terça-feira, 28 de julho de 2020
segunda-feira, 20 de julho de 2020
PÉTALA DESPRENDIDA
Para celebrar o hino
apócrifo do vento
nos barcos desgrenhados
respirámos fundo
a essência dos sargaços
e o mar inteiro
sem idade
mal cabia nas nossas mãos
Estávamos tão íntegros
a hastear velas
no branco inconsistente das salivas
a riscar sulcos na água
garatujas nas paredes do cais
que não contive
nos teus olhos
uma pétala desprendida
eufrázio filipe
(2012)
terça-feira, 14 de julho de 2020
COMO TE VEJO (2)
Na dissonância do tempo
caminhamos
sempre a desnascer
surpreendemos máscaras
que se multiplicam
coladas à flor da pele
as mesmas que os barcos
desvendam
no chão das águas
e as aves perseguem
nos mastros
conforme o dardejar do vento
Na dissonância do tempo
ainda não aprenderam
os meus olhos
a verem-te como és
tão só como te vejo
eufrázio filipe
segunda-feira, 29 de junho de 2020
CONTRA OS MEDOS
Quando as mãos no barro
constroem sonhos
de todas as cores
e no branco de uma folha
de papel
se desenham palavras inteiras
vem à tona a luz
muito para lá
da aparente insignificância
de plantar uma flor
mais vermelha
que os teus lábios
Quando o vento sopra
por entre os dedos
é urgente remar
contra os medos
seduzir a boca das sementes
eufrázio filipe
segunda-feira, 22 de junho de 2020
TORRE DE MENAGEM
Há muitos anos comprámos
na Praça de S. Marcos
uma boneca que fingia ser anjo
e tocava violino
Colocámo-la na mesa de cabeceira
porque afagava bem as cordas
e nos despertava
Todas as manhãs lhe desejávamos
bom dia
num ritual ininteligível
e tudo ficava mais claro
Ainda hoje
com outros olhos começámos a ver
os mesmos retratos nas paredes do cais
a dardejarem na intimidade dos sonhos
com outros olhos
pequenos deuses tangíveis
plantámos árvores e barcos
e começámos a beijar
no chão que pisamos
as belas flores do jacarandá
Ainda hoje
nesta torre de menagem
bastou um sopro para agitar os pássaros
nos mastros mais altos
e a boneca na mesa de cabeceira
eufrázio filipe
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