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"Paisagens em alvoroço"
Vou tentar escrever duas palavras ininteligíveis para ver se me faço entender, aqui da minha escarpa.
A poesia não se comenta (?) a menos que sejam os poetas a dizer por gestos o que escreveram.
A poesia do meu amigo Manuel desafia, desbrava palavras, são gestos em carne viva.
O poeta na sua solidão partilhada de luminosidades, sombras e silêncios, adquire no seu refúgio a transfiguração da vida.
Artífice exímio, recusa escancarar os poemas à devassa de uma leitura linear.
Recordo que é através das palavras que se expressa (também) a poesia.
No universo específico onde se move o poeta, com ou sem roupagem metafórica, cabe ao leitor acolher a mensagem e decifrá-la.
Esta poesia não é para ser cantada mas deve ser lida em voz alta, na esperança de sermos livres, eternos, por um instante, nas "paisagens em alvoroço".
Este "do esplendor das coisas possíveis" segue um registo de forma e conteúdo que identifica o Poeta e o Homem.
Se me lessem um poema seu sem identificar o autor, eu diria sem pestanejar - é do Manuel Veiga.
Abraço fraterno.
Enamorado de palavras
transumantes
artesão de metáforas
deixei aos desertos
o cântico das areias
pela casa inteira
Já tínhamos morrido
quase tudo
quando chegaste folha-ante-folha
e eu não sabia
se eras tu
ou um pássaro
a prender-me o olhar
na tua voz
Ainda pestanejei umas vírgulas
soltei pétalas de sal
gota a gota
num belo concerto
de mãos nos ouvidos
anoitecemos
Eufrázio Filipe
Nas fissuras menos conhecidas das pedras
navegam sargaços de cristal
move-se um coração de ave
água possuída de viagens
que o sol lambe em alvoradas
Na mais dura pedra um barco
com gestos a dardejar
desperta animal no próprio corpo
margens
voz
arestas
como se houvesse princípio para a fala
Na mais dura pedra a explosão
secreta dos corais
um pequeno sinal de vida
incontido
à beira do desejo e amanhãs
nesta pátria de náufragos
adentro
Nas fissuras menos conhecidas das pedras
uma asa suspensa
voa na luz
despe-se de tudo
participa
na desordem dos espelhos
Eufrázio Filipe (2007)
Na ausência de palavras
desenhei uma flor encarnada
neste chão de marés
soltei-lhe as pétalas
cadenciadas
silvestres
musicais
agarrei o vento pelas crinas
esculpi um grão de areia
para a vida despontar
num sopro
e a luz se libertar
pelas fissuras da pedra
convoquei pássaros
resgatei memórias
e outros silêncios
escrevi de novo
verdades improváveis
Inesperadamente
hoje não quis salvar o mundo
Eufrázio Filipe
Com olhos cheios
de pátrias desnavegadas
no fulgor das águas
reparti a escarpa
com mãos inteiras
regressei ao poema
plantei uma flor
mais vermelha
que os teus lábios
nas paredes do cais
Dulcíssimos e medrosos
os cães ladraram
ao portão da casa
soltaram os barcos
à hora dos pássaros
para desespero dos náufragos
e das Primaveras
Eufrázio Filipe