quinta-feira, 11 de outubro de 2018

FOLHAS PERSISTENTES


                                                            magritte



Celebro no mais íntimo da pele
a exuberância aprumada
da árvore ao fundo
quando acorda a cantar
e adormece com os pássaros
no outro lado do cais

quando desperta no deserto
esculpe grãos de areia com rosto
e se levanta nas dunas
contra o vento

celebro os contornos da luz
as esquinas e os becos
no rasgo lúcido de um traço
quando se desnudam na tela
espaços em branco
mãos vertebradas por todo o corpo 

frutos silvestres
folhas persistentes
a vasta sede


eufrázio filipe

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

CÍRIOS





Nas arestas da escarpa
aprendemos quase inocentes
a arredondar pedras
para não ferir o voo dos pássaros

caminhamos num abraço de limos 
ao som das marés
e descobrimos debaixo da pele
que nos abriga
tanta luz
por desbravar

resistimos nas areias movediças
desvendamos rotas conhecidas
atiçamos relâmpagos

círios
mastros
que se levantam


eufrázio filipe

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

BEIJÁMOS AS PEDRAS







Lá onde todos os azuis
se reúnem para cantar
e os olhos cegam
num espelho de águas
dulcíssimas
nem sempre acontecem
pautas de timbres

mas tu trazias no corpo
um rasto de asas

na voz um sinal
que despertam contidos silêncios

e foi assim

quando soltaste os pássaros
neste jardim de corais

em pleno voo
beijámos as pedras


eufrázio filippe
2015

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

NO CHÃO DAS ÁGUAS






Na exuberância dos sapais
nidificam garças
indiferentes ao ciclo das marés

tão breves
num verso
sedimentam o rio

Quando entardece
resgatam memórias
banham-se no chão das águas

quase humanas 
espargem cores
fáceis de explicar



eufrázio filipe


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

DULCÍSSIMA





Por falta de um sopro
no marasmo do cais
adormeciam barcos

banhavam-se em salivas
à vista dos mastros
quando amanheciam 
sílaba a sílaba 
junto ao pomar dos medronheiros
numa cadência de asas e passos

e tu adocicavas nas margens
imaculadas claridades

Com o tempo verifiquei
que eras tu 
regressada ao que sempre foste
vertebrada metáfora
a folhear um compêndio de azuis

eras tu dulcíssima
tão líquida por entre os dedos
que adormecias os barcos


Eufrázio Filipe