quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A SEDE DO ENTARDECER





Nem o mar sabia
entardecer
numa folha de papel

esculpir em síntese
a tua nudez

Nem o mar sabia responder
a tanto azul
nem eu sabia que tardavas
mas chegavas
chegavas chegavas
nunca mais acabavas de chegar
a tempo de plantar
uma árvore
que se desnudasse
folha a folha

Nem tu sabias senhora
neste deserto
a sede do entardecer


Eufrázio Filipe (2010)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A DARDEJAR POR SOBRE AS PEDRAS





Passo a passo
no desassossego das marés
inconformado
desde o primeiro grito

atravesso por um fio
a distancia que nos aproxima

trespasso
volvidos tantos mares
na presença límpida
de uma flor
este chão de náufragos

passo a passo
pétala a pétala
em pleno voo

desvendo-te
a dardejar por sobre as pedras

Eufrázio Filipe

(reconstruído)


domingo, 14 de agosto de 2016

DESVENTOS






No espelho das águas
sacudi amarras
a preguiça das marés 

Não chovia
em redor dos teus olhos 

mas quando te recolhi
numa folha de papel
incomensurável e linda
uma brisa
sentou-se na cadeira vazia

e nós começámos
a lavrar areias

a desbravar um poema 

Estava tão aceso o mar
que nem pareciam azuis 
os teus olhos

Eufrázio Filipe
(poema reconstruído)


terça-feira, 9 de agosto de 2016

A SENHORA DA LIMPEZA





Antes de chegar às galerias, identificaram-me com um sorriso. 
Subi no magnífico elevador, conduzido por um delicado polícia. 
Sentei-me nas galerias e olhei para baixo.
Lá estavam os representantes da nação. Os eleitos da república. A palavras cruzadas, as ideias esgrimidas, as bandeiras nas lapelas, os passos perdidos. As palavras os gestos os silêncios. Os crentes e os farsantes. Desiguais. 
Inocente,segredei a um jovem cabisbaixo, companheiro de galeria: 
- " coisa linda esta democracia" 
Lá em baixo também estavam os meus, pouco numerosos  ainda mas a combaterem pelas minorias que vivem nos subúrbios de tudo. 
Lá em baixo quase todos esquecidos de subir os olhos para as galerias, tricotavam a verve, gesticulavam poses de verniz. 
De quando em vez disparavam blasfémias, partilhavam impropérios para mais tarde se abraçarem à hora do repasto. 
Inocente o jovem cabisbaixo segredou-me: 
- "comigo um dia isto será diferente" 
Terminada a sessão plenária os deputados saíram como estava previsto. O amplo salão ficou vazio, soberbo e solene.
O salão ficou a registar memórias e eu deixei-me ficar até ser convidado a sair pelo mesmo delicado polícia.
Como foi o último plenário antes das férias de Verão, resolvi festejar em silêncio. 
Procurei um restaurante no belo bairro de São Bento e sentei-me à mesa. 
Pedi o prato do dia. 
Serviram-me um discurso de Passos Coelho. Rastejante. Intragável. 
Fechei os olhos, abri os olhos e pedi o livro de reclamações. 
Levantei-me da mesa sem pagar. Os empregados  ficaram a ler o meu protesto. 
Lá fora ainda ouvi alguns aplausos mas fiquei na dúvida quanto aos seus votos. 
Dei uma volta ao quarteirão e na passagem ainda olhei para o magnífico edifício. 
Para meu espanto a porta rangeu. 
Começou a abrir-se lentamente. 
Era a senhora da limpeza. 

Eufrázio Filipe

Publicado (reconstruído) no "CAÇADOR DE RELÂMPAGOS " 2010 "ÂNCORA EDITORA

sábado, 30 de julho de 2016

O MEU HÁBITO DE OLHAR O CHÃO






Ouvidos colados
neste chão de timbres
oiço o oculto coração das pedras
numa festa de raízes

respiro fundo a intimidade
da terra arada
as sementes
em novas apoteoses
de coisas simples

a sombra que se ateia
para as mãos
não perderem o sentido
nem os meus olhos
o hábito de olhar o chão

Eufrázio Filipe