sábado, 23 de outubro de 2010

O PÃO CRESCEU NAS NOSSAS BOCAS

publicado no "Para lá do azul"

Ver-te assim tão indecifrável
nos contornos e nas arestas
ancorada nas marés
em chama viva
a entrar pela casa vazia
sem desistir dos silêncios
a resistir mesmo quando doem
os passos e as pontes
fez-me pedir ajuda
a um cântaro de água fresca
às pedras que cantam e tropeçam
nos pés das videiras
Foi assim que nos despimos
e vindimámos
para os barcos cumprirem
o seu efémero destino
As uvas morreram nas tuas mãos
mas o pão cresceu nas nossas bocas


domingo, 17 de outubro de 2010

FLORES DE ESPUMA

publicado no "Que fizeste das nossas flores"

Um círculo de garças
nem brancas nem esguias
adormecem nos barcos ancorados
com olhos excessivos

Nesta ilha sem vista para o mar

navegam águas improváveis

faúlhas num incêndio

de partículas sitiadas

Aqui paira o aroma da cânfora

em ressonâncias quase divinas

pousam lábios em cálices de cicuta

O mar não é sempre azul

e talvez por isso se agite

nos mapas imaginários

rasgue caminhos

para não se perderem os náufragos

Nesta ilha de bálsamos

onde os destinos se desmentem

afagamos ruínas soltamos hinos

por sobre a memória das pedras

damos voz aos silêncios

até que as garças

se tornem brancas e esguias

como flores de espuma


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NA PASSAGEM

publicado no "Para lá do Azul"


Abro o pano
cai o pano
não existe pano
o tempo passa
trespassa
a passo
voa

para lá do azul
nem uma pedra
na passagem


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

OUTONO

publicado no "Para Lá do Azul"

Uma folha
caíu
simplesmente
aos teus pés


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

100 ANOS DE REPÚBLICAS



No seu "reinado" o ditador Salazar chegou a tentar o regresso à monarquia, pelo que os festejos dos 100 anos de repúblicas acontecem no país de modos distintos - conforme o povo e os "barões assinalados".
Do grandioso baile da república na Fonte Luminosa a uma tourada não sei onde, tudo é possível nesta terra dos Lusíadas - até cerimónias e eventos dignos do 5 de outubro.
Por mim me confesso - alérgico a santos, reis, heróis, chefes e patrões.
Como não podemos mudar de povo - continuo a sonhar no dia em que se " levante do chão" .