segunda-feira, 18 de junho de 2018

GUIADA PELO MEU CÃO






Quando o vento em torvelinho
se escancarou nas águas
abriram-se janelas de luz
neste chão de marés
para tu passares

pelos sinais
desobrigada sereníssima sem quebrantos

despertaste os barcos
numa carícia de tremulinas

Eras tu senhora
guiada pelo meu cão


Eufrázio Filipe
(reeditado)

sábado, 9 de junho de 2018

À LUZ DE UM FÓSFORO


                                               



Nesta noite de alaúdes e jacarandás
a contar pelos dedos
os sons da vida
colhemos a vasta sede
caminhámos por sobre as águas

cúmplices nos olhares 
e nas partituras
plantámos uma árvore
na velha escarpa
festejámos o barco
das nossas raízes

Nesta noite de mares silvestres
regressámos
à síntese da nudez
fizémos um gesto 
e tudo ficou mais claro
à luz de um fósforo


Eufrázio Filipe

segunda-feira, 4 de junho de 2018

CHOREI COM OS CÃES






Conduzia na estrada do Barranco do Bebedouro - serpenteada,estreita,iluminada pela lua cheia.
De repente um vulto na minha rota. Não pude evitar. Só o vi pelo retrovisor. 
Ao contrário do que se diz, as fotografias não substituem as palavras, mas esta sangrou-me.
Saí do carro e ajoelhei-me junto do animal- um rafeiro alentejano, lindo, que ainda me olhou nos olhos e disse baixinho 
- É pá - mataste um cão livre.  
A lua cheia derramava-se, inundava o silêncio de cores pálidas e eu levei-o ao colo. 
Quando chegámos a casa só pude fazer o que fiz.
Chamei o Dique e pedi-lhe para convocar todos os cães da aldeia. O funeral foi marcado para a meia noite.
Todos compareceram.
Solidários quatro amigos mais corajosos ofereceram-se para escavar a terra, num canto da horta, onde espontâneas medram as hortelãs.
Todos reunidos no mais profundo silêncio, quando um uivo comovido despoletou um choro colectivo.
Só o Dique não chorou. Trazia na boca uma papoila que largou na sepultura. 


Eufrázio Filipe
"Caçador de relâmpagos"

sábado, 26 de maio de 2018

GESTOS VERTIGINOSOS






Esculpidas numa campânula de sons
as palavras tilintavam
eternas por um instante

interrogavam-se ao espelho
na memória das pedras

Neste jardim emergente
nem todos os jacarandás
rebentaram em Maio
mas as estátuas e os melros
no seu refúgio preferido

como se fossemos nós

entoaram a preto e branco
sinais de ternura
gestos vertiginosos


Eufrázio Filipe

quarta-feira, 23 de maio de 2018

JÚLIO POMAR




Júlio Pomar iniciado no neo-realismo é referência maior da cultura e da inovação das artes plásticas cultivou o desenho e a poesia desde a resistência à ditadura. 
Não deixemos morrer os nossos mortos.