segunda-feira, 8 de julho de 2013

DONA ARLETE







Cantadeira de histórias verdadeiras decidiu fazer uma viagem de sonho.
Quando ali chegou, chovia a cântaros. Arregaçou as saias e descalça conseguiu chegar ao "Hotel das Dunas" .
Viajou numa avioneta que paciente aguardava em pleno voo o trabalho criativo de um velho - montado num burro a afugentar cabras no piso térreo do aeroporto.
A ilha era um corpo branco de areias finas onde aves a pique mergulhavam vertiginosas  em parceria cúmplice com pescadores de lagostas, que só abriam os olhos debaixo de água.
Ao entardecer as dunas arredondavam-se, esbracejavam doces quando a brisa morna  lhes aflorava o corpo.
Na ilha não chovia - só à vista dos habitantes que a viam cair no mar. As cabras à solta, de bocas gretadas, comiam pedras e o "tarafe" espontâneo medrava na paisagem deserta - mas por fim choveu com abundância e o povo sereno saíu à rua hilariante. Houve quem tomasse  banho nu em cima dos telhados, a proclamar a independência.
Quando viram a senhora chegar, entenderam ter sido uma bênção. Rodearam-na em festa, entoaram cânticos e louvores. Nada de preces.
Anos volvidos, nunca mais choveu, mas a senhora ali ficou encantada, a despertar silêncios, a hastear memórias da chuva.
Em noites de lua cheia, ainda hoje sobe à duna mais alta - despe-se de tudo, desfia-se em canções lindas que ninguém entende, mas todos aplaudem.
Chamam dona Arlete, à senhora das meias pretas.
Acreditam que um dia vai de novo chover, na boca das sementes.


 

32 comentários:

Rita Freitas disse...

Também eu acredito que um dia vai chover de novo :)

trepadeira disse...

E choverá abundantemente,quando dona arlete abandonar os sonhos da ilha.

Abraço,

mário

Mel de Carvalho disse...

"Acreditam que um dia vai de novo chover, na boca das sementes. "

acreditar já é meio caminho andado para que possa acontecer. a fé, dizem, move montanhas...

estimado amigo, gosto meu em lê-lo, sempre.

fraterno abraço
Mel

mariam disse...

Belo!
Quando a prosa é uma imensa vaga de poesia...

Beijinhos e saudades de por aqui pass(e)ar :)

mariam

Ailime disse...

Lindo e inspirado texto! Também acredito na chuva regeneradora. Bj Ailime

© Piedade Araújo Sol disse...

só o acreditar já é tanto....

bonito poema

beijo

Canto da Boca disse...

Enquanto não chove na boca das sementes (que não tarde), chove emoção e muita poesia nesse Mar Arável, de sonhos...!


Beijos, Eufrázio!

;))

jrd disse...

Nada como o surrealismo para nos protegermos quando estamos nus e chove...
Abraço

Laura Ferreira disse...

que bonito, caramba. :)

ana disse...

Estranho...
A aridez é um fenómeno terrível, tal como as chuvas em demasia.
A inconstante insatisfação no tempo que corre.
Não sei se a minha leitura é a correta mas as marcas deixadas no tempo nunca morrem.
Abraço!:)

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Querido Poeta

As palavras ficaram esperando a chuva das semente, não as tenho para comentar.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

marlene edir severino disse...

Poética prosa.

Semeadas.

Abraço, poeta!

Parole disse...

Tudo é possível, como num sonho...

Beijo.

Luis lourenço disse...

Esta Dona Arlete traz poesia nas vestes e nas danças...Abraço, Poeta.

Véu de Maya

heretico disse...

há mulheres assim - senhoras da chuva e de outras tempestades...

sabes do meu apreço por este teu registo - insuperável!

abraço, Poeta.

www.amsk.org.br disse...

Passei pra deixar um beijo.

Anónimo disse...

Como eu gostava de ser a dona Arlete!

Sonhadora
merecedora de um poema lindíssimo
determinada mas tranquila
símbolo da liberdade
amante do luar nas dunas de prata
aplaudida pela chuva
bênção em terra seca...

Lindo!

princesa

alfacinha disse...

goste muito
um prazer para ler
cumprimentos

Tétisq disse...

Muito bonito! Gostei da senhoa das meias pretas que espera pela chuva...

Bj*

lis disse...

Transitas pela prosa de forma tão bonita quanto nos versos.
Parabéns.
Há certos momentos que somos como Arletes ,capazes de fazer chover diante das noites de lua cheia...
Gosto do conto e também de chuvas assim 'a cântaros',
fica o abraço

Jane Gatti disse...

É preciso acreditar! Seja na mulher da meia preta, seja na chuva benfazeja.
Obrigada por sua presença em meu blog. Gostaria de pedir permissão para usar seu poema "Roubem-me tudo"em uma postagem minha. Singelo e profundo, encantou-me. Abraços desta que muito aprecia seus versos.

OUTONO disse...

...como o simples, orla a beleza de um querer ler...

Belo!

Teté disse...

Gostei da prosa poética... :)

Bom fim de semana!

Donagata disse...

E eu também acredito...

Um beijo

MAR disse...

Muy lindo relato.
Que llueva para desde el cielo ..amor y paz.
mar

Lídia Borges disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Poesia Portuguesa disse...

Como dizia o poeta... "o sonho comanda a vida"
Que seria da Vida sem sonhos e saber esperar pela chuva?

Atrevi-me a "roubar" um poema... algum inconveniente o mesmo será de imediato retirado.
Grata.
Um abraço

Olinda Melo disse...


A chuva, uma chuva boa e mansa, lava-nos o espírito e dá-nos alento.

Abraço

Olinda

Pérola disse...

Vidas ao sabor da vida.

beijo

Justine disse...

Suficientemente surrealista para corresponder á realidade...

Nilson Barcelli disse...

Há de chover, mas vai demorar, tal como aqui...
Um abraço.

The Perfect Stranger disse...

:)gosto