sábado, 4 de julho de 2009

PARA LÁ DO AZUL


Aqui tão perto dos infinitos
no ponto mais distante do deserto
presos por um fio
a meio da ponte
ainda hoje celebramos
as margens
para escrever no azul
metáforas trabalhadas na água
palavras brancas

Ainda hoje
temos o corpo dividido
em pequenos deuses
mas quando partimos
num barco em flor
sonâmbulos como potros
do chão firme das espumas
erguem-se aromas incríveis
na mais transparente verticalidade

Descobrimos
que para lá do azul
talvez ainda seja mar

domingo, 28 de junho de 2009

O TRANGALHADANÇAS

olbinski

A pedido dos monges da Arrábida foi construída uma fortaleza para proteger o litoral. A vida pode ser uma surpreza. A fortaleza, hoje museu oceanográfico é uma referencia no corpo da serra.

Deslumbrados com o património florístico e os monumentos geológicos deste sopro da natureza, percorremos magestosas paisagens na bio-diversidade deste ecossistema.

Desaguámos na enseada do Portinho, numa das mais belas baías do mundo, no espaço poético de Sebastião da Gama.

A doce Arrábida debruça-se abrupta em madeixas de verdes até afagar o rio azul, à vista de roazes e finíssimas areias.

Na esplanada de um restaurante, com os olhos nos olhos dos peixes e dos albatrozes, distribuíamos miolo de pão, saboreávamos salmonetes, nascidos, crescidos e baptizados no Sado.

Não fora a exploração desastrosa da alma e do corpo da serra para a produção de cimentos, uma ferida que sangra os olhos, mais a recente memória da incineradora de lixos tóxicos em nome do mercado de capitais, estaríamos sem máculas num pulmão que respira.

- A serra queixa-se do trangalhadanças.

Na mesa ao lado um sujeito de cabelo grisalho e nariz ponteagudo, tresandava a brilhantina. Levantou um braço, limpou-se a um guardanapo de papel e questionou-nos com voz falsete.

- Trangalhadanças? Estão a falar comigo?

- Naturalmente sr engenheiro.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

À PERGUNTA DO MAR



Estava com os olhos presos
no espelho do rio
quando as margens
se moveram
com aves a acenarem
famintas de um sinal
para fluirem

Das águas submersas
o coaxar dos remos
regressou à tona

Os saveiros passaram
a andar num rodízio
de memórias

Bastou libertar um pó
para desprender os olhos
partir para a faina

à pergunta do mar

terça-feira, 16 de junho de 2009

ROTA NAVEGÁVEL



Não sabíamos que os rios
podiam cair dos céus
sem deixarem de ser água
mas quando te vi
tão livre líquida quase humana
a moldar arestas
vesti a pele das aves
para descobrir o sentido do voo
a voz abrupta dos violinos

Adentro prisioneiros com destino
num instante de chuva
a desaguar por sobre as pedras
eternos e frágeis
compreendemos o sopro do vento
contra o vento

começámos a construir
a pulso
gota a gota
uma rota navegável

sexta-feira, 12 de junho de 2009

MILITANTES DA VIDA

Alvaro Cunhal
Vasco Gonçalves

Eugénio de Andrade

A vida oferece-nos exemplos magnânimos de cidadãos íntegros que se evidenciam pela entrega a causas comuns e marcam gerações.
A 11 e 13 de Junho de 2005 - três militantes da vida, legaram-nos valores que são património inestimável para todos os amanhãs.
Presto-lhes esta modesta homenagem.
Não deixemos morrer os nossos mortos.