sexta-feira, 10 de agosto de 2007

ÁGUA DE MIM

La muralla/laluzdelasflores






Cantas e feres água de mim

nos meus claustros de vinhedos



As tuas asas de papoila silvestre

procuram alimento nesta graça

longe das multidões



procuram o ofício da luz

a candeia para lá de todos os silêncios

o meu regato preferido

para continuar a respirar-te por guelras



Por aqui água de mim passas devagar

corres tranquila

só para distribuires pela boca das sementes

um rasto de vida

sorvida no chão que pisamos



Ajudas-me a cantar e a ferir este silêncio

que me faz falta

para ti



segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O MAGNIFICO GALINHEIRO

desenho de Mário Filipe



Estava o magnifico galinheiro reunido nos poleiros tradicionais -

dramaticamente com poderes absolutos - flamejante e tartufo na discussão de mais um esquelético e estrábico orçamento restritivo

para a comunidade carenciada,quando aflorámos uma ideia antiga

e muito familiar do nosso quotidiano comum.


Como colocar um pauzinho nesta engrenagem?


Na verdade - apesar de tanto cacarejar aveludado,tinhamos quase afónico - um galo espartano - a chefiar uma tribo de 12 poedeiras

sequestradas.

Não foi por ser afónico,mas pelos seus tiques espartanos que sentimos

a necessidade de um tenor menos austero,para dar outra cor à vida

em comunidade.

Na verdade - uma coisa é ser chefe,outra é ser lider.Uma coisa é ser

empresário,outra é ser patrão,trabalhador ou empregado.

Entretanto o tempo passava inexorável e ninguém sugeria um Pavaroti

credível,democrático,sensível aos que mais penam - um tenor que desse a volta ao orçamento restritivo.


Viajámos um dia para o monte Barranco do Bebedouro e foi ali,

na delícia de uns pèzinhos de coentrada,que aconteceu uma conversa

interessante àcerca da arte de colocar pauzinhos nas engrenagens.

O amigo Anastácio que há muitos anos faz milagres de artesão com

o seu canivete de lâmina finíssima,levantou-se e disse com voz embargada

- Para o caso vertente,vou oferecer-vos um casal de pombos alentejanos da minha confiança.

Numa caixa de papelão,com respiradouros ternamente executados,

o amigo Anastácio ofereceu-nos a solução e todos ftcámos mudos e agradecidos.Assim - sem mais palavras.

Um casal de pombos.O Campaniço e a Soalheira.

A fêmea,plumagem cor da hulha.O macho,branco como a cal.

Lindos.Ela - olhos verdes alface,muito vivos,pernas esguias mas torneadas,rabo espetado,pescoço esbelto,ex-modelo em concursos

columbófilos.Ele - porte atlético,campeão de maratonas,de poucas

falas,tipo engenheiro nos excedentários da função pública.


Os novos residentes,oriundos de uma família numerosa,humilde e trabalhadora,foram instalados no magnífico galinheiro,pela calada

da noite,por uma questão de bom senso.

Tinham que adaptar-se e reagir à crise nacional do tempo que faz-

considerar o período da caça com os homens à solta - ao galo espartano

e até às poedeiras iludidas de quando em vez a chocarem ovos supostamente galados.


Ao raiar da aurora,verificámos que à mínima distração o galo malhava nos pombos que se levantavam do chão e cantavam,cantavam,

- cantavam hinos populares,criatividades amorosas.


O galo afónico e arrogante no preciso momento em que os pombos estavam a arrulhar - inesperadamente - libertou pela primeira vez na sua vida - um dó sustenido quase perfeito,e eu gritei

- Finalmente o galo cantou.


Retificámos imediatamente o orçamento restritivo.

Soltámos os pombos e as poedeiras.


O galo ficou a cantar sózinho.




sexta-feira, 27 de julho de 2007

A BOLA DE BERLIM

desenho de Mário Filipe Tu sabes Dique - na vida, por vezes, um homem tem que ladrar

aos cães.

Compeensivo - o Dique olhou-me, e lá fomos.



Estava um senhor representante de um país rico a discursar no púlpito de uma cimeira com pobrezinhos na plateia - de modo a chegarem a um acordo original - "quem manda aqui sou eu" - e tudo continuar como antes - isto é, os pobres cada vez mais dependentes e estupidamente felizes na bandeja dos "subsidios".

Fui com o Dique assistir ao discurso, no segundo balcão do auditorio e concluimos - ainda o senhor estava na leitura do primeiro rolo de papel - A VIDA NÃO É SÓ CONTEMPLAÇÃO E VALE A PENA INTERVIR NA PAISAGEM.

Foi o que fizemos.

O Dique ladrou em falsete, eu cantei a Grandola Vila Morena e ouvimos ao lado alguem bater palmas ao nosso protesto - até sermos expulsos da galeria, após identificação.

Saímos incomodados. A rua vigiada sugeriu-nos uma pausa no café da esquina.

Olhei o Dique ainda não refeito da expulsão. Estava triste.

Disse-lhe determinado - será melhor falarmos de nós. Acalmado concordou e eu comecei a vaguear pela memoria.

Um cão pode ter caracteristicas sublimes de personalidade.Depende do cão e do dono, das condições que ambos conquistaram na vida e da parceria que acordaram nos olhos um do outro.

Não estou de acordo com o Snoopy quando diz - "ontem era um cão.Hoje sou um cão. Amanha provavelmente serei um cão. Há tão pouca esperança de progredir". Curiosamente o Dique também não está de acordo com o Snoopy.

Quem és tu Dique?

Não é simples de explicar,mas em síntese, és um cão.

Aos meus olhos és ainda mais que um cão.Porquê? Porque tens sentidos. Porquê? Porque és vertebrado e quase humano nos caminhos que percorremos, nas histórias que inventamos, na cumplicidade que partilhamos.

Na verdade tudo tem um principio mesmo que a explicação seja simples. Na verdade criei um objecto animado para protagonizar comigo - silêncios, memórias e afetos.

Tornei-me ventríloquo?

Uma coisa é certa - tu existes e chamas-te Dique.

Um dia, no lugar da Volta da Pedra, na berma da estrada nacional, parei numa venda de barros. Tinha a ideia de comprar um vaso e acabei por comprar um cão. Exactamente - um cão de barro .

Sempre pensei que nesse preciso instante estava apenas a comprar um objecto decorativo. Nunca pensei que um dia aquela coisa poderias ser tu Dique. Parece que foi ontem.

Sentado sobre as patas traseiras, porte altivo, orelhas espetadas, olhar terno, bem esticado de coluna, cheio de pó e corpo de barro. Olhamo-nos e parece que te ouvi dizer baixinho - "tira-me daqui".

Resultado - não comprei um vaso, comprei um cão.

Comprei-te barato e coloquei-te onde me pareceu mais certo - à porta da casa.

Ali ficaste todo o inverno.Ao sol, à chuva, ao frio.

Um sentinela.Hirto, sem pestanejar.Uma estátua vigilante e leal a cumprir uma tarefa, um desígnio histórico.

Recordas-te? Passava por ti e não me apercebia que eras um cão. Só tu sabias.

A vida tem razões que a razão não entende e talvez por isso valha a pena ser sonhada, recriada, partilhada.

O inverno passou, nu e cru como são os invernos.Não arredaste pé até que no despontar deste verão - desapercebido ou enamorado da lua cheia, ao fechar a porta da casa, assustei-me com o teu vulto. Nem parecia noite e tu projetavas sombra com a dignidade do primeito dia.

Nervoso - sorri-me com um esgar repentino. Assustei-me.

A partir daquele momento inesperado comecei a olhar-te como um animal de carne e osso.Deixaste de ser um objecto coisificado. Passaste a ser considerado um parceiro com quem podia contar para os bons e maus instantes.

Reconhecido foste batizado solenemente e hoje chamas-te Dique.

Pintei-te todo de preto. Coloquei-te dois brilhantes nos olhos e um dia

a nossa avó num rasgo de criatividade, chegou a dizer - "o Dique é a melhor pessoa que habita esta casa".Porquê? Porque um cão depende de si e do seu dono, e por vezes o contrário não é menos verdadeiro.



Por tudo isto entendemos hoje ir ao auditório.

Sonolento o Dique ouviu uma vez mais a nossa história.Terminámos a bola de Berlim.Saimos do café da esquina.

Admitimos que a cimeira tivesse encerrado, pois o tal senhor do discurso que reconhecemos na via pública, gritava - " DER SIEG,DER SIEG".



A rua ainda estava vigiada.Ainda rosnámos.

Peguei no Dique e regressámos a casa.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

MADRE INÊS


desenho de Mário Filipe
Hoje acordei ainda os barcos estavam de ramelas e lavagem de porões -numa ilha quase imaginária.
Com os restos sonâmbulos de um sonho acordado,surpreendi-me
com um pensamento -
Hoje não quero salvar o mundo,só ajudar.
Na verdade é necessário coragem para renovar,sem perder o traço
fundamental do legado histórico e afetivo.As memórias de hoje foram
inovações no passado e a vida em sociedade é também este ritmo natural
e incontornável de estarmos no nosso tempo - por vezes contra o nosso
tempo - sem fossilizar nem castrar os sonhos.
Hoje acordei assim - a sorver o ar fresco da manhã.Acordei lentamente por entre neblinas atlânticas,a partilhar o voo assimétrico
mas equilibrado de um açor,quando inesperadamente fui invadido por
um silvo estridente,quase um choro de criança - uma farpa nos tímpanos.Era o meu telemóvel de primeira geração.
Atendi - não fosse uma ordem para evacuação do hotel - um eminente despertar vulcânico,uma revolta da direita autonómica,o reinício
da caça às baleias.
Atendi e reconheci de imediato - a minha gata.
Tenho algures uma amiga que nunca vi e me telefona ciclicamente.
Sensual,com dicção perfeita,lê-me sempre o mesmo poema -
Se tivéssemos um barco/ai se tivéssemos um barco/tinhamos o mundo/e seria inútil.
Esta minha amiga não dizia mais nada mas terminava sempre
com um inigmático - miau.
A vida não é fácil,mas com paciência,generosidade e algum prazer pessoal,tenho contribuido para esta ladaínha.
Uma vez mais o silvo do telemóvel.O cumprimento do mesmo ritual.
De facto - a voz terna e meiga da gata,clarinha como a água,
aparentava um animal de fino porte,pêlo fofo,olhos de esmeralda,
pernas cheias,busto virtuoso,anti-fascista e sensível às noites de jaze.
Deste modo vivi este monólogo erótico que me transportou - não sei
porquê - para uma cena metafísica.
Num vagaroso instante,abandonei a ideia do telefonema ser da minha amiga e fui assolado por uma outra possibilidade ,talvez mais hilariante.
Teria a galega - madre Inês - perscrutado a espuma dos tempos,
quando desviou a imagem do "senhor santo cristo" de um lugar ermo
da ilha para Ponta Delgada,assim menos exposta aos apetites liberais dos piratas da época?
Uma coisa é certa - a escultura do "santo" é uma rica peça de arte,
um prodígio encrostado de preciosidades e sacrifícios humanos.
Transfigurada por vontades pagãs,prespassou para um destino sublimado de fé e turismo religioso - e eu,vulgo mortal,de telemóvel
no ouvido,coçando a barba,fixei-me uma vez mais no voo assimétrico
mas equilibrado do açor - que me confidenciou -
Agnóstico,também eu me sinto profanado.

Entretanto os barcos permaneciam ancorados.
O s pássaros,as aves marinhas,eu mesmo -"levantados do chão"
já ousávamos viajar mar adentro.

Mais tarde - um pouco mais tarde - um novo silvo - a terminar
como sempre
MIAU

Entendi responder pela primeira vez.
ÃO - ÃO

E assim ficámos - esclarecidos - para toda a vida.




sexta-feira, 13 de julho de 2007

O VOO DO MOSCARDO

desenho de Mário Filipe




Após o repasto,dispersaram os convidados e alguém se lembrou de

Rimskikorsakov.

A noite - quente -esplendorosa e sempre poética caía em nuances

polícromas - as cigarras ensaiavam cânticos sedosos que afloravam

a folhagem.O silêncio melódico estava reposto e a lua cheia tão linda,

desenhava no chão os recortes da casa,iluminava os nossos corpos.

Cantava.

Estávamos no campo,no mar arável das videiras.

Apesar do êxtase a família residente ainda se propôs ouvir o espargir

da água na rega automática.

Entretanto a paz onírica foi interrompida abruptamente e a família

unida - declarou caça a uma mosca varejeira que distraída das regras

democráticas entendeu devassar a cozinha.

A mosca,de facto,era um espectáculo - uma verdadeira besta de insecto.Enorme de asas,gorda,cor do petróleo,patas felpudas,celulite irreversível.Uma suculenta matrona.

Alguém afirmou ter-lhe visto uma cremalheira panorâmica de alvos

dentes aguçados.Na verdade não tinha lábios - exibia com mau gosto erótico uma beiça,tipo ventosa e cheirava a orçamento do estado.

Resultado - mobilização geral.

Em zig-zagues acrobáticos sobre as nossas cabeças,bufava,zunia,

zumbia zumzuns,riscava o espaço com uma baba fluorescente.Quase

política de direita,esfregava tímida as patas dianteiras e discursava arrogante sem aplausos nem substância,ao seu jeito - fluente palha

e em falsete.

Onde poisava deixava marcas,ameaças,impropérios,prepotências

e algumas rezas.Mostrava de quando em vez os olhos fulvos em desafio à lua cheia.A espaços tremulava as asas que pareciam bracinhos,como se fosse uma libelinha.Queria não parecer uma mosca varejeira.

Conclusão - na ausência de uma política coordenada e eficaz para a segurança dos cidadãos - voluntários - movemos-lhe caça cerrada,

meticulosa,com estratégia e tácticas cientificamente aceites na comunidade europeia.Utilizámos códigos em surdina,transmissões

gestuais - armas em riste.

Para a família a questão era tribal e honorária.Fervia-nos o sangue

nas coronárias e houve mesmo alguém que gritou - abaixo a mosca,

viva a liberdade.

Enfim - até o doce de tomate ,caseiro,que demorou à nossa avó seis

horas a cozinhar em lume brando,colher de pau em tacho de barro -

tomates sem pele nem graínhas,ao som da música - até o doce de tomate,cozinhado como quem vai a Fátima a pé lhe oferecemos de bandeja.

Demos-lhe poesia de Florbela Espanca,fizemos-lhe a mesa,demos-lhe

cama e roupa lavada.Estudámos em concílio improvisado o comportamento social dos insectos - chegámos mesmo a ler algumas

crónicas do Eduardo Prado Coelho - tentámos em pausas consensuais

alguns contactos políticos.

As incontronáveis férias são assim.As lojas do cidadão ficam desertas

ficam abertas apenas as maçónicas.O país encerra para transpirar e

até os políticos são considerados filhos de deus.

Entretanto a perversa mosca voejava na cozinha,mobilizava a família.Por vezes aparentemente brincalhona - saltitava nos ponteiros do relógio - escondia-se no buraco da fechadura da porta,nos buracos do queijo flamengo,nos póros da nossa imaginação.Formigava no pingo de suor que escorria lento,curto e grosso pela orelha da avó e em raides

fulminantes,tresmalhava,espreitava e sumia-se como o ar em movimento.

Na sala ao lado - a rádio anunciava mais um ataque à função pública

e a verejeira,espartana mas exausta,finalmente poisava e sorvia no doce de tomate - o seu último desejo.Uma rendição.

A família em bloco,felicíssima - caíu-lhe em cima.Foi mesmo comovente ver toda a tribo unida em torno de uma questão concreta.

Reunidos entendemos não matar a varejeira como se mata uma qualquer mosca.Partimos todos em procissão e fomos depositá-la,

com o doce de tomate irrepetível,junto de um magnifico cipreste.



Regressámos - em silêncio.A lua ainda estava cheia.O Voo do Moscardo - oferecia-nos os últimos acordes.