domingo, 10 de dezembro de 2017

ARTESÃO DE METÁFORAS





Nas margens do rio
onde habito
respiram pautas desertos
retratos íntimos de flores
a preto e branco

repousam mãos famintas

Nas margens deste rio
quando a noite amanhecida
não dorme
ouvem-se pêndulos vagares
cadenciados
agitam-se os dedos

o tempo ousado dos poetas
que não eu
artesão de metáforas

No fulgor das águas
desprendo-me
a profanar metáforas
para ver mais claro
o teu corpo antigo baloiçar
nas paredes da casa


Eufrázio Filipe
"Chão de claridades"


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

AMIGO DE QUATRO PATAS


 A pedido do meu neto reedito uma das dez" garatujas "que lhe desenhei por escrito 




Na rua chovia. As folhas das árvores caíam. 
Estávamos no Outono, mas hoje acordei com um sonho lindo. 
Apeteceu-me correr no jardim da escola, mesmo pelo meio das flores. Eu sei que não devia, mas apeteceu-me. 
Estou a falar de um sonho, porque a minha escola não tem jardim com flores. 
De repente tropecei numa flor com espinhos, caí, feri-me numa perna. 
Ali fiquei no chão com muitas dores a chorar. 
De repente apareceu um cão e assustei-me.
Não sabia o que fazer. 
Ele olhou para mim e lambeu-me a ferida. 
Cocei-lhe as orelhas e abanou o rabo de contente. 

Já acordado pensei no meu sonho lindo e disse 

Nunca mais corro pelo meio das flores, mas quero ter um amigo de quatro patas 


Eufrázio Filipe

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

TUDO SE MOVE





Com tantos mares desnavegados
começámos a desbravar
caminhos repetidos
quase perfeitos
o fulgor das velas no cais

na verdade
já tínhamos nascido
desnascido quase tudo

quase tudo
porque ainda hoje
nas nossas veias
os rios correm para o mar
a chuva cai dos céus
movimenta-se
a memória das pedras

águas ventos cumplicidades
num abraço de limos

tudo se move
mas "sem a claridade dos pássaros
o poema não voa"


Eufrázio Filipe


sábado, 25 de novembro de 2017

SIMPLESMENTE CHOVIA





Nestes dias
há deuses de caruma
que se agitam
no coração dos pássaros
lágrimas soltas
na boca das sementes
numa festa de faúlhas

fui a janela
para ver

fiquei mais leve de palavras

simplesmente chovia


Eufrázio Filipe

sábado, 18 de novembro de 2017

SOL DE MÃOS CHEIAS






Com tantas pedras partilhadas
aqui estamos soltos
na vertigem da escarpa
a plantar árvores
com vistas para o mar

Aqui neste Outono
para meu espanto
despontam camélias
no bico dos teus seios

um sol de mãos cheias
no trilho  dos pássaros silvestres

e nós desvendamos
caminhos que resistem

como se fossemos livres
e somos
de tão breves


Eufrázio Filipe