quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

OLHOS REMOÇADOS





No tempo em que crescíamos
a noite bramava tão parda 
que nem parecia noite

de súbito um frémito de luz
pestanejou nos mastros dos barcos

o mar restolhou

e eu vi claramente 
os teus olhos remoçados
alumiarem as águas

após tantos relâmpagos vividos
julgavas estar preparada
para voar

mas os pássaros ainda aprendiam
a ter asas


eufrázio filipe

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

ESPAÇO PARA CANTAR






Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao  cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra

Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas

ainda há espaço para cantar


eufrázio filipe

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A ESSÊNCIA DA LUZ






A noite não dorme
porque se ama
e deseja

inesgotável
desponta vertebrada
move tempestades

às mãos cheias
dá de beber às fontes
a essência da luz

Tantas são as noites
que não dormem
contadas pelos dedos

a desbravar caminhos
conhecidos


eufrázio filipe

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

VIGÍLIA AO IMPROVÁVEL





Quando te despiste em flor
e revelaste a nudez
já despontavam as camélias

não por dádiva dos céus
na vertigem das sombras
muito menos porque o mar
se ergueu
num sussurro de azuis

tão só depurada
trazias gestos musicais
a noção de um rio
que se demora nas margens

Quando te despiste
quase inocente
numa povoação de sílabas
não desnudaste
o mais íntimo da pele

ficaste em vigília ao improvável
tão perto dos mastros
onde dardejam pássaros
e profanam metáforas


eufrázio filipe

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

PALAVRAS VERTEBRADAS





Benditas as palavras vertebradas
silaba a silaba
o canto das folhas desamparadas
no alpendre
o uivo dos cães
a clarear sombras

este perfume de mostos
chuva lábios e pedras

este marulhar desabrido
à nossa porta
na livre circulação do vento


eufrázio filipe