O senhor morde nos sapatos do dono.

- Não. Eu estou orientado para Al-Aqsa. Em nome da minha liberdade, só me vergo para beijar uma flor ou engraxar-lhe os sapatos. Até ser outro dia.

Retirámo-nos - ainda com os acordes de Strauss.


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

CÃO QUE PENSA

video

ENTRE BELÉM

E S.BENTO

HÁ UM CÃO QUE PENSA

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O NATAL VAI COMEÇAR


O Inverno faz as pessoas recolherem às cavernas para melhor se amarem.
Sacode-se nas árvores penadas, inventa polícromos arco-iris, manifesta-se lúcido contra a perfeição, faz trejeitos ao rosto. Ri-se - nos olhos de toda a gente.
Lá no alto, por cima das nuvens de chumbo, levanta a voz dos relâmpagos e às primeiras pancadas de Molière, abre o pano. Vem ao palco e anuncia.
- Senhoras e senhores - " a fábula, é uma pintura onde podemos encontrar o nosso retrato".
- Que dia é hoje?
- Silêncio.
- Senhoras e senhores - ides assistir à mais fabulosa história da minha estação.
As luzinhas furta-cores são as mesmas. O mesmo barro, o mesmo pinheiro, o mesmo musgo, as mesmas pedras. A mesma estrelinha na carapinha do mesmo presépio. O mesmo rebanho, os mesmos pastores, a mesma palha, o mesmo bafo.
Ides ser cúmplices dos animais, dos anjos que vão cair pelas chaminés nos sapatinhos dos meninos ajoelhados - até ao momento em que o galo cantará.
Lá fora as ruas estarão um sonho - até nos olhos colados dos outros meninos - nas montras do céu.
Tudo será luz nas casas iluminadas, nos corações vibrantes - menos nos olhos sem abrigo.
Vai chover. Amai-vos uns aos outros.
Eu sou o Inverno e o Natal vai começar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

COMBATER A INDIFERENÇA


Completam-se hoje 60 anos da publicação do texto
"Declaração Universal dos Direitos Humanos"
a que alguns distraídos chamam dos direitos do homem.
Trata-se de um texto utópico - incumprido - talvez
por isso mobilizador da vontade dos povos, contra todas as formas de tirania, mesmo as que são exercidas por Estados ditos democráticos.
60 anos evocativos que também no nosso país exigem
combate contra todo o tipo de discriminação exposta -
nomeadamente contra as mulheres, as crianças e os idosos.
É urgente combater a indiferença, porque não basta manifestar a solidariedade com as vítimas .

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

SOPRO O VENTO






Sitiada por um deserto de sílabas

lá onde a escrita nos esconde

dormes por cima do olhar

no outro lado das videiras



És o meu castelo

a hastear todos os dias

uma nuvem contra o tempo

um cristal que se alimenta

do próprio brilho



Risco um fósforo

ateio as mãos

para desvendar silêncios pendentes



Subo às ameias do teu corpo

para recuperar as minhas pedras

sopro o vento

para te ver dardejar

por sobre as areias

beber do teu vinho


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O CAOS DO SODRÉ




Tinha pássaros de esmeralda nos amendoados olhos vivos, " the four season " de Vivaldi, quando as mãos esguias se expressavam por gestos e nós lhe respirávamos o sorriso franco nos contornos do rosto. Exibia um sinal lindo no lado esquerdo dos lábios sensuais e uma longa madeixa de cabelo, meticulosamente entrançado, cor da hulha, pendia-lhe
no decote generoso, por entre os seios, alongava-lhe
o corpo balzaquiano.
Fluente de palavras, não disfarçava o sotaque do leste
latino, nem a simplicidade com que se vestem as pessoas
cultas.

Estávamos na esplanada da centenária Brasileira do
Chiado, afagados pela estátua a Fernando Pessoa.

- Como se chama?
- Ofélia.
- Ofélia?
- Sim, Ofélia Dumitriu. Sou romena, nascida em Malaia,
uma aldeia distante de Bucareste. Sou professora de história de arte, mas ainda não encontrei emprego neste
país.

- Interessante, eu fui ministra da cultura.
- Eu sou apicultor.
- Apicultor?
- Sim, apascento abelhas.
- Que faz a Ofélia desempregada?
- Tal como Fernando Pessoa, " se depois de eu morrer
quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença e a da
minha morte. Entre uma e outra, todos os dias são meus."

- Parece conhecer bem o nosso chão.
- Faço de guia, sonho por conta própria e muito risco.
Arrisco.

Foi assim que viajámos. Deixámos a Brasileira do Chiado e percorremos a rua do Alecrim, uma janela de ar
fresco, rasgada em declive para o Tejo. A Ofélia lá nos foi
descrevendo com detalhes, a história da estátua - hoje uma réplica - de Eça de Queirós, o traçado da rua desde o
terramoto de 1755, o edifício de Siza Vieira, os alfarrabistas - até desaguarmos na Praça do Duque Terceira, uma
das zonas mais chiques da cidade oitocentista.

- Ali ficava o Grand Hotel Central, que Júlio Verne
frequentou e onde parte de "Os Maias" foram inspirados.
A tarde já se tinha esfumado. O sótão do mundo estava coberto de nuvens. Soprava uma brisa fria que nos cortava a pele de mansinho. O rio tossia e nós recolhemo-nos num bar irlandês.

- Os senhores são bem-vindos, mas a Ofélia não pode entrar.
- Desculpe mas esta senhora é nossa convidada. porque lhe está a vedar a entrada?
- A Ofélia sabe que tem muitos pássaros nos olhos.
Sentámo-nos na esplanada. Tomámos chá de S.Roberto.
Em silêncio a Ofélia ouviu-me dizer o texto de Eça no qual se inspirou o escultor Teixeira Lopes.

- " sob a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia" .

Entretanto começou a chover. Uma goteira impertinente que se esgueirou do toldo, derramou-se no texto. As palavras - uma a uma - caíram no chão que ficou azul - todo azul, neste caos do Sodré

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CONGRESSO DO PCP


UMA VEZ MAIS AS PINTAS NOS IS

PARA QUANDO O POVO NOS QUISER

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

DÉDALO DE BRUMAS

óleo de OLBINSKI

Só queríamos um espaço

rasgado

onde fosse possível voar

sem olhar os pássaros


um silêncio de pavio

a preto e branco

um qualquer infinito

onde cruzássemos outros timbres

e fossemos a última folha

do outono

em pleno voo


Só queríamos afagar a nudez

em todos os póros

e foi tão pouco

que ainda hoje te procuro

neste dédalo de brumas

precisamente

no lado incerto do espelho

onde me dispo

domingo, 23 de novembro de 2008

O CEGO DAS ESQUINAS




- Digo-te a bruma coada na cidade, para extase do porvir.Incito-te ao levantamento do chão onde adormecem lábios e pedras em murmúrios e salivas - só para te ver transgredir as pautas.

- Eu digo-te uma luz ao fundo, protegida por sombras e sons, numa campanula de pedras em arco.

- Repara no cego.

- Repara no cão.

- Quando chega a casa - imagino um cubículo de madeira - o cego das esquinas mergulha as mãos no saco das bofetadas, retira-as para o tampo da mesa e conta o abandono a que o votaram em cada moeda coitadinha.

- É o cego das esquinas. O tempo de rastos.

- Quem anda a montar o tempo?

- São os donos dos prédios altos que fazem esquinas para cegos.

- São os fazedores de cegos, os vendedores de concertinas.


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

RISCO AZUL




TRAÇO NA ÁGUA

UM RISCO AZUL


SOLTO-LHE AS VELAS

DO SILÊNCIO


ASSIM RASGO UMA PEDRA

COM VIDA POR DENTRO


sábado, 15 de novembro de 2008

O APEADEIRO DA BEMPOSTA



- Vamo-nos perder. É uma necessidade respirar outros silêncios para nos encontrarmos.
- Vamos descobrir-nos.

Assim partimos - em viagem, com todo o tempo - por vales, rios e montes - mapas rasgados a despertar azinhagas e amoras silvestres.

- Um dia farei das minhas pedras preferidas - pássaros azuis.

- Pois.

Foi assim que tropeçámos numa aldeia - casas dispersas, outras geminadas, um café, uma taberna, uma mercearia, uma capela, um pelourinho e um apeadeiro de caminho de ferro. Uma aldeia linda, afagada por canaviais, chorões e o cantarolar de um riacho onde corriam águas cristalinas.

Dirigimo-nos ao "Café Moderno" que exibia um jogo de matraquilhos, seis mesas, uma máquina de tirar tabaco e um rádio antigo em voz alta.

- Como se chama a vossa aldeia?

- Bemposta. Diz a lenda que uma senhora real, muito bem vestida e triste, visitava aqui um aldeão. Vinha de charrete e depois partia, nua e sorridente. O Alexandre é que sabe explicar estas coisas. Deve estar no apeadeiro.

Fomos ao apeadeiro e encontrámos o Alexandre - um velho que se recusava a ser velho, sentado num banco, em frente à linha dos comboios.

- Velho não - idoso com muita experiência.

Um dia quiz ser músico, precisava de dinheiro e parti. A minha vida foi sempre partir e chegar.

Emigrei para uma grande quinta, sem contrato, perto de Marselha. Uma vez por ano trabalhei na apanha da maçã.

Três armazens albergavam o pessoal- portugueses, espanhois e polacos .

Os que chegavam primeiro, apanhavam camas, os outros dormiam no chão. Quase sempre chovia nos armazens. No primeiro ano rasgou-se o meu impermeável. Não foi fácil resistir, mas resisti.

Cada um tinha um "rego" com cinco quilómetros de macieiras.

Colocávamos o cesto de verga, com alsas, amarrado à cintura - subiamos e desciamos o escadote, até apanharmos 350kg por dia. Quem mais apanhava mais ganhava.

- Mas quem mandava em si?

- Eram as maçãs. Enquanto houvesse uma maçã na árvore, quem mandava era a maçã. Ouvi dizer que a liberdade não cai do céu, conquista-se no chão que pisamos, mas no meu caso, só de escadote, em cima das macieiras.

À noite cada um fazia o seu jantar e o almoço para o dia seguinte. Estoirados dormiamos à pressa.

Só tinhamos o domingo para ir no atrelado do patrão, abastecer-nos para toda a semana e divertir-nos à chegada no armazem dos polacos.

Os tipos estacionavam um volkswagen a cair de podre junto do armazem e ligavam o rádio. Uns dançavam com as mulheres que por ali andavam, outros por falta de mulheres embebedavam-se e jogavam às cartas.

- E no dia seguinte?

- No dia seguinte as maçãs geladas entravam-nos pelas mãos até aos ossos.

Um polaco que se dizia iluminado por Deus gritava todas as manhãs - " estou no topo do mundo" . Um dia caíu do escadote, partiu os dentes e deixou a religião.

Nunca consegui dinheiro suficiente para ser músico, mas fiquei para sempre com uma mulher no coração. Todos os anos nos encontrávamos e o patrão colocáva-nos sempre nos "regos" ao lado um do outro.

Nos últimos anos só partia a pensar nela - uma santa mulher, mais linda que a Bemposta. Parecia um pássaro azul.

- Pois.

Talvez por isso aqui venha todos os dias, dar corda ao relógio do apeadeiro, que ainda funciona.

A vida continua - só o comboio é que já não passa por aqui.

- Posso fazer-vos uma pergunta?

Que fazem os senhores na vida?

- Valha-nos o tempo das estações.

Andamos perdidos, senhor Alexandre.


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O DESASSOSSEGO DAS MARÉS

Despedida

Emergimos das águas fundas

até a luz quase perfeita

chover nas nossas línguas

soltamos o corpo

inventamos espaços para voar

mordemos os lábios

em pleno voo

para libertar a sombra dos pássaros

e num toque fugidío

que ainda hoje espuma

caímos dos céus

com a chuva

Na verdade

hoje não queremos

salvar o mundo

apenas celebrar o desassossego

das marés

sábado, 8 de novembro de 2008

PAPIRO EDITORA - O INSÓLITO

Dra Vera ( bibliotecária) - Eufrázio Filipe - Alfredo Monteiro (Presidente da Camara)
O insólito aconteceu.
A PAPIRO EDITORA, no momento do lançamento do meu livro de poesia "Que fizeste das nossas flores"
anunciou que por acidente os livros tinham ficado na estrada.
Obviamente ninguem aplaudiu a PAPIRO EDITORA.
Apesar do insólito - agradeço a presença dos muitos amigos, ao presidente da Camara Municipal do Seixal à bibliotecária responsável pelo forum cultural,e ao professor Luiz Garcez que nos brindou na guitarra clássica. Também ao Alexandre do Fundamentalidades pelas fotos que me enviou.
Aguardo que brevemente a PAPIRO EDITORA torne disponível o meu livro .

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

domingo, 2 de novembro de 2008

O TEMPO DAS CEREJAS

José Mário Silva - autor do blogue "Bibliotecário de Babel" vai concorrer ao " Best of Blogs " concurso internacional que destingue os " melhores" do ano.
A votação acontece em http://www.thebobs.com/
Se de mim dependesse otempodascerejas.blogspot.com - do Victor Dias seria o meu eleito - sem pestanejar.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

NO TOMBO DOS DIAS


Nos interstícios de cada maré
os violinos têm por hábito
adormecer
só para respirarem
os frutos primitivos do silêncio
nos teus braços
Definitivamente descalça
tão linda e tão triste
nesta manhã que se arredonda
fluis como um rio
de costas para a cidade
no tombo dos dias
Assim colho os perfumes dissonantes
solto os cabelos
para me enlaçar
no teu canto
e talvez inutilmente
sacudir-te de sombras

domingo, 26 de outubro de 2008

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A PÉROLA


Na plateia - adversários e inimigos de ocasião, cumprimentavam-se alegremente. As senhoras - umas finas, outras anafadas, outras simplesmente - exalavam uma complexidade de perfumes e tiques, ao lado dos seus amantes. Ali estava em síntese, a chamada nata da nação.
No palco - antes de tomar a palavra, o dr. O.K. lançou os dedos ao nó da gravata. Não o apertou. Guinou-o com elegância para o lado direito.
De um dos punhos da camisa um botãozinho de pérola certificada, precipitou-se do palco e rolou - rebolou-se pela carpete parda que dividia a plateia.
Um senhor bem posto,sentiu a coisa linda mesmo junto de si. Esticou a perna e assentou-lhe a sola do sapato.
As luzes do auditório apagaram-se para que todos se concentrassem no palco onde alguem anunciou
- Está aberta a sessão. O dr. O.K. vai esclarecer o país.
Na sala - pejada de gente lustre, ouviu-se estridente uma saraivada de palmas, que o dr. O.K. agradeceu.
- Não bateu palmas?
- Como sabe, hoje aceitei ser apenas a sua bengala de cego.
No palco - com um plasma gigante, o orador iniciou o discurso. O país estava em directo. Suspenso. A plateia paspalha arfava como o ar que se respira a si mesmo.
- Senhoras e senhores, meus amigos - dirijo-me ao país num momento difícil para a civilização ocidental. A vida tem ciclos, blá, blá, blá, mas o nosso país blá, blá.
O sistema liberal excedeu-se, a crise instalou-se, mas não abandonaremos as dinâmicas do mercado, porque o Estado não faliu.
Senhoras e senhores, compatriotas - por cá estamos reunidos, em família, blá, blá.
Como sabeis a nossa economia está em baixa, as nossas finanças dependentes do exterior. O país terá de apertar o cinto. Lamento ser tão agreste mas de mim só podeis contar com a verdade.
O desemprego vai crescer, mais ainda os que vivem abaixo do limiar da pobreza.
Meus amigos, se não tiverdes confiança no esforço blá, blá, não será possível repensar o sistema e garantir a liberdade. Hoje mais que nunca quero pedir-vos confiança.
A assistencia aplaudiu e lançou blá, blás tímidos para o ar.
- Não aplaudiu?
- Que horas são?
Alguem na plateia que não se conteve, levantou-se e perguntou em voz alta
- Dr. - teremos de apertar ainda mais o cinto?
- Meu amigo, o senhor é meu convidado nesta sala. Sugiro que se retire.
Gerou-se alguma confusão, mas um estafeta de serviço subiu ao palco e segredou ao dr. O.K. - blá, blá, blá.
- Meus amigos, país - a vida tem destas coisas - chegou-me uma bela notícia. Já há dinheiro nos bancos, muitos dólares. Já não é preciso apertarmos o cinto - a não ser aqui ou ali.
A assistencia, eufórica, aplaudiu de pé - gritou blá, blás.
Vizivelmente risonho, o orador continuou
- Antes de terminar, aproveito para recomendar àquele amigo, que me devolva o botão de punho.
O auditório esvaiu-se alegremente.
- Então não diz nada?
- Isto está mesmo a pedir chuva.
Na rua chovia.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

COM A SERRA ÀS COSTAS

COVÃO D'AMETADE

Agapito - aldeia lendária,nos castros dos Montes Hermínios, nas fraldas do Covão d'Ametade, não era mais que um ponto minúsculo no mapa do reino. Um vale quase glaciar enclavinhado na serrania interior onde nunca foi fácil respirar.

Em Agapito ousavam viver cinquenta e tal pessoas, trezentas cabras, mais os lobos e os cães da serra.

Viviam do amanho das pobres terras, da pastorícia e do temor a deus.

Os homens apascentavam cabras e as mulheres faziam de tudo.

Desapercebidos viviam felizes e analfabetos.

O poder do reino ignorava completamente a existência de Agapito, mas um chefe dominava a aldeia - o abade Fiuza, que ali tropeçou por acaso, quando um dia após longa cavalgada, perseguia uma cabra branca. Perdido por ali ficou.

Os agapitenses - construiram-lhe um abrigo para habitar e pregar.

Volvidos os anos a aldeia continuou ignorada, perdeu habitantes e os rebanhos emagreceram.

O abade Fiuza permanecia alegremente no poder.

Neste período de declínio da civilização agapitense, um pombo correio, pousou exausto no ombro do chefe que em silêncio leu a mensagem.

"O reino vais ser percorrido por voluntários, com o propósito de alfabetizar o povo".

- Não pode ser. Não consinto que devassem esta terra.Aqui nem uma letra. A minha gente está feliz.

Reunida a aldeia de emergência, Fiuza declarou o recolher obrigatório. O povo aplaudiu comovido.

- Ficarei de vigía.

Fiuza - fardado a rigor, ungido com óleo de cabra, colocou-se no centro do carreiro principal da aldeia, disfarçado de anjo.Ali ficou dias e noites a fio, pernas abertas, mãos apoiadas na cruz, dentes a postos e um sorriso cordeiro na armadura.

Na rectaguarda os fieis - de joelhos, recolhidos - respiração suspensa. Nos estábulos o gado balia, ordenhava-se a si mesmo.

Agapito - uma aldeia ignorada, no interior do reino, não foi bafejada pela campanha de alfabetização.

O abade Fiuza - firme, sorridente e arrogante, morreu como mártir no seu posto.

O povo - com a serra às costas, vai aprender mais tarde.

domingo, 12 de outubro de 2008

OS CÃES NÃO DORMEM


- Sempre que há lua cheia algo acontece de inesperado.
- Não esqueça a influência das marés.
Na sala os cães dormiam ou fingiam dormir, mesmo em frente à generosa lareira.
Sentados no sofá respirávamos os sons de "Alexander Soundtrack" por "Vangelis" nas oito colunas, e afagávamos os cabelos um do outro.
- Hoje vou contar-lhe uma história que ouvi no intervalo de um conselho de ministros.
- Só um momento.
Levantei-me. Coloquei mais uma acha na lareira, passei as mãos no pêlo dos cães, desliguei a aparelhagem, regressei ao sofá. Aconchegámo-nos.
- Estou pronto. Avance.
- Era uma vez um Don Godofredo, ilustre senhor de pendão e caldeira, fidalgo de puro sangue, grandessíssimo cavaleiro que se iniciou na arte de bem cavalgar, mal deu os primeiros passos.
Tinha cinco aninhos piratas e já treinava em cavalos de papelão.
Quando ia ao sr. Hipólito tirar o retrato de família, assentava as patinhas com esporas agrestes, nas ancas do brinquedo e lesto num pulinho gracioso e valente - montava o animal, sem lhe tocar com os cascos. Um artista.
- Não está a ser severa com a criança?
- Só que a criança cresceu. Posso continuar?
- Avance.
- Num certo dia de cavalhadas no castelo, o papá banqueiro que negociava com os índios, quiz fazer uma experiência com o puto.
- Índios?
- Não interessa. Posso continuar?
- Avance.
- Meu filho - quero fazer de ti um homem à altura dos nossos pergaminhos. O papá investe e tu toureias. Teremos o país nas mãos.
Volvidos tempos, o banqueiro - após tantas touradas, comprou um cavalo e um toiro a sério, investiu com gana e fez do filho um homem.
Don Godofredo, menino prodígio, tornou-se profissional e nunca mais quiz outra vida - tão bem se sentia na grande farra. Tinha dinheiro, vinho verde e mulheres de raça. Passou a frequentar com assiduidade as ganadarias, as adegas, o meio social. Visitou amigos e os cavalos dos amigos.De quando em vez dava espectáculo na assembleia popular do Campo Pequeno, já muito acanhado para a sua estatura.
O banqueiro começou a sentir-se ameaçado no seu orgulho de fidalgo e comendador. Decidiu meter-se uma vez mais, em altas cavalarias, com toda a raça. Deu um coice e disse.
- Isto não pode continuar assim. O Godofredo está a ir longe demais. Estou farto. Antes a palha ao pequeno almoço.
Entretanto Godofredo que já não habitava o castelo, apercebendo-se das intenções do progenitor, convidou-o para jantar no Jardim Zoológico.
- Foi então que interromperam a história para regressarmos ao conselho de ministros.
Na sala a generosa lareira reacendeu-se com o ladrar dos cães - que fingiam dormir.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O VINHO DOS NOSSOS PÉS

Malhoa- Praia das Maçãs
Irrompem fios de música
rio abaixo
folhas secas que rugem
inclinadas nos teus olhos

As palavras colidem

quando circulam mansas

no espanto da paisagem

mas os pássaros permanecem soltos

na nossa ilha

Frente a frente

aqui nos sentámos ao avesso

como estátuas longínquas

só para inalar as pautas do silêncio

Aqui nos sentámos

para que tudo aconteça

mesmo de tão pouco

se rasgue em claridades

este tempo inabitável

Aqui nos sentámos

só para respirar

sabendo que os apeadeiros

não se repetem

mesmo quando em Janeiro

provarmos de novo

o vinho dos nossos pés


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

QUE A SOMBRA SE REBENTE

Afrodite
Neste tempo sussurrado
nem todas as folhas
caem no chão

algumas fremem hasteadas

em tranças

de belas cabeleiras

outras existem

que de tão pálidas

se levantam

movidas por um sopro

Neste tempo sussurrado

ergo-te à luz e ao vento

e deixo que a sombra

se rebente


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

UM ANJO À SOLTA

Amanheces neste jardim de silencios
onde nada è exacto
nem a viagem que subscrevo
para agitar os pássaros

Talvez por isso vindime
até ao mosto
só para te nomear

mas quando fluis a voz
no deslize da chuva
e o vento em remoinho
te circula pernas acima
voo
demando os barcos
solto-me das palavras
neste jardim de silencios
tão verdes e penteados
onde ausente na curva dos dias
rente à fala
vais sepultando o corpo
a cantar
como um anjo à solta

Amanheces sem alegria mas cantas
e eu viajo ardendo
mesmo por cima das videiras
só para te ouvir cantar

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O RIO À NOSSA MESA

foto de Eduardo Gageiro


Aparentemente livres

nas margens deste rio

insondáveis onde se cruzam brisas

e afagam retratos

recuperámos as nossas velas

transportámo-nos para o mar



No marulhar desta povoação

de sílabas quase perfeitas

desaguámos lentos

desenhámos garatujas

na coluna dos barcos

sem amarração



De tão quedas as águas

recortámos memórias

em pedaços de tremulina

sentámo-nos nas margens

a invocar a sede

a rasgar com um sopro

uma espécie de tempestade



Livres e insondáveis

perguntámos ao rio

se queria sentar-se à nossa mesa

e ele disse que sim




sexta-feira, 19 de setembro de 2008

OCULTA NO GRASNAR DAS AVES

Os barcos ainda não tinham
abandonado o chão das águas
já vergavas o corpo
na corda tensa
enterravas os pés
e deixavas os peixes saltarem
nos teus olhos prateados
Exilada no próprio corpo
emerges deusa quase perfeita
ao pôr do sol
num desencontro de preces

mas só quando a deshoras

te abres em flor e desnudas

entregas o resto das forças

a um beijo

adormeces oculta

no grasnar das aves

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

VAMOS CONSTRUIR UM BARCO?



Neste fim do nada

e palavras soltas

as águas em desmaio

invadiram a nossa praia

purgam-se nas areias


Sacudi-me dos pássaros

para te nomear

mas ainda hoje não sei

se és falésia

sombra em ascensão


Neste fim do nada

o equilibrio na assimetria

mesmo nas folhas caídas

anunciam neste chão

barcos indecifráveis

sempre a partir e a chegar

porque o mar

é o sangue das nossas veias


Neste fim do nada

precisamente onde do nada

nada se cria

os pássaros em demanda

da árvore anfíbia

não passam de partículas

a evaporarem-se nos teus olhos


Meu amor do fim do nada

vamos construir um barco?

sábado, 13 de setembro de 2008

APOPLEXIA DA IDEIA


DIA 26 SETEMBRO ÀS 18H NA FNAC DO CHIADO
LANÇAMENTO DO LIVRO DE POESIA
DE MARIA QUINTANS COM FOTOS DE JOÃO CONCHA E APRESENTAÇÃO DE LAURO ANTÓNIO

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

FLORES DE ESPUMA

Pintura de Berthe Marisot


Um círculo de garças

nem brancas nem esguias

adormecem nos barcos ancorados

com olhos excessivos


Nesta ilha sem vista para o mar

navegam águas improváveis

faúlhas num incendio

de partículas sitiadas


Aqui paira o aroma da cânfora

em ressonâncias quase divinas

pousam lábios em cálices de cicuta


O mar não é sempre azul

e talvez por isso se agite

nos mapas imaginários

rasgue caminhos

para não se perderem os naufragos


Nesta ilha de bálsamos

onde os destinos se desmentem

afagamos ruinas soltamos hinos

por sobre a memória das pedras


damos voz aos silêncios

até que as garças

se tornem brancas e esguias

como flores de espuma

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O PAÍS PULA NA POALHA


Neste parqueamento à beira-mar betonado Cavaco purga-se a leste, Ferreira Leite expurga-se na universidade de verão, Sócrates pilantra com Pedroso, o país pulula no desemprego, pasma, como se fosse paspalho. O país putativo - pula na poalha.

domingo, 31 de agosto de 2008

SOCIEDADE VIGIADA CERCO À DEMOCRACIA

Todos temos o dever de pagar impostos ao Estado para vivermos com direitos. A segurança dos cidadãos é um direito fundamental nas sociedades democráticas. Considero que não é possível imaginar uma comunidade sem justiça nem polícias. Entendo no entanto que o Estado democrático deve pugnar pela privacidade dos cidadãos - um valor inestimável. Logo o Estado não deve tornar-se num Estado policial que em nome da falta de capacidade dos governantes para controlar e punir um punhado de marginais, segue o percurso mais fácil e abusivo, isto é - o de controlar, cada vez mais, a população do país.
Tudo isto a propósito do chip que o governo vai impor às matrículas dos automóveis. Caso a lei não acautele a privacidade das pessoas, estaremos uma vez mais perante um atentado à democracia.

domingo, 24 de agosto de 2008

NO PESTANEJAR DE UMA VÍRGULA

Olho-te como se fosse a primeira vez
Na verdade a água
corpo líquido de mulher
tem segredos escondidos no fundo das pedras
alimentos de fogo
talvez uma praia onde se fundem
areias e lábios
um piano de luzes
que determina o tempo das estações

Ainda bem que tens ilhas selvagens
sinais apócrificos que se desnudam
em gestos simples
no pestanejar de uma vírgula

Na verdade a água sabe rir e chorar
no espelho das próprias lágrimas
no rumor das maresias
e eu descobri uma vez mais
que tens póros por onde respiras
silêncios escarpas por onde escorrem salivas
que te ergues e desmoronas
abrigo e mensageira
te desprendes do chão
ou hibernas nos corais

Que bom ainda hoje
partilhar contigo este despertar
aprender vida fora a descobrir-te
como se fosse a primeira vez
deixar por um instante
a outra água
para os peixes se moverem

terça-feira, 19 de agosto de 2008

ASSALTO



Não resisto a dar nota desta notícia da imprensa regional. Insólita? Pois - mas preocupante


Na rua dos Comediantes,em Setúbal, o consultório do dr. José Forreta, foi assaltado.

Os ladrões puderam estar sossegados.

Em frente está o parque da PSP que se presume, na hora do assalto, ter apenas um guarda.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

HASTEAR PALAVRAS

PEDRAS

Por vezes luz

na substancia da espuma

mas só quando rebenta

nas falésias

se torna azul

Não somos nós

são as palavras

Por vezes acontecem

deuses residuais

secretos predadores

das mais íntimas claridades

a fazerem ninhos

no ouvido dos búzios

Andam por aí

a segredar nas águas

Por vezes na minha jangada

disponível para os lábios

reuno algumas claridades

soletro

entrego-me quase legível

só para te espantar florida

de pequenos nadas

Por vezes rebentamos

nas falésias

espuma e jangada

só para hastearmos palavras

sábado, 9 de agosto de 2008

AVES QUE SE LEVANTAM

ÓLEO DE OLBINSKI

A erosão do movimento

gera novos movimentos

no espaço

neste chão de asas

tão leve

que já nem o ar que se respira

sente os seus passos

Chamo por ti

simplesmente chamo

e tu vens

Só não sei quem és

e isso para mim já é tanto

A erosão do movimento

gera novos movimentos

mesmo nos rios cansados

Repara bem

onde se movem as águas

estão sempre a cair aves

que se levantam

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O PAÍS DE COSTAS NA PRAIA


O espaço aéreo de Albufeira está controlado para Cavaco Silva não ser atacado em férias.
Nos jornais o que se diz - são assaltos em terra.
No Pontal, Manuela Ferreira Leite - nem por terra,nem pelo ar. Talvez pelo mar.
O país de costas e na praia - aguarda uma vaga.

domingo, 3 de agosto de 2008

QUATRO MÃOS

video

REENVIO - EM PARTICULAR PARA O MEU IRMÃO

LUIZ GARCEZ, PROFESSOR DE MÚSICA CLÁSSICA,

NA GUITARRA PORTUGUESA

terça-feira, 29 de julho de 2008

O ELEVADOR




- Por aqui?


- Sim senhora ministra.


- Não brinque. Sabe que fui remodelada.


O hotel não tinha muitas estrelas, mas permitia alojamentos para cães e estava como eu gosto, debruçado sobre o oceano,


encavalitado numa rocha colossal. Um verdadeiro atentado.


- Aqui não tenho problemas por uns dias.


- Eu já conhecia este espaço. Como preciso do mar desgrenhado, de preferência com temporal e muitos relâmpagos, por cá estive um inverno.


- Interessante, eu gosto deste sítio quando o mar parece sopa.


- O Dique o que mais aprecia neste hotel é o elevador.


- Curioso, a Lassie também.


O hotel – talvez por se localizar num espaço ermo e caro, obedecia a todas as regras de segurança. Na verdade até o magnífico elevador tinha um vigilante em cada apeadeiro.


No r/c situavam-se os alojamentos para os animais. Os andares estavam reservados para os donos. Encrostadas na rocha espelhavam as piscinas de água salgada que o Dique nunca utilizou por ser um Serra da Estrela.


- Admito que a senhora ministra adore animais.


- Por favor, trate-me por tu.


- Com certeza.


- Após a minha remodelação, vivo com a Lassie. É a minha confidente.


De facto a cadela, um belo exemplar, exibia dois explícitos olhos meigos, pêlo farto aloirado, uma madeixa branca no focinho, ancas bem desenhadas, tetinas hirtas, cauda proeminente enrolada. Uma senhora.


O Dique não dizia nada, mas só um cego não via o carinho com que a coçava nas orelhas e lhe lambia os olhos.


- Dique – deixa a Lassie.


- Por favor não reprima os animais.


Estávamos no bar da piscina. O calor apertava e o mar parecia sopa. Chamei o empregado.


- Para mim um Kutty Sark, para o Dique uma água das pedras.


- Para mim um rosé gelado, para a Lassie uma Coca-Cola.


O hotel – por estranho que pareça, facultava na mudança de turno dos vigilantes, uma oportunidade para os cães subirem e descerem no elevador. O Dique desde a primeira vez, adorava estas viagens e foi a pensar nele que sugeri para o turno da meia-noite uma viagem com o Dique e a Lassie.


- Por mim tudo bem.


Assim aconteceu. A senhora, no último andar, carregava no botão e o elevador subia. Eu no r/c carregava no botão e o elevador descia.


Esgotado o tempo e a paciência, regressámos aos aposentos. Os cães – cada um para os seus. Eu – convidado, fiquei no último andar.


Uma suite espectacular, ampla, arejada, bem decorada, com tudo o que não fazia falta, excepto o espelho que forrava o teto, mesmo por cima da cama. Coisa linda.


- Considere que apesar de tudo ainda sou uma figura pública.


- Conhece o "jardineiro do convento", De Giovanni Boccaccio?


- Sim – era um surdo-mudo, mas não de nascença.


Ali ficámos a ouvir a ondulação do mar, até adormecermos no espelho.


No dia seguinte, regressado à preia-mar, ainda a madrugar na lua-cheia, trazia um sinal de outras marés, de outros ventos, quando alarmada mas feliz, a correr para mim, a senhora ministra.


- Tenho uma grande novidade.


- O governo demitiu-se?


- Não, a Lassie está grávida.


- Não me diga.


- Eu conheço a minha cadela.


- Foi no elevador.