domingo, 18 de julho de 2010

A SENHORA DA LIMPEZA



Antes de chegar às galerias identificaram-me com um sorriso.
Subi no magnífico elevador, conduzido por um delicado polícia.
Sentei-me nas galerias e olhei para baixo. Lá estavam os representantes da nação. Os eleitos da república. As palavras cruzadas, as ideias esgrimidas, as bandeiras nas lapelas, os passos perdidos, os aparelhos políticos. Os credos e os farsantes. Desiguais.

Inocente segredei a um jovem cabisbaixo, companheiro de galeria
- Coisa linda esta democracia.

Lá em baixo também estavam os meus, pouco numerosos ainda mas a combater pela maioria que vive nos subúrbios de tudo.
Lá em baixo quase todos esquecidos de subir os olhos para as galerias, tricotavam a verve, gesticulavam poses de verniz.
De quando em vez disparavam blasfémias, partilhavam impropérios para mais tarde se abraçarem à hora do repasto.

Inocente o jovem cabisbaixo, segredou-me
- Comigo um dia isto será diferente.

Terminada a sessão plenária os deputados saíram como estava previsto. O amplo salão ficou vazio, soberbo e solene. De tantas memórias.
O salão ficou vazio mas eu deixei-me ficar até ser convidado a sair pelo mesmo delicado polícia.
Foi um dia que resolvi festejar em silêncio.

Procurei um restaurante no belo bairro de São Bento e sentei-me à mesa.
Serviram-me o intragável discurso do primeiro ministro, em diferido.
Os àcidos bem convergiram, mas não foram eficazes para digerir o falacioso paraíso.
Fechei os olhos, abri os olhos e pedi o livro de reclamações, onde escrevi - " O que me serviram está fora do prazo. Quando chega a nossa vez ? "

Levantei-me da mesa sem pagar. Os empregados ficaram a ler o meu protesto.

Lá fora ouvi alguns aplausos mas fiquei na dúvida quanto ao seu voto.

Dei uma volta ao quarteirão e na passagem ainda olhei para a fachada do restaurante, Larguei um viva à República, à liberdade e ao 25 de Abril.

Para meu espanto a porta rangeu. Começou a abrir-se lentamente.

Era a senhora da limpeza.

37 comentários:

smvasconcelos disse...

Muito bonito!
bjs,

Sara disse...

Extraordinário! Palavras dirigidas aos pontos nevrálgicos da hipocrisia e da falácia.
Os meus parabéns!
Um abraço

Justine disse...

Exemplar texto. E vivam as luminosas metáforas, mesmo em prosa:)))

R. disse...

Como diria o Sérgio Godinho:

'Há muitos países que julgam
Que têm democracia, inclusivé
às vezes, o nosso

Mas encha-se de justiça o fosso
E erga-se a liberdade ao meio
Que só de intenções
Está o inferno cheio

A Democracia é o pior de todos os sistemas
Com excepção de todos os outros'

Abraço e votos de bom Domingo!

jrd disse...

Quem escreve assim ou a arte e o engenho para criar um texto notável, no qual a fina ironia é, ela própria, uma metáfora completa.
Um abraço

ana disse...

O silêncio... o devir da democracia...
O silêncio...num grande viva à República..."o falacioso paraíso"
O silêncio de quem deixa de crer
nas bandeiras pregadas na lapela, nos sorrisos hipócritas dos políticos.
Soberbo, sublime. Parabéns! :)

Bom Domingo!

Valquiria calado disse...

Muito bom, a haja surpresas.
Belo domingo com alegrias e amor. beijos.

lino disse...

Balas certeiras.
Abraço

Sonia Schmorantz disse...

Um texto complexo, uma sátira perfeita.
Abraço, uma ótima semana

antónio m p disse...

Saiu sem pagar? E agora quem paga à senhora da limpeza? Ai ai !

Anónimo disse...

Excelente retrato...
Que linda pintura naturalista
do nosso Parlamento!
...E suas envolventes...
...físicas, cívicas
e morais.
Mais completa
ainda
pela presença do PM
e o tema em questão.

Quanto ao autor
da tela
mantém o nível superior
a que já habituou
os seus admiradores
assíduos.

princesa

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Excelente metáfora. Só não percebi uma coisa:quem é esse tal de 25 de Abril? É um Conto de Fadas que um tal senhor de melena em riste quer apagar da nossa memória, não é?

São disse...

Realmente, escreves muitissimo bem!!

Parabéns e viva Abril!

Um abraço amigo.

mdsol disse...

:)))

Nilson Barcelli disse...

A AR é o espelho do povo que somos.
Boa semana.
Abraço.

samuel disse...

"Coisa linda esta (sobre a) democracia".

Abraço.

antonio - o implume disse...

Bem que precisávamos da mulher da limpeza. Felizes os que ainda os vêem desiguais, porque aí existe esperança.

maria manuel disse...

bom texto, com significativa galeria de personagens, todas elas metafóricas.
e eu temo que nunca chegue a nossa vez -

abraço.

alice disse...

uma ironia soberba, eufrázio. um grande beijinho.

Mel de Carvalho disse...

Meu bom amigo Eufrázio,

estes contos são verdadeiras delícias - diria, pedradas no charco da nossa (triste) letargia...

"Lá em baixo quase todos esquecidos de subir os olhos para as galerias, tricotavam a verve, gesticulavam poses de verniz. "...

pois é, Eufrázio, o raio da coisa é que nós, os pagantes do costume é que os "botamos" a tricotar verves e lhe "gabamos" poses de verniz... o deles, estalado
e nós ... entalados ... diferença pouca, umas letritas :)

abraço daqui.
Mel

Graça Pires disse...

Este país sempre igual a si mesmo, ou pior. Gostei da ironia do seu texto, mas dói pensar que é assim...
Um beijo.

JB disse...

Prosa fluida, com conteúdo bem fora da ficção.
Gostei muito de ler este texto. Já é tempo que se abram portas também na vida real, pois estamos a ficar sem saída!

Abraço

intimidades disse...

brilhante

Beijos
Paula

heretico disse...

um "velho" amigo nosso, de careca luminosa e de barbicha, deixou escrito (cito de memória) que um dia o "Estado será tão simples que até a cozinheira poderá ser chefe de Estado"...

e porque não a "senhora de limpeza"?

excelente a metáfora. de antologia...

abraços

Rogério Pereira disse...

"Inocente o jovem cabisbaixo, segredou-me

- Comigo um dia isto será diferente."

Eu acho que esse jovem se perder a inocência sem que perca a vontade, com ele, um dia isto será diferente...

(Para sua informação a tal senhora mudou de estatuto e vinculo: hoje é a mulher-a-dias...)

Abraço

Vieira Calado disse...

Bem observado,

bem escrito e descrito.

Um abraço

Maria Valadas disse...

Excelente texto, completo de metáforas!
Somos a minoria (quase), mas, enriquecedores de idéias para a igualdade entre os povos.

Adorei ler-te... com sempre!

Bj.

Manuela Fonseca Amaral disse...

Aplausos para esta tão bem escrita sátira!

Beijo*

Há.dias.assim disse...

Esta república cada vez mais frágil...

Gil Moura disse...

Olá, amigo Eufrázio.

Obrigado, pela visita ao meu cantinho.

Um texto muito bem concebido.

Parabéns!

Abraço

Mário

gabriela r martins disse...

excelente texto



.
um beijo

Graça disse...

Pois... também gosto de ler-te neste registo.


Um beijo para o teu fim de semana.

Virgínia do Carmo disse...

Delicioso. Todas as palavras com o tempero certo!

Bjos

Lídia Borges disse...

Um excelente texto!

Ainda nos vale este "livro de reclamações" que podemos usar para aliviar as frustrações e a descrença.

Um beijo

Barbara disse...

Demo....cracia
Nem na Grécia Antiga.

Ao menos a senhora que limpa deve cantar enquanto trabalha.

Marreta disse...

Espero que a mulher da limpeza fosse bem munida de vários efregões e detergentes de qualidade.

Saudações do Marreta.

Lena disse...

Gostei da maneira como descrevestes este mundo onde vivemos...

bjos