terça-feira, 21 de agosto de 2007

O COMENDADOR ISIDORO

desenho de Mário Filipe








Mão amiga inscreveu na lista dos novos comendadores,para despacho

do senhor presidente - um "pato bravo" de seu nome Isidoro.

Admite-se em Cajados que a comenda lhe tenha sido atribuída apenas

pelo facto de ser um homem podre de rico e mecenas não se sabe de quê



Consta que chegava a um restaurante e quando lhe perguntavam



Vossa excelência deseja uma casta da Região Demarcada do Douro?

Sugiro um Touriga Nacional - casta nobre,rica em polifenois

e compostos aromáticos.Vossa excelência dirá.

O Isidoro,que agora se chama comendador,levantava as fartas

sobrancelhas,fingia pensar e respondia - sempre do mesmo modo

Traga do mais caro.



Tudo isto a propósito do "monte dos tesos" que o comendador

recuperou na aldeia de Cajados.Uma mansão para festejos hilariantes

aos fins de semana.



Um dia com os convivas já a destilarem,as senhoras a chapinharem

na piscina a tricotarem intrigas - o comendador chefiou um grupo,

azinhaga fora para substituir a placa indicativa da aldeia que deixaria

de se chamar Cajados para se chamar Monte dos Tesos.

Alertado e vigilante o povo arrancou a placa repôs a verdade.

Houve mesmo um destemido que se atreveu a gritar

Abaixo o comendador



Durante a semana a paz instalava-se em Cajados,onde habitava

o senhor Jacinto,homem estimado,trabalhador rural assalariado,

viuvo e com três filhos a cargo.

O pai saía ao nascer do sol,regressava ao pôr do sol e os putos

ficavam à solta.



Então não comem nada?

perguntava o senhor Jacinto

Não nos apetece.

respondiam em coro -o Tó,a Bia e o Perdigão.



A verdade dos factos



Os putos descobriram um postigo na casa dos jogos do comendador

e durante a semana invadiam ciclicamente a mansão para tirarem

a barriga de misérias.Abancavam à farta - do bom e do melhor.Só não

tocavam nas lagostas porque tinham medo dos bichos.

Os mais novos sentados à mesa,com toalha de bilros e castiçais,

eram servidos pelo Perdigão que ía dizimando o frigorífico por turnos.

Após o repasto dormiam a sesta refastelados na larga e fofa cama

rocócó do senhor comendador.Após a sesta,todos nus,tomavam banho

na generosa piscina e no regresso a casa ainda se atafulhavam

com "palitos la reine".



Um dia o comendador apareceu de surpresa,com um bando

de seguranças.Apanharam os putos.Lindos como anjos no olimpo,

a dormirem profundamente.Ressonavam como príncipes.O Perdigão

até assobiava uma espécie de tirolês.



Resultado

Queixa na GNR,os putos entregues ao pai que entretanto regressava

estoirado do trabalho.Tribunal - decisão do juiz

Tem dez dias para indemnizar o senhor comendador pelos prejuizos

- 500 euros.



Volvido o prazo,o senhor Jacinto não pode pagar e está em parte incerta.Os putos foram internados numa casa pia qualquer.



O povo está triste e a quotizar-se para pagar a dívida.



O senhor comendador continua em festa.







9 comentários:

Mateso disse...

Moral da história "Quem se lixa é o mexilhão" sempre.
Boa zurzidela aos santos costumes "comendadários" que têm distribuído as ditas cujas ao desbarato.. como o resto do país.
Há tanta comenda a vogar que nem sequer já chegam as barrigas para as segurar...
Lindo o teu texto.
Bjs.

Luís Galego disse...

olhar irónico e inteligente...que não me impediu de dar uma franca gargalhada!!!

Sérgio Ribeiro disse...

O senhor comendador o raio que o parta! Quem está em festa sou eu depois de ter lido e visto, e assim me vou à deita que se faz tarde e amanhã o reformado tem muito que fazer.

Um abraço aos dois!

Maria disse...

Impossível não aplaudir os putos....
Ao comendador desejo que continue a enfardar à custa de quem trabalha, pode ser que rebente... longe...

vida de vidro disse...

Muito irónico e espelho de situações caricatas que abundam por este país. O sorriso que arranca é um tanto amargo. **

isabel mendes ferreira disse...

a ironia ao teu "sabor".


gosto fino.


____________
abraço. sem prazo.

NETMITO disse...

O melhor é "assobiar"))

AH, MEU AMOR NÃO EXISTE MAIOR DOR
QUE O TEU AMOR QUANDO DESPERTA
O QUE SINTO É CLAMOR
QUE O TEU AMOR LIBERTA

)))

Maria P. disse...

Soberbo texto!

Um abraço*

Ema Pires disse...

Gostei do texto, escrito com muita ironia.
Obrigada pela visita ao meu blogue.
Bom fim de semana
Bjs