sexta-feira, 23 de junho de 2017

QUASE(E)TERNOS





A deshoras
vi barcos soltos
perdidos de azuis
e outros mares

colhiam beijos sem mácula
num afago de limos

amarados ao vento
inscritos nas paredes do cais
cumpriam uma rota
contra todos os destinos

quase (e) ternos
a desvendar palavras
em pleno voo

menos livres 
que os pássaros


Eufrázio Filipe
"Chão de Marés"


domingo, 18 de junho de 2017

O FOGO PURIFICA MAS ASSIM NÃO




As florestas não existem para serem consumidas pelo fogo - por negligência ou interesses privados. 
Há quem tente proteger-se nos fenómenos naturais 
como se fosse inevitável provocá-los. 
O fogo purifica mas assim não.


domingo, 11 de junho de 2017

ÍNGREME O CAMINHO DAS PEDRAS




Estavam no cais
os barcos de remelas
etéreos
quando partimos
por sobre as águas
sem fim à vista

foi assim

lá onde os olhos sem amparo
de consentem demorados
assistimos à passagem
de um sopro de vento

Neste leito de sussurros
a primeira chama navegava
todos os degraus da escarpa

foi assim

tresmalhadas as pátrias
chegámos à fala
de mãos dadas
no íngreme caminho das pedras

Eufrázio Filipe
"Chão de marés" editora Lua de Marfim

segunda-feira, 5 de junho de 2017

NO PÚLPITO DAS CEREJEIRAS





Há um sulco invisível na água
onde viajo
e me transformo

talvez por isso
não faça sentido atear velas
queimar incensos

mexer nos ponteiros do relógio
inventar um barco e partir
folha ante-folha

talvez faça sentido
desbravar fronteiras
repartir afectos gorjeios e migalhas 

no púlpito das cerejeiras

Eufrázio Filipe
"Chão de marés" 2013/2016 Lua de Marfim editora