segunda-feira, 27 de julho de 2015

PELOS CAMINHOS DA ÁGUA





Com a serra às costas
pelos caminhos da água
sussurram lábios
remos e passos

amantes de trinados
afloram este jardim de claustros
a luz refulgente
ancorada no cais

pelos caminhos da água
lá estavam
inverosímeis pássaros soltos

os teus pés nos meus


Eufrázio Filipe

sábado, 11 de julho de 2015

VOU ALI E JÁ VOLTO






Nesta vida alcantilada
entenderam por bem
as andorinhas nidificar
no ninho que desejei
construído no alpendre
por cima da mesa
onde escrevo
para os pássaros

De tão grato
não me permito
perturbar o seu bailado
nem com o silêncio
das palavras

Vou ali e já volto


Eufrázio Filipe

segunda-feira, 6 de julho de 2015

COMO SE FOSSEMOS LIVRES E SOMOS




Nos gestos mais simples
é possível conquistar
um coração de ave
rasgar a crosta das palavras
agitar o fulgor da vida
a grinalda de cristais
onde corre o sémen
rumoroso e fértil

nos gestos mais simples
é possível espalhar sementes
incendiar fronteiras
partir mar adentro
como se fossemos livres 
e somos

nos gestos mais simples
é possível resistir
rasgar silêncios
na voz dos pássaros
e deixar que as palavras
num sopro de brisa
poisem por sobre as águas
no corpo da poesia

como se fossemos livres
e somos


Eufrázio Filipe
 

terça-feira, 30 de junho de 2015

OLHOS ENXUTOS






De passagem
pelo eco ciciado da casa
onde florescem cravos
paisagens de carne e osso
o rio
para salvar o retrato íntegro
do silvo dos barcos
transportava palavras navegáveis
folhas de arremesso
aos guardadores de rebanhos

De passagem
cansado de ser rio
exilou-se no mar

ainda tentou roubar-te
uma lágrima solta

mas os teus olhos
estavam enxutos
na palma das mãos


Eufrázio Filipe

quarta-feira, 24 de junho de 2015

QUANDO TE DESPES DAS SOMBRAS




À vista dos mastros
no eco do cais
não são os poetas
que morrem nos poemas
para salvar palavras
a luz mais clara

és tu
por gestos
quando te despes das sombras 


Eufrázio Filipe