quarta-feira, 19 de julho de 2017

À PERGUNTA DE OUTROS MARES






Quando foi urgente criar um deus
as uvas ainda não estavam maduras
no corpo das videiras

inocente subiste ao púlpito
das vinhas decepadas

improvisaste um sermão
ergueste o cálice
e a companha exausta aprendeu
que nada é perfeitamente inútil

após as vindimas
bebemos do mesmo vinho

foi quando enfunaste as velas
começaste a despontar relâmpagos
nos mastros  mais altos

quando afloraste o chão com um beijo
partiste sem destino
por sobre as águas revoltas

à pergunta de outros mares

(vou ali e já volto)

eufrázio filipe

quinta-feira, 13 de julho de 2017

MAR DE COLHEITAS





Chamo-te
para deixares nas areias
um beijo côncavo
mas tu permaneces
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos fechados
todos os ritmos das marés

chamo-te
para uma cama impoluta
onde se ateia o fogo
convergem todos os azuis
o cântico dos náufragos
mas tu permaneces
num grito de alvorada
incandescente flor
mar de colheitas

Eufrázio Filipe



sexta-feira, 7 de julho de 2017

NA TUA VOZ




Neste sítio de silêncios
sequestrados sem fronteiras

cantavas
cantavas
cantavas

e eu não sabia
se eras tu
ou um pássaro

simples mente

a prender-me o olhar
na tua voz

Eufrázio Filipe




sexta-feira, 30 de junho de 2017

À PROA DAS PALAVRAS





À proa das palavras
despertaram acordes
numa constelação de silabas
passo a passo

soltos de rimas e pautas
rasgaram margens e destinos
desaguaram cúmplices
nas paredes do mar

num beijo apertado
lá estávamos a povoar afectos
como se fossemos barcos e somos
à proa das palavras

Eufrázio Filipe


sexta-feira, 23 de junho de 2017

QUASE(E)TERNOS





A deshoras
vi barcos soltos
perdidos de azuis
e outros mares

colhiam beijos sem mácula
num afago de limos

amarados ao vento
inscritos nas paredes do cais
cumpriam uma rota
contra todos os destinos

quase (e) ternos
a desvendar palavras
em pleno voo

menos livres 
que os pássaros


Eufrázio Filipe
"Chão de Marés"