quinta-feira, 12 de outubro de 2017

FLORES DE ESPUMA





Um círculo de garças
nem brancas nem esguias
adormecem nos barcos ancorados
com olhos excessivos

Nesta ilha sem vista para o mar
navegam águas improváveis
faúlhas num incêndio
de partículas sitiadas

Aqui paira o aroma da cânfora
em ressonâncias quase divinas
pousam lábios em cálices de cicuta

O mar não é sempre azul
e talvez por isso se agite
nos mapas imaginários
rasgue caminhos
para não se perderem os náufragos

Nesta ilha de bálsamos
onde os destinos se desmentem
afagamos ruínas soltamos hinos
por sobre a memória das pedras

damos voz aos silêncios
até que as garças
se tornem brancas
como flores de espuma


Eufrázio Filipe
"Que fizeste das nossas flores"



14 comentários:

Teresa Almeida disse...

Um cais onde mora a agitação e um olhar excessivo.
Adorei.

Cidália Ferreira disse...

Que bonito!!

Beijinhos

luisa disse...

Uma ilha de mistérios.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Hoje este teu poema
atingiu-me em cheio, meu poeta

Sinto-me numa ilha sem vista para o mar
a soltar hinos sobre a memória das pedras

Dá-me animo para dar voz aos silêncios
Dá-me

Agostinho disse...

Mergulhei, profundamente,
no teu sublime e,
quase no fim, já sem fôlego, vi,
como que premonição do destino:
"Nesta ilha de bálsamo
onde os destinos se desmentem
afagamos ruínas soltamos hinos
por sobre a memória das pedras".

Isto a semana passada.
(Eu)
E no entanto permaneço
na aparência dos dias
a navegar sem vento
que me resgate e leve,
sem esperança que me "roche".
Tento.

Abraço.

LuísM Castanheira disse...

"o homem é uma ilha..."
abraço

Marta Vinhais disse...

Há sempre mistérios que nunca entenderemos...
Lindo....
Beijos e abraços
Marta

Ana Tapadas disse...

Tão belo!

Beijo

Lilazdavioleta disse...

" Recados " ditos de uma forma soberba e bela !

Jaime Portela disse...

Gostei da "ilha sem vista para o mar".
E de todo o poema, que é notável.
Bom fim de semana, caro Eufrázio.
Abraço.

Pata Negra disse...

Uns numa ilha sem vista para o mar, outros num mar sem ilhas, Ofélia vem aí, que chova porra! Tenho a varanda cheia de faúlhas! Não há incêndio que mereça um verso! Traz-me água, poeta, do teu estuário! As sirenes dos bombeiros incendeiam os silêncios, a linha do horizonte está pintada com o clarão assustador, são 22 horas. Já que os poderosos teimam em não ver isto que o sintam ao menos todos os poetas!
Um abraço vago e em vaga

mariam [Maria Martins] disse...

É tão mas tão bom 'lê.lo'. Este poema é belíssimo! Bjs :) Obrigada

mz disse...

Eu gosto das flores de espuma, mesmo que o mar se agite!

Bjs

Graça Pires disse...

As garças serão sempre brancas nos teus poemas porque os escreves com palavras transparentes...
Uma boa semana, meu Amigo.
Um beijo.