sábado, 30 de julho de 2016

O MEU HÁBITO DE OLHAR O CHÃO






Ouvidos colados
neste chão de timbres
oiço o oculto coração das pedras
numa festa de raízes

respiro fundo a intimidade
da terra arada
as sementes
em novas apoteoses
de coisas simples

a sombra que se ateia
para as mãos
não perderem o sentido
nem os meus olhos
o hábito de olhar o chão

Eufrázio Filipe

domingo, 24 de julho de 2016

NO BALOIÇO VARINO DAS MARÉS


                                                          Cais da Mundet  Seixal
                                         


Pelo sulco das águas
regressei
ao intacto brilho do cais

beijei o chão da escarpa
como se estivesse a celebrar
o princípio das memórias

Lá estavam os barcos
no baloiço varino das marés
os cães na proa

mastros a dardejar
onde resistem
pássaros efémeros

Lá estavam
os meus pés nos teus

Eufrázio Filipe


segunda-feira, 11 de julho de 2016

VOU ALI E JÁ VOLTO






Sequestrado no paraíso
de quando em vez liberto-me

Vou ali e já volto. 


Eufrázio Filipe

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A PROFANAÇÃO DAS METÁFORAS





Partiram como se as mãos
apenas servissem para dar
de beber às fontes

partiram para a água seguir
os seus passos
sábios e mudos

asas presas nas sombras
barcos descontentes prometidos
música funda tão limpa de areias

partiram de perfil
quase submersas
de poentes e salivas

Subiram todos os degraus do cais
despiram-se na biblioteca
para ler
a profanação das metáforas
e o mar crescer
nos mastros mais altos


Eufrázio Filipe

segunda-feira, 27 de junho de 2016

RIO






De tantos mares desnavegados 
percorridos
distraí-me de ti 
rio
a correr nas veias
aqui tão perto
que nem te posso tocar

Eufrázio Filipe