quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

NO BICO DAS ESTRELAS


Parecem-me estrangeiros

todos os barcos

que caminham

na tua rua de seixos

escombros e frinchas de costelas

até os olhos que passam

a arder nas velas

deste mar

Todos me parecem estrangeiros

menos tu menino

com uma pedra na mão

a projetar-se no bico das estrelas

Parece-me estrangeira

a tua rua acidental

calçada de velho

quase um vaso de barro

onde à noite vêm mijar

cães vadios

Menos tu menino
que respiras por guelras


segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ARDEM AS VELAS DESTE MAR




Todas as guerras são lamentáveis - mas quando os invasores exibem uma desporporção bélica relativamente aos invadidos - a injustiça e a cobardia
assumem um descontrole colossal, mesmo perante
o genocídio de inocentes.

Israel com o pretexto de destruir o Hamas, quer dizimar os palestinos como a América fez aos índios.

Entretanto Obama (a esperança universal) parece
querer tudo "resolvido" até ao dia da sua posse, e o Bush pai anunciou agora que o seu segundo filho seria um bom presidente.

A Europa desunida faz comunicados,reza e subsidia a remoção dos escombros - e assim ardem as velas

deste mar.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Á CONQUISTA DO IMPOSSÍVEL

MAGRITTE- 1928


Anoitecidos madrugámos
timbres de outros mares

Aparentemente enxutos
de tempestades
mãos enclavinhadas
por sobre a mesa
e o olhar lúcido
numa migalha de pão
comida por um pássaro
colhemos o aroma do silêncio
e em voz baixa
participámos clandestinos
no rebentar prematuro
das camélias

Eternos partimos
à conquista do impossível
até a chuva desvendar
todos os segredos da água
para que tudo aconteça

domingo, 28 de dezembro de 2008

ATÉ SER OUTRO DIA

Óleo de Vincent Van Gogh


Aparentemente só uma lágrima fria e um súbito nevão assumem a responsabilidade pelo bloqueio às vias alternativas.

Mesmo assim - atraídos pela música de Strauss que irradiava pelas frinchas de uma janela, atrevemo-nos a desaguar nas redondezas da mesquita.

Sentado na caixa de polir, meio desconchavada, fazia sorrir os sapatos passageiros e os seus braços estavam cansados do vai-vem e as suas mãos eram pomada e os seus dedos tremiam e o seu desejo era dar um estalido com o trapo, capaz de arrancar uma palavra de conforto.

Com olhos de esmeralda a rolarem pelo chão - em busca de outros sapatos, só via pés descalços - e a caixa gemia.

- Estou a conhecê-lo?

- É bem possível - eu não fugi de mim. Retirei-me temporáriamente para este exílio, porque sois um país pobre e aparentemente livre.

- Os pobres não são livres.

- Depende do seu código de valores. Eu combato paraísos artificiais e em nome da minha liberdade, beijo uma flor, engraxo-lhe os sapatos.

- Estou a conhecê-lo.

- Talvez. Quando um homem é notícia após ser agredido por quem nos ama, só a poesia pode decifrar a metáfora. Talvez seja o seu caso.

- Não insistas.

- Posso insistir?

- Pode.

- O senhor é Muntazer al- Zaidi.

- Meu caro desconhecido, quando Galileu, em defesa da sua teoria, jurou que a Terra girava em torno do Sol, foi condenado. Só muito mais tarde o Vaticano admitiu ter errado na sua condenação.

- O senhor morde nos sapatos do dono.

- Não. Eu estou orientado para Al-Aqsa. Em nome da minha liberdade, só me vergo para beijar uma flor ou engraxar-lhe os sapatos. Até ser outro dia.

Retirámo-nos - ainda com os acordes de Strauss.


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

CÃO QUE PENSA

ENTRE BELÉM

E S.BENTO

HÁ UM CÃO QUE PENSA