quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

VERSOS OU QUASE NADA






Na minha escarpa
florescem ventos relâmpagos
e gestos

não como são
mas como os vejo

aqui
quase tudo acontece
no pestanejar de uma vírgula

mãos cheias de mar
mais azul
que os céus
voejam metáforas
para dar comer aos pássaros

e assim me deito
nos teus retratos
a fazer versos 
ou quase nada


eufrázio filipe

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

OLHOS REMOÇADOS





No tempo em que crescíamos
a noite bramava tão parda 
que nem parecia noite

de súbito um frémito de luz
pestanejou nos mastros dos barcos

o mar restolhou

e eu vi claramente 
os teus olhos remoçados
alumiarem as águas

após tantos relâmpagos vividos
julgavas estar preparada
para voar

mas os pássaros ainda aprendiam
a ter asas


eufrázio filipe

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

ESPAÇO PARA CANTAR






Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao  cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra

Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas

ainda há espaço para cantar


eufrázio filipe

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A ESSÊNCIA DA LUZ






A noite não dorme
porque se ama
e deseja

inesgotável
desponta vertebrada
move tempestades

às mãos cheias
dá de beber às fontes
a essência da luz

Tantas são as noites
que não dormem
contadas pelos dedos

a desbravar caminhos
conhecidos


eufrázio filipe

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

VIGÍLIA AO IMPROVÁVEL





Quando te despiste em flor
e revelaste a nudez
já despontavam as camélias

não por dádiva dos céus
na vertigem das sombras
muito menos porque o mar
se ergueu
num sussurro de azuis

tão só depurada
trazias gestos musicais
a noção de um rio
que se demora nas margens

Quando te despiste
quase inocente
numa povoação de sílabas
não desnudaste
o mais íntimo da pele

ficaste em vigília ao improvável
tão perto dos mastros
onde dardejam pássaros
e profanam metáforas


eufrázio filipe