terça-feira, 23 de julho de 2019

segunda-feira, 15 de julho de 2019

NO PRINCÍPIO DOS PÁSSAROS






Nunca foi importante
salvar o mundo
construir poemas
com palavras inintelegíveis

saber se és vento
barco relâmpago
mulher incerta
metáfora
escarpa
ou flor de estação

importante é quando passas
corpo de seara
sem magoar os cravos

e dulcíssima te desfolhas

Sempre me apaixonei
por esta desordem de cores
quando passas

não pelos teus passos
mas pela sua leveza
como no princípio dos pássaros


Eufrázio Filipe
(Chão de marés)


terça-feira, 2 de julho de 2019

CADEIRAS VAZIAS





Em cardume
nos olhos dos peixes
lá estavam os pescadores

Na véspera dos relâmpagos
e outros afectos
dulcíssimos corações
clareavam as noites
e nós só podíamos fazer 
o que fizémos

sentámos à mesa
os ausentes
levitámos em voz alta
o sussurro das marés
recolhemos metáforas
e algumas estrelas
no chão das águas

soltámos um grito

celebrámos as cadeiras vazias


eufrázio filipe
(reconstruido9

quarta-feira, 26 de junho de 2019

AREIA POR ENTRE OS DEDOS






Descalço corri
desertos marés palavras e ventos
só para te ver
formosa duna

estavas de vigília em vão
colar de limos ao pescoço
quase vegetal nas areias

O mar já tinha invadido
os teus barcos mais restritos

a luz ardia na praia
os nossos barcos preferidos

Descalço corri
só para te ver
formosa duna

estavas a dormir silvestre
no chão das memórias
areia
tão livre de fronteiras
por entre os dedos


eufrázio filipe


domingo, 16 de junho de 2019

NA PAUTA DAS PALAVRAS






Quando reivindico um sopro de musica
para o teu andar de ancas vagaroso
sobre a nudez branca das dunas
é para despertar o sabor do vento
desfolhar os teus cabelos em partículas

um futuro quase divino
para as aves marinhas perfumarem
as clareiras solares mais íntimas deste espaço
um porto seguro para o teu corpo
jangada efémera de cristal

Quando reivindico para ti um sonho verdadeiro
brotas do chão como um pomar de faúlhas
dás de beber a todos os pequenos rituais
como se fôssemos uma lenda
em viagem sinuosa pelo tempo

És a pátria em alvorada que navego
e me desprende
o acesso intangível às brevíssimas papoilas
grão de areia esculpido com amor

mãos sedutoras
cúmplices
na pauta das palavras



eufrázio filipe