domingo, 24 de agosto de 2008

NO PESTANEJAR DE UMA VÍRGULA

Olho-te como se fosse a primeira vez
Na verdade a água
corpo líquido de mulher
tem segredos escondidos no fundo das pedras
alimentos de fogo
talvez uma praia onde se fundem
areias e lábios
um piano de luzes
que determina o tempo das estações

Ainda bem que tens ilhas selvagens
sinais apócrificos que se desnudam
em gestos simples
no pestanejar de uma vírgula

Na verdade a água sabe rir e chorar
no espelho das próprias lágrimas
no rumor das maresias
e eu descobri uma vez mais
que tens póros por onde respiras
silêncios escarpas por onde escorrem salivas
que te ergues e desmoronas
abrigo e mensageira
te desprendes do chão
ou hibernas nos corais

Que bom ainda hoje
partilhar contigo este despertar
aprender vida fora a descobrir-te
como se fosse a primeira vez
deixar por um instante
a outra água
para os peixes se moverem

29 comentários:

Sérgio Ribeiro disse...

Curioso! Estou a ler Luandino e fixei-me numa utilização frequente do verbo pestanejar. Achei muito interessante. E agora, aqui, reencontro-o. E gostei.
Para além da riqueza metafórica, gravei a contraditória simplicidade (e verdade boa de sentir e de dizer) de quatro versos:
Que bom ainda hoje/partilhar contigo este despertar/
aprender vida fora a descobrir-te/
como se fosse a primeira vez.

Um abraço

AJB - martelo disse...

poesia... tem sempre outra linguagem.

Justine disse...

É tão difícil saber olhar e ver sempre, todas as vezes que se olha, como se se visse pela primeira vez.
Mas é possível, assim li no teu poema...

Maria disse...

Na verdade a água - o mar, a onda...
... e descobrir-te sempre como se fosse a primeira vez...
Na verdade, às vezes fico em perfeito estado líquido...

Obrigada!

hfm disse...

Belíssimo!

Maria P. disse...

sem pestanejar li, e gostei.

Um abraço.

jrd disse...

Belíssimo!
E com destinatária...

~pi disse...

dias

em que

das mãos

olhos virgens

líquidos

águas


~

Mié disse...

Olhar com o coração

é do que fala o teu belíssimo poema

do amor que só o coração sabe falar.

E


muito bem escrito metafóricamente

embora eu disso não entenda muito, apenas o suficiente :)


Um beijo

grande

São disse...

Indispensável aprender a redescobrir, para que o amor não se afogue nos traiçoeiros pegos da rotina: gostei!
Penso que sabes do acontecido a Montecristo, não?
Feliz semana para ti.

maria josé quintela disse...

olhar como se fosse a primeira vez é dom de poeta.


gostei muito da imagem da água como corpo líquido de mulher.



um abraço.

mdsol disse...

É o amor?
Só pode...
:)

Mariz disse...

Viva! vim agradecer a sua presença na minha festa e informar que tem lá a resposta por tão amável visita.
Quanto a este poema...é por demais belo!
Se assim fosse com todos, o Amor jamais se afastaria da rota certa!
Deixo um abraço sentido
Mariz

Alfazema Azul disse...

Voltei para falar das minhas gentes, da minha terra, das memórias vivas e reais que perduram na minha alma e no meu coração.

Beijinhos

Anónimo disse...

Autêntico hino à mulher
Gostei muito do poema
e da essência
Essência que inalei
muito a meu jeito
Enquanto Mulher
deliciei-me
ao sentir-me
"água"
"praia..."
"ilha..."
"...piano de luzes"
"abrigo"
"mensageira" ...
...do possível
após hibrenação
entre "corais"!

princesa

Graça Pires disse...

"Ainda bem que tens ilhas selvagens"
Uma ilha tem tanto para descobrir e o poema dá-nos conta desse desejo.
Um abraço.

The Hazy Looker disse...

Descobrir o mar... Descobrir a mulher...

Ana Paula disse...

Viver tudo ou, pelo menos, o importante, como se fosse a primeira vez... é preciso! :)

Boa semana de fim de Agosto!

Sal disse...

Que bonito poema.
E eu estava para aqui a pensar como foste parar ao meu blogue, mas já vi aqui "caras" conhecidas...
Vou-te linkar, que é mais fácil.
Beijinhos, volta sempre.

Mel de Carvalho disse...

A poesia é, tal como o ser humano, sempre uma permanente descoberta.

Grata pela partilha deste belíssimo poema. Vou reler.

Fraterno abraço
Mel

Maria Laura disse...

Belíssima linguagem poética. Uma delícia para ler.

Mateso disse...

Água e mulher, um paralelo que por entre os dedos vai e vem.
Belo!
Bj.

dona tela disse...

Tive o meu primeiro SELO!

Beijinhos.

CCF disse...

Nada mais belo que um amor que se renova e é capaz de se traduzir assim em palavras.
~CC~

mariam disse...

Olá!
tão lindo! lindo!
sou Mulher. Obrigada p'la sua sensibilidade.

fiz um pequenino hiato, de dia e meio nestas férias, regressei à "base" e à net, sigo amanhã para Madrid e Saragoça, vou à EXPO (apenas 3 dias), depois Castelo branco, quando voltar em meados de Setembro, vou ler tudinho com calma, agora vim só dar um abraço

e um sorriso :)

ah! nem de propósito a Expo ... é Água!

pin gente disse...

que bom ainda hoje!
ternura, amigo e alguns condimentos

abraço
luísa

gabriela rocha martins disse...

como persistes na arte de relevar a ESCRITA


retomo.te ,pontualmente ,no meu regresso
[pós férias]


com


.
um beijo

heretico disse...

água para mergulhar. e descobrir a beleza dos seus reflexos.

... e outra(s água(s) para "os peixes se moverem"!

o poema faz a subtílissima diferença.

Excelente, Poeta maior.

abraços

AnaMar disse...

Fascinante. Belo bailado de palavras.
Porque é sempre a primeira vez.
Cada momento é único e irrepetível.