sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MAIS LIVRES QUE OS PÁSSAROS






A letargia dos barcos
surpreende todos os silêncios
neste cais
onde nada é inútil
mas tudo é tão frágil

e nada mais acontece

neste cais
os pássaros em desassossego
banham-se à sombra dos mastros
espantam-se de tanto se olharem
na concha das nossas mãos

e nada mais acontece

até o cais ser um cristal
mais forte que o seu brilho
golpe de asas e seara
contra todos os destinos

Nesse dia
ai nesse dia
de tanto querer voar
nos tornaremos alados
no espelho da água
mais livres que os pássaros


Eufrázio Filipe



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

ARTESÃO DE METÁFORAS





Nas margens do rio
onde habito
respiram pautas desertos
retratos íntimos de flores
a preto e branco

repousam mãos famintas

Nas margens deste rio
quando a noite amanhecida
não dorme
ouvem-se pêndulos vagares
cadenciados
agitam-se os dedos

o tempo ousado dos poetas
que não eu
artesão de metáforas

No fulgor das águas
desprendo-me
a profanar metáforas
para ver mais claro
o teu corpo antigo
baloiçar nas paredes da casa


Eufrázio Filipe
"Chão de claridades" editora Lua de Marfim

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

CONTRA O MEDO




O colossal perigo para o mundo será Trump nacionalista assumir a vertigem do poder pessoal, por cima das instituições dentro e fora do seu país. 
No seu discurso de posse, pato bravo ignorou a Constituição, os direitos humanos e até os seus adversários. 
Populista imprevisível, perigosa criatura, prometeu o descalabro, o crescimento da temperatura e da desordem internacional. 
A menos que um novo David assuma a pedra nas ruas, 
contra o medo. 




terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A MEMÓRIA DAS PEDRAS






No compassado ciclo das marés
à vista dos sereníssimos
moinhos de maré
lá estavam
garças seixos e corvos
tão breves como nós
a inventar destinos
sem âncoras nos sapais

De passagem
para outros azuis
entoamos silêncios
resgatamos barcos
para não perder o rio

beijamos a memória das pedras


Eufrázio Filipe

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

À FLOR DAS ÁGUAS






Nem remos nem passos
mesmo que se movam
numa cadência de gestos

nem palavras navegáveis
a pressa de um beijo

nada é urgente

a menos que se transcendam
a natureza dos barcos
à flor das águas
os desvalidos
no coração dos pássaros


Eufrázio Filipe