domingo, 25 de outubro de 2020

APENAS UM TRAÇO

 




No rasto de um risco
em pleno voo
com asas de vento
as pétalas no chão
que os cães não pisam

no rasto de um risco
deixei no papel a  caligrafia
de uma pestana
em forma de vírgula
um gesto de lágrima cansada

no rasto de um risco
em pleno voo
com asas de vento
a carvão
sombras amovíveis
no entardecer das paredes da casa

marés ao rubro

Que fiz eu?

nada

apenas um traço


eufrázio filipe

poesia

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

NÃO HÁ ESPAÇO PARA CANTAR

 




Entre oliveiras buganvílias
e  latidos de cães
resiste um poço
a céu aberto
onde temos por hábito
falar baixinho
para não acordar silêncios

No fundo do poço
há um espelho vertiginoso
luz que assoma
aos nossos olhos escarpados

Quando chove a cântaros
tudo fica mais claro
a fluir
na solidão das estrelas

No fundo do poço
não há espaço para cantar
mas tu cantas


eufrázio filippe


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

LÁBRIMA SOLTA

 



Quando a estátua

deixou de ser estátua


eu vi


uma lágrima solta

nos olhos 

da pedra


eufrázio filipe

poesia

domingo, 27 de setembro de 2020

APRENDIZES DO VOO

 

Quando te disse

os nossos milagres são fáceis de explicar

o Outono entrou no corpo

das romãzeiras

e ao sabor de  um gesto simples

brotaram na tela

traços de aguarelas


foste o meu modelo preferido

só porque trazias no regaço

inquietudes de pétalas


e o mar ficou mais azul


e os barcos mesmo desfolhados

continuaram a remar

na flor dos relâmpagos


Quando te disse

meu amor como te chamas?


transgredimos  tantos silêncios

que ainda hoje

quando te pinto

somos água de beber

na boca das sementes


tão sábios aparente mente

à tona dos pássaros

aprendizes do voo

a contar pelos dedos

bagos de romã


eufrázio filipe


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

NEM TODOS OS CÃES SÃO DE BARRO

 


A minha escarpa tem uma janela para o vento entrar de preferência com relâmpagos. 

Quando troveja inconformado abro a porta que dá para o alpendre e os Serra da Estrela vertiginosos avançam amedrontados.

Aninham-se nos tapetes da sala.

De alma lavada e farto pêlo,entram casa adentro, sacodem-se vivificam as paredes onde me acompanham um óleo de Kiki Lima outro de Albino Moura, pratos alentejanos, uma falua em casca de ostra, uma estatueta da Papua Nova Guiné, o velho relógio de pêndulo, um poema de Eugénio de Andrade. 

Quando o sol se esconde, troveja e os céus se derramam, a minha escarpa alumia-se.

Os Serra da Estrêla deitam-se e ressonam nos tapetes até eu pegar no sono e acordar a fazer poemas ou quase nada. 

Lá fora imperturbável (e)terno a dizer coisas improváveis - o meu cão de barro - resiste em vigília ao tempo que faz.


eufrázio filipe