segunda-feira, 11 de abril de 2016

DO ESPLENDOR DAS COISAS POSSÍVEIS




                                 
                                         "Paisagens em alvoroço"

Vou tentar escrever duas palavras ininteligíveis para ver se me faço entender, aqui da minha escarpa.
A poesia não se comenta (?) a menos que sejam os poetas a dizer por gestos o que escreveram.
A poesia do meu amigo Manuel desafia, desbrava palavras, são gestos em carne viva.
O poeta na sua solidão partilhada de luminosidades, sombras e silêncios, adquire no seu refúgio a transfiguração da vida.
Artífice exímio, recusa escancarar os poemas à devassa de uma leitura linear.
Recordo que é através das palavras que se expressa (também) a poesia.
No universo específico onde se move o poeta, com ou sem roupagem metafórica, cabe ao leitor acolher a mensagem e decifrá-la.
Esta poesia não é para ser cantada mas deve ser lida em voz alta, na esperança de sermos livres, eternos, por um instante, nas "paisagens em alvoroço".
Este "do esplendor das coisas possíveis" segue um registo de forma e conteúdo que identifica o Poeta e o Homem.
Se me lessem um poema seu sem identificar o autor, eu diria sem pestanejar - é do Manuel Veiga.

Abraço fraterno.


 

terça-feira, 5 de abril de 2016

ANOITECEMOS





Enamorado de palavras
transumantes
artesão de metáforas
deixei aos desertos
o cântico das areias
pela casa inteira

Já tínhamos morrido
quase tudo
quando chegaste folha-ante-folha
e eu não sabia
se eras tu
ou um pássaro
a prender-me o olhar
na tua voz

Ainda pestanejei umas vírgulas
soltei pétalas de sal
gota a gota
num belo concerto
de mãos nos ouvidos

anoitecemos

Eufrázio Filipe
 

quinta-feira, 31 de março de 2016

À BEIRA DO DESEJO





Nas fissuras menos conhecidas das pedras
navegam sargaços de cristal
move-se um coração de ave
água possuída de viagens
que o sol lambe em alvoradas

Na mais dura pedra um barco
com gestos a dardejar
desperta animal no próprio corpo
margens
voz
arestas
como se houvesse princípio para a fala

Na mais dura pedra a explosão
secreta dos corais
um pequeno sinal de vida
incontido
à beira do desejo e amanhãs
nesta pátria de náufragos
adentro

Nas fissuras menos conhecidas das pedras
uma asa suspensa
voa na luz
despe-se de tudo
participa
na desordem dos espelhos

Eufrázio Filipe (2007)

sexta-feira, 25 de março de 2016

VERDADES IMPROVÁVEIS





Na ausência de palavras
desenhei uma flor encarnada
neste chão de marés

soltei-lhe as pétalas

cadenciadas
silvestres
musicais

agarrei o vento pelas crinas
esculpi um grão de areia
para a vida despontar
num sopro
e a luz se libertar
pelas fissuras da pedra

convoquei pássaros
resgatei memórias
e outros silêncios

escrevi de novo
verdades improváveis

Inesperadamente
hoje não quis salvar o mundo

Eufrázio Filipe
 

terça-feira, 22 de março de 2016

HÁ FLORES NO CHÃO





Com olhos cheios
de pátrias desnavegadas
no fulgor das águas
reparti a escarpa
com mãos inteiras

regressei ao poema
plantei uma flor
mais vermelha
que os teus lábios
nas paredes do cais

Dulcíssimos e medrosos
os cães ladraram
ao portão da casa

soltaram os barcos
à hora dos pássaros

para desespero dos náufragos
e das Primaveras

Eufrázio Filipe