Quando a estátua
deixou de ser estátua
eu vi
uma lágrima solta
nos olhos
da pedra
eufrázio filipe
poesia
ESTE BLOG PRETENDE COLOCAR PAUZINHOS NAS ENGRENAGENS E RESPIRAR POR GUELRAS
Quando te disse
os nossos milagres são fáceis de explicar
o Outono entrou no corpo
das romãzeiras
e ao sabor de um gesto simples
brotaram na tela
traços de aguarelas
foste o meu modelo preferido
só porque trazias no regaço
inquietudes de pétalas
e o mar ficou mais azul
e os barcos mesmo desfolhados
continuaram a remar
na flor dos relâmpagos
Quando te disse
meu amor como te chamas?
transgredimos tantos silêncios
que ainda hoje
quando te pinto
somos água de beber
na boca das sementes
tão sábios aparente mente
à tona dos pássaros
aprendizes do voo
a contar pelos dedos
bagos de romã
eufrázio filipe
A minha escarpa tem uma janela para o vento entrar de preferência com relâmpagos.
Quando troveja inconformado abro a porta que dá para o alpendre e os Serra da Estrela vertiginosos avançam amedrontados.
Aninham-se nos tapetes da sala.
De alma lavada e farto pêlo,entram casa adentro, sacodem-se vivificam as paredes onde me acompanham um óleo de Kiki Lima outro de Albino Moura, pratos alentejanos, uma falua em casca de ostra, uma estatueta da Papua Nova Guiné, o velho relógio de pêndulo, um poema de Eugénio de Andrade.
Quando o sol se esconde, troveja e os céus se derramam, a minha escarpa alumia-se.
Os Serra da Estrêla deitam-se e ressonam nos tapetes até eu pegar no sono e acordar a fazer poemas ou quase nada.
Lá fora imperturbável (e)terno a dizer coisas improváveis - o meu cão de barro - resiste em vigília ao tempo que faz.
eufrázio filipe
Rodeado de mares
contra todos os destinos
caminho por sobre as águas
à semelhança dos barcos
de quando em vez
regresso à minha escarpa
só para ver
Rodeado de mares
nesta ilha candente
ainda há espaço para cantar
levar o pão à boca
resgatar um beijo
eufrázio filipe