quinta-feira, 2 de março de 2017

CHÃO DE MARÉS





Correm em bando
os teus olhos por cima das searas
descansam no beiral
onde nidificam sonhos
procuram outras moradas
nos mesmos sítios da água corrente

porque nos surpreendemos?

admito a influência dos barcos
nas prateleiras da casa
um forte desejo das pedras
medrarem nas paredes
o reflexo inocente
de relâmpagos azuis
nas infatigáveis metáforas

admito que é preciso transgredir
rasgar o véu de todos os fascínios
para que as papoilas
continuem a crescer por instinto
na palma das nossas mãos

neste chão de marés

eufrázio Filipe

domingo, 26 de fevereiro de 2017

À FLOR DA PELE







A preto e branco
há indícios sítios caminhos
sombras de luz
fugazes apeadeiros
que sempre nos surpreendem

traços de ternura
a movimentar as águas
contra o vento
regressam a casa
de mãos dadas
em bando
reconstroem pontes e afectos

mas são os teus olhos
de pássaro espantado
que dedilham
espaços inteiros
até ser dia
à flor da pele


Eufrázio Filipe


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ATÉ SEMPRE CAMARADA




No lado esquerdo da vida


sábado, 18 de fevereiro de 2017

DESPERTAMOS DE OLHOS FECHADOS





Todos os dias conforme as estações
acordava à hora dos pássaros

escancarava a janela
abria os braços
dava um grito para chamar os cães

descia pedra a pedra
todos os degraus
da minha escarpa
até ao chão das marés

para hastear uma bandeira

enchia um jarro de água
sentava-me à mesa do alpendre
e começava a desenhar
palavras improváveis

Ao fundo
muito para lá da romãzeira
fremiam as águas

não sei porquê
mas fremiam

os cães latiam
e as palavras por uma nesga
espreitavam entre os dedos
como se fosse o fim da história

Neste paraíso
seduzimo-nos pela simplificação dos gestos
e assim eternos
todos os dias despertamos
de olhos fechados

Eufrázio Filipe
(2014 reconstruído)



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A FAZER POEMAS OU QUASE NADA




Observo como se move
a água do meu rio

desprendida
sem mácula nem lágrimas
nua de tudo
passo a passo
olhos nos olhos
militante da vida
e verdades improváveis

com todo o tempo 
para sonhar em voz alta
move-se lenta
esculpe caminhos
muito antes de ser mar

Um dia sonharei
um sonho seu
acordarei uma vez mais

a fazer poemas
ou quase nada


Eufrázio Filipe
2013