domingo, 18 de março de 2012

A DUNA SOU EU?

                                                       
                                                       Publicado no meu CAÇADOR DE RELÂMPAGOS

Enquanto aquele anjo permanecer nas areias, bem pode o vento soprar.
O cão ou o velho?
Lentos, trôpegos, com os pés a tracejarem os caminhos de sempre, todos os dias aquelas almas percorriam memórias.
O cão - mais velho que o dono - era o guia, a sua bengala de cego.
Pela orla da praia, desde a gruta onde viviam até à colossal duna, abrupta sobre as águas, as aves marinhas mergulhavam a pique e esbracejavam só para os salpicar.
Lá iam, serenos, livres, sem palavras - imensos.
No ar, o sussurro dos silêncios embalava-lhes os passos num concerto de maresias.
Chegados ao topo da montanha era sempre assim - o velho afagava as orelhas do cão e o cão lambia-lhe as mãos.
Sentados - respiravam infinitos - o perfume das algas - adormeciam no tempo.
Ao longe, muito ao longe, alguém de um barco bramou
Fuja - a duna vai desmoronar-se.
Imperturbável, respondeu baixinho para não acordar o cão
A duna sou eu?

41 comentários:

Virgínia do Carmo disse...

É assim a cumplicidade dos afectos, um passeio tão por dentro de nós.
Infinitamente belo.

Um abraço, Eufrázio.

Rogério Pereira disse...

E aí, nos nos conhecemos.
Tenho teu livro, por perto (esta é uma das suas belas páginas)e de vez em quando releio uma coisa ou outra. Serve-me de estimulo

BRANCAMAR disse...

Muito lindo este excerto e muito forte e tocante a pergunta final. Foi bom relembrar o "Caçador de Relâmpagos", de que já nos tinhas deixado pelo menos uma passagem, que me tenha apercebido.

Beijinhos
Branca

ana disse...

Mar Arável,
Belo muito belo. Todos somos uma duna em potência e as pequenas areias por vezes levam ao desmoronamento. Porém, o velho amigo está lá e ele trará o sal necessário e afagará a sede.
Bom domingo!

hfm disse...

Belíssimo!

maria azenha disse...

Apreciei a viagem do poema...

A minha estima,

mfc disse...

Uma alegoria linda que nos transmite uma força imensa... e cada vez mais necessária.
Um abraço.

OutrosEncantos disse...

... serenos, livres e imensos!
e o cão lambia-lhe as mãos!
a duna é um regaço.

poema lindo, Mar.

beijo.

jrd disse...

E o cãopanheiro pode ficar tranquilo.

Muito bom.

Abraço

Sandra disse...

De uma força interior incrível este excerto.
Belo!
Abraço

Carlos Ramos disse...

Belissimo pedaço de narrativa. Respiravam infinitos....quando assim se respira está tudo dito. É perfeito e absoluto, os meus parabens.

Flor de Jasmim disse...

Intenso!
Pelo menos eram livres e serenos!
Também eu sou duna impotente sentido o desmoronamento aproximando-se.

Beijinho e uma flor

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Fez-me recordar um conto de Borges em que ele conversa com um imaginário alter ego, num banco de jardim.

Justine disse...

Encantadora, a tua história!

Irene Alves disse...

Muito bom este texto. Gostei.
Ramos~Horta não vai ser reeleito.
As coisas da política...
Bj.
Irene

Licínia Quitério disse...

"baixinho, para não acordar o cão" - de grande delicadeza e sensibilidade. Gostei, como não?

Lídia Borges disse...

Um dia a duna desmorona-se. É a (des)construção natural do ser.
Só a sabedoria de um velho pode ser tão serena,tão "imperturbável".
Belíssimo texto!

Um beijo

marlene edir severino disse...

Sensível, belo

Respirei infinitos!

Abraço, Eufrázio

Sara disse...

Fez-me lembrar o narrador de "Em Nome da Terra", de Vergílio Ferreira, que leio por estes dias. O desmoronar poderá parecer (é) inevitável e a serenidade nesse momento é sabedoria inigualável.
Gostei muito. Boa semana.

R. disse...

Às vezes a serenidade mantém-se até ao fim.

Um abraço.

Olinda Melo disse...

Daqui sinto a maresia, o ar salgado, a ondulaçao das águas...e as memórias marcando compasso nessa sinfonia que me traz o som do vento. Ah, as algas verdes,escorregadias, sempre me causaram estranheza, o seu perfume um arrepio lembrando-me o tempo em as desafiava e procurava fugir-lhes . E enquanto a duna não se desmorona aguentemo-nos e sondemos o horizonte.

Abraço, mar arável, obrigada por este belo poema.

Olinda

Marta disse...

Se o tempo já está adormecido...
A única certeza é a beleza do momento....
A vida está cheia de dunas que se desmoronam; entrar em pânico não ajuda...
Como o velho bem sabe...
Lindo...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

mundo da lua disse...

o final foi realmente lindo.

Evanir disse...

Parabéns para nos que tanto carinho temos pelas nossas amizades
quantos vezes mesmo cansados procuramos de alguma forma acarinhar
nossos amigos(AS).
Na verdade ao longo do tempo fez nossa amizade crescer
hoje somos como irmãos .
Uma verdadeira nação de blogueiros unidos no amor.
Um beijo carinhoso pelo nosso dia.
Que muitos anos possamos comerar cada vez mais unido essa Dia.
Carinhos meus.Evanir..

Fernanda disse...

Está na hora de ler o Caçador de Relâmpagos.
Adoçaste-me a vontade.

Beijo

manuela baptista disse...

seria
ou o cão

digo, baixinho, para não acordar os olhos

um abraço

George Sand disse...

Haja remoinhos de vida
Partículas que não nos dêem descanso, no ar...

mundo azul disse...

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...feliz é quem se reconhece um com o todo! Que delicia o seu texto...A cada parágrafo, imaginei o momento.



Beijos de luz e o meu carinho!!!

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BlueShell disse...

!!! que delícia este pedacinho de texto....que maravilha...
Olha...deu-me uma vontade de chorar...Desculpa; o texto é muito bom. não sei que me deu...coisas de mulher!!!
BJ
BS

rouxinol de Bernardim disse...

Excelente este naco de estética literária!

Evanir disse...

O Poeta é um fingidor,
finge tão completamente que chega a
fingir que é dor a dor que deveras sente .
*Fernando Pessoa*
Um Feliz Dia Internacional Da Poesia
Creio Que Existe Em Todos Nos Um
Cantinho De Poetar No Coração.
Mais Esse Dom Não Foi Dado
A Todos.
Um Abraço Carinhoso Pelo
Dia Internacional Do Poeta.
De Um Dia Tão Importante Para Todos Nos.
Tem Um Mimo Na Postagem .
Caso Gostar Foi Feito Com
Muito Carinho.
Beijos e Beijos.
Evanir.

Marta disse...

Foi-se com o vento, em pequenos grãos de areia...

OceanoAzul.Sonhos disse...

A avaliar pelo excerto "CAÇADOR DE RELÂMPAGOS" deve ser magnifico...


Abraço
cvb

heretico disse...

que importa uma duna na imensa serenidade da sabedoria?...

belíssimo.

abraço, meu caro Poeta.

© Piedade Araújo Sol disse...

os afectos
tão importantes
e que andam tão arredios

muito bom!

um beij

ana disse...

Passei para lhe dar um beijo de agradecimento pela sua poesia, neste dia que a lembra.
Beijinho. :)

São disse...

O afecto tudo liga...

Bons sonhos, amigo

elvira carvalho disse...

Excelente texto. Gostei imenso.
Um abraço e tudo de bom para si

Rita Freitas disse...

Lindissimo,com uma mensagem profunda e ao mesmo tempo cheio de serenidade...adorei
Abraço

laivos de vento disse...

quando as palavras emanam os sentimentos...

Canto da Boca disse...

Uma duna, que se encrespa em cada lufada de vento, oxigenando a memória do velho, ali, sentado ao lado do cão...