sexta-feira, 20 de julho de 2007

MADRE INÊS


desenho de Mário Filipe
Hoje acordei ainda os barcos estavam de ramelas e lavagem de porões -numa ilha quase imaginária.
Com os restos sonâmbulos de um sonho acordado,surpreendi-me
com um pensamento -
Hoje não quero salvar o mundo,só ajudar.
Na verdade é necessário coragem para renovar,sem perder o traço
fundamental do legado histórico e afetivo.As memórias de hoje foram
inovações no passado e a vida em sociedade é também este ritmo natural
e incontornável de estarmos no nosso tempo - por vezes contra o nosso
tempo - sem fossilizar nem castrar os sonhos.
Hoje acordei assim - a sorver o ar fresco da manhã.Acordei lentamente por entre neblinas atlânticas,a partilhar o voo assimétrico
mas equilibrado de um açor,quando inesperadamente fui invadido por
um silvo estridente,quase um choro de criança - uma farpa nos tímpanos.Era o meu telemóvel de primeira geração.
Atendi - não fosse uma ordem para evacuação do hotel - um eminente despertar vulcânico,uma revolta da direita autonómica,o reinício
da caça às baleias.
Atendi e reconheci de imediato - a minha gata.
Tenho algures uma amiga que nunca vi e me telefona ciclicamente.
Sensual,com dicção perfeita,lê-me sempre o mesmo poema -
Se tivéssemos um barco/ai se tivéssemos um barco/tinhamos o mundo/e seria inútil.
Esta minha amiga não dizia mais nada mas terminava sempre
com um inigmático - miau.
A vida não é fácil,mas com paciência,generosidade e algum prazer pessoal,tenho contribuido para esta ladaínha.
Uma vez mais o silvo do telemóvel.O cumprimento do mesmo ritual.
De facto - a voz terna e meiga da gata,clarinha como a água,
aparentava um animal de fino porte,pêlo fofo,olhos de esmeralda,
pernas cheias,busto virtuoso,anti-fascista e sensível às noites de jaze.
Deste modo vivi este monólogo erótico que me transportou - não sei
porquê - para uma cena metafísica.
Num vagaroso instante,abandonei a ideia do telefonema ser da minha amiga e fui assolado por uma outra possibilidade ,talvez mais hilariante.
Teria a galega - madre Inês - perscrutado a espuma dos tempos,
quando desviou a imagem do "senhor santo cristo" de um lugar ermo
da ilha para Ponta Delgada,assim menos exposta aos apetites liberais dos piratas da época?
Uma coisa é certa - a escultura do "santo" é uma rica peça de arte,
um prodígio encrostado de preciosidades e sacrifícios humanos.
Transfigurada por vontades pagãs,prespassou para um destino sublimado de fé e turismo religioso - e eu,vulgo mortal,de telemóvel
no ouvido,coçando a barba,fixei-me uma vez mais no voo assimétrico
mas equilibrado do açor - que me confidenciou -
Agnóstico,também eu me sinto profanado.

Entretanto os barcos permaneciam ancorados.
O s pássaros,as aves marinhas,eu mesmo -"levantados do chão"
já ousávamos viajar mar adentro.

Mais tarde - um pouco mais tarde - um novo silvo - a terminar
como sempre
MIAU

Entendi responder pela primeira vez.
ÃO - ÃO

E assim ficámos - esclarecidos - para toda a vida.




20 comentários:

Celino Cunha Vieira disse...

Talvez a gata não tenha dito tudo por não querer comprometer o remanço e a contemplação da paisagem que ela imaginava poder ser de uma reflecção no imenso oceano dos primeiros raios de sol de um novo dia que despontava

Porque se ela pudesse, diria, para além do miau, que os Serviços de Atendimento Permanente do Seixal e de Corroios foram encerrados e que todos nós estamos entregues não à bicharada, mas sim a ferozes animais predadores desprovidos de qualquer sentimento de humanidade.

Por vontade dela sairia da sua frágil garganta um imenso MIAUUUU de protesto e de indignação por constatar que o reino animal é muito mais justo porque não há pulhice mas simplesmente o instinto da sobrevivência e onde até cães e gatos conseguem compatibilizar-se por causas comuns.

Talvez na ilha imaginária possamos levantar voo como o açor e partir à descoberta da liberdade que neste recanto nos falta cada vez mais.

Um abraço,

Celino

BIA disse...

Bom dia Mar!

De cara lavada (estava um bocadinho ramelada, há bem pouco!...)

De cara lavada, dizia eu, vim dizer-te:

Bom dia! (sem mião!)

Adoro ler-te!

Aquele abraço de peito aberto

BIA

Maria Valadas disse...

São momentos muito bons... Estes que passo aqui a ler- te!

O que seria que a " gata" queria dizer com o seu enigmático Miau???

E o ÃO- ÃO... Como resposta fê- la desaparecer??

Há quem não tenha medo do ÂO-ÃO!

Maria

jnavarro disse...

Hoje mesmo conheci o teu espaço.
Deixei-me rir ao ler-te. Gostei!
Até à minha próxima visita!

sonhadora disse...

Bom Domingo!
Deixo-te beijinhos embrulhados em abra�os!

Maçã de Junho disse...

O miado é delicioso, mas o que me ficou no ouvido foi a frase: "Hoje não quero salvar o mundo,só ajudar."

E já não é para todos....

Grande escrita
Maçã de Junho

herético disse...

muito bem. os Açores permitem mesmo soltar o "bom selvagem"...

e não há miar de gata (virtual,helás!) que se compare ao voo de um açor...

excelente texto. abraços

C Valente disse...

os desenhos , são um espectaculo, a escrita agradavel
Saudações

Luís Galego disse...

mais um belo conto, com laivos surrealistas. Interessante as nunaces de cada estória que neste espaço vêm sendo publicadas. O interesse pelo próximo aumenta...

jrd disse...

A fábula fabulosa do talento, há muito adivinhado, de quem, como La Fontaine, compartilha com os animais o sonho e a vida.
Parabéns!
Boas férias.

C Valente disse...

Aguardo mais. Obrigado pela visita,volte sempre, eu vou voltar
Saudações

CNS disse...

Levo daqui um esperguiçar de boa leitura.

Sérgio Ribeiro disse...

Pois é.
Só que, por mais miaus-miaus e ãos-áos nunca "assim ficámos - esclarecidos - para toda a vida."

Um grande abraço.

Anónimo disse...

Criatividade...
Sensualidade...
Prazer...

São as principais tónicas
dos seus textos poéticos que continuam a encantar quem,
ao acordar, ou em qualquer outro momento do dia
se refresca, se delicia
com a sua arte de bem escrever...
com sentido, profundidade!
E o encontro da gata com o cão?
Ah!... Vai dar texto lindo de se ler!...
Estamos todos em crer!
princesa

Entre linhas... disse...

Mais um belo texo onde a subjectividade prevaleceentre o sonho,a realidade e a vida.
bjs Zita

un dress disse...

fluidíssimo...:)


.voar por dentro

nas asas dum aÇor.

com um pesado santo empedrado

dependurado na consciência...


.também eu transportada prá

metafísica!!:)



beijO

sonhadora disse...

As férias chegaram. Parto amanhã. Levo todos no coração. Os meus sonhos só foram possíveis porque acreditaram em mim e deixaram-me sonhar.Obrigada!
Deixo beijinhos embrulhados em abraços

Maria disse...

Lindo!
Pega o vôo do açor e entra, mar adentro....
Gostei do teu ÃO - ÃO
Boas férias.

Licínia Quitério disse...

Se tivéssemos um barco.......seria inútil" - gata que solta tal miado é bicho sábio.

Sorte a tua de ter tal amiga. ;)

Mar Arável disse...

CELINO
NA VIDA NUNCA SE DIZ TUDO DE UMA SÓ VEZ.ABRAÇO AMIGO.

bia
DE PEITO ABERTO - BELO

maria valadas
ATÉ UM DIA NOS OLHOS

jnavarro
AGUARDO NOVA VISITA

sonhadora
ABRAÇO EMBRULHADO EM BEIJINHOS

maçã de junho
OFEREÇO-TE A MINHA MAÇÃ

herético

O BOM SELVAGEM É QUANDO UM HOMEM QUISER

cns

AGUARDO

c.valente

BOA VISITA

luis galego

A VIDA É UM ESPANTO DE LUAS CHEIAS E O SEU BLOG UM SERVIÇO PÚBLICO

sérgio ribeiro

A VIDA CONTINUA.ABRAÇO AMIGO

anónimo

RECONHEÇO-TE NO AR FRESCO DAS MANHÃS

entrelinhas

O TEXTO PRETENDE TER OS PÉS NO CHÃO

un dress

EXATAMENTE - VOAR POR DENTRO

maria

COMO SABES POR VEZES UM HOMEM LADRA AOS CÃES