sexta-feira, 11 de maio de 2012

CHOREI COM OS CÃES



                                                     Publicado no meu "caçador de relâmpagos"




Conduzia na estrada do Barranco do Bebedouro - serpenteada, estreita, iluminada pela lua cheia.
De repente, um vulto na minha rota. Não pude evitar. Só o vi pelo retrovisor.
Saí do carro e ajoelhei-me junto do animal, um rafeiro alentejano, lindo, que ainda me olhou nos olhos e disse baixinho:
- É pá, mataste um cão sem dono.
A lua cheia inundava o silêncio e eu levei-o ao colo para dentro do carro.
Quando cheguei a casa, só pude fazer o que fiz.
Chamei o Dique e encarreguei-o de convocar todos os cães da aldeia. O funeral foi marcado para a meia noite.
Todos compareceram.
Solidários, quatro amigos mais corajosos ofereceram-se para cavar a sepultura, num canto da horta, onde espontâneas medravam hortelãs.
Todos reunidos no silêncio.
Um uivo comovido despoletou um choro colectivo.
Só o Dique não chorou. Trazia na boca uma papoila que largou
em cima da sepultura.


40 comentários:

Vítor Fernandes disse...

Eufrázio, porra. Não vale. Eu venho aqui para ler a sua poesia e fico com uma lágrima no canto do olha. Está bem, pronto, sei que sou maricas mas escrever tão bem assim sobre um caso que pode até ser real, é demais. Você é o máximo. Um abraço.

marlene edir severino disse...

Tenho chorado é sozinha,
sem os cães
nem os cães entristeço

Abraço!

Rogério Pereira disse...

Há mortes sem culpa que são sentidas
como se todos a tivéssemos

(Tenho livro e, inexplicavelmente, senti este escrito como se me repetisses a dor, mas mais intensamente)

www.amsk.org.br disse...

E pra que explicar? Não precisa. São nossas as lágrimas e são nossos os sentimentos e as perdas.

bjs nossos

trepadeira disse...

Sem palavras,um grito de amor.

Um abraço,
mário

folha seca disse...

Senti vontade de ouvir o Zeca cantar aquela parte da canção que diz "e não há quem lhe queira valer".
Emocionante meu caro.
Abraço

Rúbida Rosa disse...

E quem não chorou pela perda de um animalzinho de estimação? Muito delicada a sua crônica.
Abraços Poéticos!

mundo da lua disse...

Que texto intenso
Excelente publicação

maria azenha disse...

Tão belo...

Gostava de o colocar em " o pó da escrita"...será pedir demais?


Bj,
maria

© Piedade Araújo Sol disse...

eu já tinha lido este texto.
e aconteceu-me o mesmo de quando o li da outra vez.
as lágrimas sabem (sempre) a sal.

um beij

jrd disse...

Comoveste-me. Tu e o Dique!
Só quem fala com os cães é capaz de chorar com eles.
Abraço

Fê-blue bird disse...

Quando a prosa nos dá a mais bela poesia, está tudo dito.
LINDO!

beijinhos

Lídia Borges disse...

Toda e qualquer palavra se faz excessiva, às vezes.
Fico presa a um certo silêncio, não sei de conforto, se de inquietação.

L.B.

Vento disse...

só o Dique não chorou [ou ninguém viu...]!
este é um poema muito especial, um relâmpago.
beijo.

VÉU DE MAYA disse...

Frágil a sensibilidade dos poetas.
E do Dique com papoila. A união por causas nobres faz a força.caro poeta.

abraço,

Véu de Maya

manuela baptista disse...

não chorou,

porque todos os cães ganham o céu sem dono

um abraço

Olinda Melo disse...

Texto emocionante, Mar arável.Só quem compreende os animais chora com eles, meu amigo, e deixou aqui um mar de lágrimas.

Bom fim de semana.

Abraço

Olinda

Maria Luisa Adães disse...

Lindo o seu texto.
De uma ternura para além do tempo

Nem tenho palavras para enaltecer o cão que morreu e o cão que lhe colocou a flor - sem chorar...

Belo!...

Maria luísa

OutrosEncantos disse...

"... amanhãs com memórias..." :)

uma papoila onde medravam hortelãs...
que poema belo, Mar.

beijo.

Sara disse...

O texto é comovente, deixa um nó na garganta.
Há lágrimas que não se vêem...
Um abraço e boa semana.

Laura Ferreira disse...

Fiquei entupida...

Rita Freitas disse...

Lindo este poema, provoca lagrimas de tristeza mas também de esperança, por saber que ainda existem pessoas a tratar os animais com dignidade.
Obrigado

Beijinhos

Fernanda disse...

Não chorou, o Dique. Chorei eu por ele.
Felizmete nunca me aconteceu, mas já vi muitos anormais atropelaram animais e seguir ... alguns aparentemente contentes.


Amigo Eufrázio,
Vou estar ausente. Não estranhe.
Volto logo.
Beijo

OUTONO disse...

...se amemória não me falha, já tinha lido este texto.
E...tocou-me, na simplicidade descritiva...e, nesse olhar humano.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Esta história comoveu-me, sabe? Mas saio daqui com a alma lavada pela sensibilidade das suas palavras.

heretico disse...

há cães que apenas choram pra dentro...

abraço

Sandra Subtil disse...

Eu sento-me a seu lado e choro consigo.
Comovente.

Sónia M. disse...

Afinal, só mesmo o Dique é que não chorou...parece que todos quantos aqui entraram ouviram esse mesmo uivo comovido e se juntaram às lágrimas...

Beijo
Sónia

Secreta disse...

O Dique acredita que, agora sim, o cão sem dono, alcançou a liberdade.
Beijito.

Justine disse...

Em tempo de luto e fragilidades, um pouco da minha tristeza irá para o cão sem dono. O teu texto é belo e pungente.

R. disse...

Estou certa que esta delicada narrativa exprime o sentir e a experiência de muitos. Inibo-me de a adjectivar, as minhas palavras seriam certamente reducionistas.

intimidades disse...

:)

Bjinhos
PAula

Sonhadora disse...

Poeta

Não tenho palavras...chove-me no olhar.
Sublime.

Beijinho
Sonhadora

www.amsk.org.br disse...

Espero teu verso.
confesso.

bj

http://cozinhadosvurdons.blogspot.com.br/2012/05/cozinha-convida-combata-o-crime-de-odio.html

carlos pereira disse...

Se a memória não me atraiçoa, trata-se da reposição de um texto poético. Em todo o caso, adorei relê-lo dada a sua magnificiente qualidade. Gostei muito meu caro amigo poeta.
Abraço.

OceanoAzul.Sonhos disse...

O Dique chorou por dentro... a lágrima, uma papoila.

Magnifico!
beijinho
cvb

Irene Alves disse...

Muito comovente este texto. Só quem
não goste de animais poderá ser
insensível ao mesmo.
Um bj.
Irene Alves

Carlos Ramos disse...

Abriram-se as cancelas celestes onde poderá ser astro farejador, condutor do poema. Brilhante.

ana disse...

Muito sentido.
A papoila caiu no silêncio que a escrita desperta.
Parabéns!

BRANCAMAR disse...

É muitas vezes a dor silenciosa a mais comovente. Uma papoila vermelha é como uma lágrima de sangue.

Beijos