quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

ESPAÇO PARA CANTAR



Nesta aldeia
de mares imperecíveis
íntegro um pássaro
entendeu
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra

Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas

há espaço para cantar



eufrázio filipe


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A NOSSA ROMÃ

 

Nesta ilha de náufragos e jangadas imperfeitas 
as romãs abriam os lábios explodiam multidões.
Os cães adivinhavam o brilho dos relâmpagos e tu caías abrupta nos meus braços. 

Quando te vi assim a cair dos céus, desamparada a lubrificar a terra, não sabia o teu nome,
muito menos como te beijar os pés.
Quando te vi assim pendente, incolor, nua de tudo, chamei-te um nome qualquer  
e tu chegaste a cântaros, tão líquida por entre os meus dedos.

Recebi-te quase ninfa de braços abertos na minha escarpa e assim ficámos vagarosos instantes, 
a respirar eternidades.

Ainda hoje não sei quem és senhora.

Trazias nos cabelos um mar a derramar estrelas, cânticos sibilinos, barcos do outro lado do cais.

Fiquei sem saber se existias de facto ou teria sido eu a inventar-te


Escancarei as janelas, acendi um fósforo no alpendre da casa, e tu lá estavas a cair dos céus, 
sem muros nem amos a cantar. 
Tinhas uma vontade serena de liberdade, uma biblioteca onde se destacavam textos apócrifos, 
mas também vivificavam  ´Jorge Amado e Soeiro Pereira Gomes.

Se tivesse que te desenhar faria um gesto, um risco a carvão no ar que respiramos.
Bebia-te às mãos cheias, mas deixaria na nossa árvore preferida - uma romã.



Eufrázio Filipe
Texto reconstru'ido




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

TU CANTAS

 



Entre oliveiras buganvílias
e latidos de cães
resiste um poço
a céu aberto
onde temos por hábito
falar baixinho
para não acordar silêncios

No fundo do poço
há um espelho vertiginoso
luz que assoma
aos nossos olhos escarpados

Quando chove a cântaros
tudo fica mais claro
a fluir
na solidão das estrelas

No fundo do poço
não há espaço para cantar
mas tu cantas


eufrázio filipe


domingo, 31 de janeiro de 2021

SOMBRA DE LUZ

 

                                                               Magritte


Quando despertei
para a árvore
que ajudei a plantar

nos espelhos da memória
chovia uma sombra de luz

desejos paisagens sons

e foi assim
neste equilíbrio 
fugaz de assimetrias
que inscrevi no tempo que faz
um espaço
para agitar o vento

mares salivas flores de sal

e foi assim
a prumo nos mastros
em desassossego de barcos
que organizámos jardins
bandos de pássaros
relâmpagos

quando despertei
vesti o melhor fato
só para te ver

e tu lá estavas


eufrázio filipe

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

HAJA LUZ NO DESCONFINAMENTO


 


Os desesperados das direitas políticas mais alguns tresmalhados
alimentaram o intragável Ventura  ... e se fosse um símio ... teria a mesma votação. 
Trata-se de um fenómeno não original que ofende o regime 
e exige um combate partilhado e lúcido dos democratas em torno das questões fundamentais.

O coiso não deve ser ignorado, muito menos os que mesmo não o apoiando
nele votaram como protesto desgraçado 
Não basta ter razão no combate a todos os vírus.

Haja luz no desconfinamento.


Eufrázio Filipe