sexta-feira, 5 de junho de 2009

A PRIMITIVA CHAMA



Neste chão que bebemos às mãos cheias
tudo se move em círculos de faúlhas e tremulinas

até a ancorada sombra das pedras
rasga percursos
no mesmo espaço das aves
em voos rasos
por sobre um lume de grinaldas
ao longe muito longe
onde um barco em flor
nos quer sonhar

Vindimamos estranhas marés
miragens quase perfeitas
e outros velames

Colhemos o sopro nas pétalas que dardejam
cumprimos as sílabas pelos dedos
para que tudo aconteça
com um toque irrepetível
no ressoar das águas

mas que não arda
a primitiva chama

sábado, 30 de maio de 2009

GRACIOSA MEU AMOR

Um dia escrevi que tínhamos por regra familiar - dar nome às nossas galinhas. Eram as primeiras. Só queríamos olhá-las nos olhos e recolher os seus ovos.
A Graciosa - recordo-me como se fosse hoje - destacou-se no snooker em vésperas de uma campanha eleitoral.
Creio que foi a sua primeira partida.
Reunidos em família a propósito da preferencia das andorinhas para o seu primeiro ninho no nosso espaço, sentámo-nos à mesa. Iniciámos o repasto - abruptamente interrompido.
- Pai - parece que estamos a comer a família.
Levantei-me e perguntei.
- Não me digam que é a Graciosa.
Ninguem respondeu.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

NA FOLHAGEM DAS CEREJEIRAS



Numa perfeita harmonia dissonante
hoje os pássaros acordaram loucos
mas os teus olhos não

errantes como frutos amovíveis
pestanejam vertebrados

quase indecifráveis
deixam na poalha
um rasto fluorescente
para as aves se guiarem

desafiam tudo
até os infinitos tangíveis

ousam rasgar nas sombras
breves instantes interditos
desnudam-se em centelhas
e outras claridades

É nesta folhagem das cerejeiras
que os desoculto
de tanto olhar

segunda-feira, 18 de maio de 2009

SÓ PARA TE MOVER


Perco-me no sussurro branco
de uma folha de papel
onde tudo é mais azul
quando as flores e os animais
se desnudam
bailam
em tatuagens solares
nos nossos corpos

Reencontro as mãos sobreviventes
os passos assimétricos
o ritmo desgrenhado das marés

Penso risco traço
moldo rasgo esculpo
um grão de areia
só para te mover

formosa duna

terça-feira, 12 de maio de 2009

SOPRO DE VENTO



Tão longo é o caminho
que nos sustenta

a nudez da fala
que nos liga

Por vezes
basta uma brisa
na constelação dos azuis
para atear as águas

Na verdade
até onde chegam as marés
mesmo que se rasguem
as palavras
não há fronteiras

para um sopro de vento