Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

NADA MAIS ACONTECEU





Neste belo deserto
povoado de silêncios
lábios areias e coisas lindas
quando vi os pássaros
aos molhos
num só ramo da araucária
com pausas soletradas
numa cadência exausta
de trinados e vírgulas
levantei-me da sombra
com os cães
para colocar as palavras
em ordem
nos acordes da folhagem

e nada mais aconteceu

 

Terça-feira, 14 de Maio de 2013

COMO TE VEJO



                                           

Ainda não aprenderam
os meus olhos

a verem-te
como és

mas apenas como te vejo


 

Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

ESPAÇO PARA CANTAR





Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra

Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas

ainda há espaço para cantar

 

Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

ETERNAMENTE A RESPIRAR





Nem todos os jacarandás
rebentaram em Maio
mas tu cumpriste
o ritmo das estações
contra o tempo que faz

vestiste-te de púrpura
com cheiro a hortelã
sentaste-te no meu silêncio preferido
dedos esguios em flor
a crescerem nas teclas do piano

Nem todos os jacarandás
rebentaram em Maio
porque não existem horas para amar

porque é possível pintar
uma flor com a boca
na tua boca

e ficar assim
eternamente a respirar



 

Terça-feira, 30 de Abril de 2013

ATÉ SER DIA





Nua de tudo
como se fosses jovem
e és
a espargir silvos
em sobressalto
tão azuis
os cardos despontam
nos jardins de Maio

Nua de tudo
por sobre as pedras
não basta voar
é preciso ser pássaro
mais alto que o vento
à solta

transportar aromas
mãos cumplicidades
e um arado
soletrar pelos dedos
a vertigem da luz
no sulco dos barcos

até ser dia