sábado, 18 de fevereiro de 2017

DESPERTAMOS DE OLHOS FECHADOS





Todos os dias conforme as estações
acordava à hora dos pássaros

escancarava a janela
abria os braços
dava um grito para chamar os cães

descia pedra a pedra
todos os degraus
da minha escarpa
até ao chão das marés

para hastear uma bandeira

enchia um jarro de água
sentava-me à mesa do alpendre
e começava a desenhar
palavras improváveis

Ao fundo
muito para lá da romãzeira
fremiam as águas

não sei porquê
mas fremiam

os cães latiam
e as palavras por uma nesga
espreitavam entre os dedos
como se fosse o fim da história

Neste paraíso
seduzimo-nos pela simplificação dos gestos
e assim eternos
todos os dias despertamos
de olhos fechados

Eufrázio Filipe
(2014 reconstruído)



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A FAZER POEMAS OU QUASE NADA




Observo como se move
a água do meu rio

desprendida
sem mácula nem lágrimas
nua de tudo
passo a passo
olhos nos olhos
militante da vida
e verdades improváveis

com todo o tempo 
para sonhar em voz alta
move-se lenta
esculpe caminhos
muito antes de ser mar

Um dia sonharei
um sonho seu
acordarei uma vez mais

a fazer poemas
ou quase nada


Eufrázio Filipe
2013

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

PÁTRIAS REPARTIDAS


                           



Neste porto desobrigado de fronteiras e outros céus
vem à tona a energia imperecível dos desertos 
o perfil escarpado da luz

Nesta apoteose de neblinas
defino a brancura do teu corpo
de pátria movediça
como um prado de salivas 
onde refulgem transfigurações de barcos
rumores de outros mares

Amo esta janela com vista para o vento
onde é possível ser eterno por um instante
povoar o silêncio errante das metáforas
e viver apaixonado no pulmão das marés

assim voejamos há tanto tempo
de um lado para o outro
na remoção do pó
a construir barcos vertebrados
traços de luz
para os peixes não se afogarem em lágrimas

assim projectados nas paredes da casa
dentro e fora do corpo
peregrinos por sobre as águas
afundámos uma ilha
mas ainda não renascemos
nas belas tempestades

voejamos há tanto tempo nas vagas
que não sabemos se é pó
o desacerto dos relógios
ou pássaros livres quase perfeitos
neste mar de pátrias repartidas


Eufrázio Filipe

( texto reconstruído )


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

TANTA LUZ





Junto ao portão
os cães ladravam
aos outros cães

havia um portão
de faúlhas
e a noite acordava
com pássaros claros

e agora?

neste restolho de latidos
e gestos inacabados
que hei-de fazer
a tanta luz?

que hei-de fazer
quando te deitas
nas escadas do templo
a tecer fios de música

e os cães não se calam?


Eufrázio Filipe
Editora Lua de Marfim


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MAIS LIVRES QUE OS PÁSSAROS






A letargia dos barcos
surpreende todos os silêncios
neste cais
onde nada é inútil
mas tudo é tão frágil

e nada mais acontece

neste cais
os pássaros em desassossego
banham-se à sombra dos mastros
espantam-se de tanto se olharem
na concha das nossas mãos

e nada mais acontece

até o cais ser um cristal
mais forte que o seu brilho
golpe de asas e seara
contra todos os destinos

Nesse dia
ai nesse dia
de tanto querer voar
nos tornaremos alados
no espelho da água
mais livres que os pássaros


Eufrázio Filipe