segunda-feira, 2 de maio de 2016

FLORES DE ESPUMA





Um círculo de garças
nem brancas nem esguias
adormecem nos barcos ancorados
com olhos excessivos

Nesta ilha sem vista para o mar
navegam águas improváveis
faúlhas num incêndio
de partículas sitiadas

Aqui paira o aroma da cânfora
em ressonâncias quase divinas
poisam lábios em cálices de cicuta

O mar não é sempre azul
e talvez por isso se agite
nos mapas imaginários
rasgue caminhos
para não se perderem os náufragos

Nesta ilha de bálsamos
onde os destinos se desmentem
afagamos ruínas soltamos hinos
por sobre a memória das pedras

damos voz aos silêncios

até que as garças
se tornem brancas e esguias
como flores de espuma

Eufrázio Filipe
( 2008 )

 

terça-feira, 26 de abril de 2016

MAIO





Hoje um poeta morreu
no trabalho
a construir poemas

João Corinto servente
não sabia palavras
só tijolos e cimento

Um pé fora do andaime
o chão não era de cravos
e as aves
bateram asas

Hoje um poeta morreu
no trabalho

Projectou-se do oitavo verso
do seu poema

Eufrázio Filipe
(2008)
 

terça-feira, 19 de abril de 2016

INCÊNDIO DE CRISÁLIDAS





A prumo neste clamor de socalcos
passo a passo
temos todo o tempo
em pleno voo
sem mapas nem destinos
para nos perder e encontrar

Quando te penso Abril
não estou a carpir lágrimas
festejo os olhos dos pássaros
o latido dos mares

solto barcos
sopro faúlhas

vejo-te em flor
num incêndio de crisálidas
asas abertas
a refulgir madrugadas

Eufrázio Filipe
 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

ABRIL OLHOS POSTOS EM MAIO




No 40º aniversário da Constituição da República entendi partilhar este livro de algumas memórias, editado em 2009 pela Câmara Municipal do Seixal.

Eufrázio Filipe

segunda-feira, 11 de abril de 2016

DO ESPLENDOR DAS COISAS POSSÍVEIS




                                 
                                         "Paisagens em alvoroço"

Vou tentar escrever duas palavras ininteligíveis para ver se me faço entender, aqui da minha escarpa.
A poesia não se comenta (?) a menos que sejam os poetas a dizer por gestos o que escreveram.
A poesia do meu amigo Manuel desafia, desbrava palavras, são gestos em carne viva.
O poeta na sua solidão partilhada de luminosidades, sombras e silêncios, adquire no seu refúgio a transfiguração da vida.
Artífice exímio, recusa escancarar os poemas à devassa de uma leitura linear.
Recordo que é através das palavras que se expressa (também) a poesia.
No universo específico onde se move o poeta, com ou sem roupagem metafórica, cabe ao leitor acolher a mensagem e decifrá-la.
Esta poesia não é para ser cantada mas deve ser lida em voz alta, na esperança de sermos livres, eternos, por um instante, nas "paisagens em alvoroço".
Este "do esplendor das coisas possíveis" segue um registo de forma e conteúdo que identifica o Poeta e o Homem.
Se me lessem um poema seu sem identificar o autor, eu diria sem pestanejar - é do Manuel Veiga.

Abraço fraterno.