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Neste belo deserto
povoado de silêncios
lábios areias e coisas lindas
quando vi os pássaros
aos molhos
num só ramo da araucária
com pausas soletradas
numa cadência exausta
de trinados e vírgulas
levantei-me da sombra
com os cães
para colocar as palavras
em ordem
nos acordes da folhagem
e nada mais aconteceu
Ainda não aprenderam
os meus olhos
a verem-te
como és
mas apenas como te vejo
Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra
Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas
ainda há espaço para cantar
Nem todos os jacarandás
rebentaram em Maio
mas tu cumpriste
o ritmo das estações
contra o tempo que faz
vestiste-te de púrpura
com cheiro a hortelã
sentaste-te no meu silêncio preferido
dedos esguios em flor
a crescerem nas teclas do piano
Nem todos os jacarandás
rebentaram em Maio
porque não existem horas para amar
porque é possível pintar
uma flor com a boca
na tua boca
e ficar assim
eternamente a respirar
Nua de tudo
como se fosses jovem
e és
a espargir silvos
em sobressalto
tão azuis
os cardos despontam
nos jardins de Maio
Nua de tudo
por sobre as pedras
não basta voar
é preciso ser pássaro
mais alto que o vento
à solta
transportar aromas
mãos cumplicidades
e um arado
soletrar pelos dedos
a vertigem da luz
no sulco dos barcos
até ser dia