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Quando foi urgente criar um deus
as uvas ainda não estavam maduras
no corpo das videiras
inocente subiste ao púlpito
das vinhas decepadas
improvisaste um sermão
ergueste o cálice
e a companha exausta aprendeu
que nada é perfeitamente inútil
após as vindimas
bebemos do mesmo vinho
foi quando enfunaste as velas
começaste a despontar relâmpagos
nos mastros mais altos
quando afloraste o chão com um beijo
partiste sem destino
por sobre as águas revoltas
à pergunta de outros mares
(vou ali e já volto)
eufrázio filipe
Chamo-te
para deixares nas areias
um beijo côncavo
mas tu permaneces
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos fechados
todos os ritmos das marés
chamo-te
para uma cama impoluta
onde se ateia o fogo
convergem todos os azuis
o cântico dos náufragos
mas tu permaneces
num grito de alvorada
incandescente flor
mar de colheitas
Eufrázio Filipe
Neste sítio de silêncios
sequestrados sem fronteiras
cantavas
cantavas
cantavas
e eu não sabia
se eras tu
ou um pássaro
simples mente
a prender-me o olhar
na tua voz
Eufrázio Filipe
À proa das palavras
despertaram acordes
numa constelação de silabas
passo a passo
soltos de rimas e pautas
rasgaram margens e destinos
desaguaram cúmplices
nas paredes do mar
num beijo apertado
lá estávamos a povoar afectos
como se fossemos barcos e somos
à proa das palavras
Eufrázio Filipe
A deshoras
vi barcos soltos
perdidos de azuis
e outros mares
colhiam beijos sem mácula
num afago de limos
amarados ao vento
inscritos nas paredes do cais
cumpriam uma rota
contra todos os destinos
quase (e) ternos
a desvendar palavras
em pleno voo
menos livres
que os pássaros
Eufrázio Filipe
"Chão de Marés"