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Imagem de Mário Nagamura
Texto publicado em 2008
As árvores viajam
na sombra do verde
um sussurro de folhas
e tu foges dos ramos
amanheces tão distante
que nem os meus olhos
descobrem os teus gestos
As árvores viajam
onde acontece a cor do fruto
no chão
e os pássaros sem amos
deixam que a sombra
se rebente
Meu povo
que fizeste das nossas flores?
Na fluidez dos gestos mais simples
pode renascer um certo fulgor
no brilho silvestre dos relâmpagos
Na memória tatuada
onde pastamos com os animais
um rumor de plantas
as línguas mergulham na saliva
consomem-se em cânticos
até às cinzas
Correm em bando os teus olhos
por cima das searas e dos ventos
porque é preciso transgredir
rasgar o véu que se demora em fascínios
encontrar no corpo interior
um sinal primitivo de nudez
uma pequena distração de flor
que agite o ambíguo coração das aves
e abra novos caminhos
por esse mundo onde todos os rios
deviam ser apenas água em movimento
provavelmente só os teus olhos sabem
que na obscuridade mais imperceptível
há um brilho indígena em gestação
Eis a nova ordem emergente
a gota de orvalho que fende a luz
o admirável grão de areia
que não repousa
"VIOLINISTA" Diego Dayer
As pedras marinhas de tão azuis regressam à tona
juntam-se para respirar a paciência das aves
pousadas no ar
a cumprirem destinos de migalhas
(respiram fundo pelas narinas do vento)
Viris e soltas povoam afluentes puríssimos
novos celeiros
(talvez por isso queiram voar contra o rosto das palavras
ou pairar como sinais de penas)
As pedras marinhas reanimam a voz oculta da luz
que se quer liberta insofrida
(a coragem de lutar sobre ruínas)
Com a poeta LICÍNIA QUITÉRIO na Ericeira
Quando reivindico um sopro de música
para o teu andar de ancas vagaroso
sobre a nudez branca das dunas
é para despertar o sabor do vento
desfolhar os teus cabelos em partículas
Quando reivindico um futuro quase divino
para as aves marinhas que perfumam
as clareiras solares mais íntimas deste espaço
desejo apenas um porto seguro para o teu corpo
uma jangada efémera de cristal
Quando reivindico para ti um sonho verdadeiro
brotas do chão como um pomar de faúlhas
como se fôssemos uma lenda
em viagem sinuosa pelo tempo
És a pátria em alvorada que navego
e me desprende
o acesso intangível às brevíssimas papoilas
grão de areia esculpido com amor
na memória das palavras