domingo, 23 de Novembro de 2014

RESISTE O MEU CÃO DE BARRO





A minha escarpa tem uma janela para o vento entrar de preferência com relâmpagos. 
Quando troveja inconformado abro a porta que dá para o alpendre e os "Serra da Estrêla" vertiginosos avançam amedrontados. 
Aninham-se nos tapetes da sala. 
De alma lavada e farto pêlo, entram casa adentro, sacodem-se, vivificam as paredes onde me acompanham um óleo do Kiki Lima, outro do Albino Moura, pratos alentejanos, uma falua em casca de ostra, uma estatueta da Papua Nova Guiné, o relógio de pêndulo, um poema do Eugénio de Andrade. 
Quando troveja e os céus se derramam, a minha escarpa alumia-se. Os "Serra da Estrêla" deitam-se e ressonam nos tapetes até eu pegar no sono e acordar a fazer poemas ou quase nada. Lá fora, imperturbável (e)terno a dizer coisas improváveis - o meu cão de barro - sem medos, resiste em vigília ao tempo que faz. 



terça-feira, 18 de Novembro de 2014

DONA ARLETE A SANTA DAS MEIAS PRETAS



                                                                                       texto reconstruído


Cantadeira de histórias inventadas decidiu fazer uma viagem de sonho, à semelhança dos pássaros. 
Quando ali chegou, chovia a cântaros. Arregaçou as saias e descalça conseguiu chegar ao "hotel das dunas". 
Viajou por sobre mares e relâmpagos numa avioneta que paciente aguardava em pleno voo o trabalho escravo de um velho - montado num burro a afugentar cabras no piso térreo do chamado aeroporto. As cabras fugiam e a avioneta aterrava. 
A ilha era um corpo branco de areias finas onde aves a pique mergulhavam vertiginosas e cúmplices dos pescadores de lagostas que só abriam os olhos no chão das águas. 
Ao entardecer as dunas arredondavam-se, esbracejavam doces quando a brisa morna lhes aflorava o corpo. 
Na ilha não chovia - só à vista dos habitantes que a viam cair no mar. As cabras à solta, de bocas gretadas, comiam pedras e o "tarafe" que espontâneo medrava a espaços na paisagem deserta - mas à chegada da senhora choveu com abundância e o povo generoso saíu à rua hilariante. 
Houve quem tomasse banho nu em cima dos telhados a proclamar a independência da ilha. 
Quando a senhora chegou entenderam ter sido uma bênção. Rodearam-na em festa, entoaram cânticos, louvores, preces e andores. 
Anos volvidos a senhora ali ficou encantada a despertar silêncios repetidos, a hastear a voz nas memórias da chuva. 
Em noites de lua cheia, cantadeira e santa, ainda hoje sobe à duna mais alta - despe-se de tudo, desfia-se em canções lindas que ninguém entende mas todos aplaudem. 
Chamam Dona Arlete à senhora das meias pretas. Acreditam que vai de novo chover na boca das sementes - e assim vivem pobres felizes de joelhos nas movediças areias. Até ser madrugada.




sábado, 15 de Novembro de 2014

NO CORAÇÃO DAS PEDRAS HÁ PÁSSAROS EM RISTE



                                                                               publicado no "Presos a um sopro de vento"
                                                                                         POÉTICA EDIÇÕES



Quando chegaste
sangravas de uma asa
menina dos meus olhos
pátria efémera
a rasgar palavras
despida de tudo

regressaste ao concerto
dos meus silêncios preferidos
vestiste a cal de branco
num véu de noiva
e escreveste uma frase
trinada nas paredes da casa
que ainda hoje conservo

no coração das pedras
há pássaros em riste



sábado, 8 de Novembro de 2014

A VERTIGEM DA LUZ







No tempo das romãs
para alumiar o voo dos pássaros
tilintam sinos
no bico dos teus seios

cúmplices (e)ternos 
no baloiço das marés

esmaiam barcos
numa campânula de sons

desnuda-se em relâmpagos
a vertigem da luz


segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

CONVITE





                                               
                                                      
                                                                               Com a poeta LICÍNIA QUITÉRIO numa sua iniciativa  de divulgação da poesia