segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A VOZ OCULTA DA LUZ





As pedras marinhas de tão azuis
regressam à tona
juntam-se para respirar
a paciência das aves
cumprem destinos de migalhas
reanimam a voz oculta da luz
que se quer liberta insofrida

a coragem de lutar sobre ruínas

Eufrázio Fikipe

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O RIO À NOSSA MESA


                                            Malhoa - praia das maçãs


Aparentemente livres
nas margens deste rio
insondáveis onde se cruzam brisas
e afagam retratos
recuperámos as nossas velas
transportámo-nos para o mar

No marulhar desta povoação
de silabas quase perfeitas
desaguámos lentos
desenhámos garatujas
na coluna dos barcos
sem amarração

De tão quedas as águas
recortámos memórias
em pedaços de tremulina
sentámo-nos nas margens
a invocar a sede
a rasgar com um sopro
uma espécie de tempestade

Livres e insondáveis
perguntámos ao rio
se queria sentar-se à nossa mesa
e ele disse que sim

Eufrázio Filipe (Para lá do azul )
 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

LÁBIOS





Demoras-te senhora nestas águas
porque é sempre breve
o instante
das pequenas vertigens

Vieste colher os meus lábios
para incendiar uma pedra

Na verdade o teu corpo
tão líquido e incerto
na voragem dos destinos inventados
vibra no ritmo das marés
ilumina-se por dentro
num feixe de faúlhas

habita as fendas rema
por onde espumam as salivas

Demoras-te senhora nestas águas
sentada no meu barco

mas nunca saberás
dos meus lábios uma palavra
sempre que tocar os teus

nem das línguas
o fogo regurgitado
que nos liberta


eufrázio filipe ( Que fizeste das nossas flores )

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ESPAÇO PARA CANTAR









Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra


Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas


ainda há espaço para cantar


eufrázio filipe (Presos a um sopro de vento)

sábado, 16 de janeiro de 2016

UM CORPO DE ASAS







Queria ver uma multidão
uníssona
em cada gesto teu
e vejo


queria que tivesses um oceano
organizado
no azul dos olhos
e vejo


queria que fosses um corpo de asas
mas insistes em chamar às coisas
apenas o nome que elas têm



eufrázio filipe


(publicado no Chão de Claridades)