terça-feira, 6 de dezembro de 2016

APENAS UM TRAÇO






No rasto de um risco
em pleno voo
com asas de vento
as pétalas 
no chão
que os cães não pisam

no rasto de um risco
deixei no papel a caligrafia
de uma pestana
em forma de vírgula
um gesto de lágrima cansada

no rasto de um risco
em pleno voo
com asas de vento
a carvão
pássaros
cães
sombras amovíveis
no entardecer das paredes da casa
marés ao rubro
nas fogueiras e nos mastros

Que fiz eu?

nada. 

apenas um traço


Eufrázio Filipe

publicado no "CHÃO DE CLARIDADES" editora Lua de Marfim

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

UMA FLOR VERMELHA NAS PAREDES DO CAIS





Não sei quem és
mas pelos gestos vieste por bem
rasgar o vento com as mãos
a neve dos meus cabelos
e eu cansado de florestas apócrifas
das palavras em bando
comecei a plantar árvores
vi os pássaros regressarem
em acordes
a luz das noites que não dormem

na partilha de horizontes
o amor é revolucionário
voa nos mastros mais altos
garatuja búzios de sons
intervém por causas
muito para lá das utopias
e se levanta resiste
ao pôr do sol
mesmo que os barcos entristecidos
estilhacem
nos espelhos da água
algumas pedras com vida por dentro

registo por um eterno instante
o ar que nos move
pinto com a boca
uma flor vermelha
nas paredes do cais


Eufrázio Filipe

(de novo a partilhar este poema)



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

LÁGRIMA SOLTA






Quando a estátua
deixou de ser estátua

eu vi

uma lágrima solta
nos olhos
da pedra

Eufrázio Filipe

2013

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

SUSPEITE DO QUE PARECE ÓBVIO






A propósito ou não do próximo orçamento de/do Estado recordei um insigne professor que dizia nas suas aulas 

"nada literáriamente mais excitante que uma metáfora"

Na verdade sempre relativa da vida toda a poesia é ficção
pelo que sugiro 

suspeite do que parece óbvio

Eufrázio Filipe


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

ATEAR O CORAÇÃO DAS ÁGUAS






Lá estás à janela
na intimidade redentora
a ler verdades improváveis

lá estás pássaro azul
no longo caminho
que sustenta
a nudez da fala 

lá estás à pergunta
de uma brisa desgrenhada
um belo relâmpago

tu sabes

mesmo quando se rasgam palavras
num sopro de vento
é preciso atear o coração das águas


Eufrázio Filipe