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aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Dormiste bem?
Passei pelas brasas. O galo fartou-se de cantar.
Estamos numa casa de campo para descansar.
Mas tu também ladras às estrêlas.
Tens razão, nós é que invadimos o seu espaço.
Na cidade dormia bem com ruído, aqui oiço pássaros de todas as cores e protesto.
Oli - quem sabe um dia na diferença da voz, daremos um concerto, fora do coreto, sem gente estranha a ouvir.
Se for em família até podemos convidar a cadela da vizinha.
A cadela da vizinha não canta - vive só.
Por vezes sós mas nunca isolados.
eufrázio filipe
Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Chegámos. Era Outono.
As videiras estavam podadas e a casa ao fundo à nossa espera.
Visitámos os galinheiros. Aplaudimos um bando de rolas, apanhámos uma romã e olhámos em frente para o castelo.
O silêncio afagava todo o espaço como se estivéssemos no princípio do mundo.
Avô - aqui só falta o jardim que eu não tenho na escola.
Tens razão. Vamos plantar sonhos.
Estás de acordo Oli?
Eu sou um cão da cidade com vistas para o mar.
Aqui só vejo terra, muita terra, muita terra.
Logo à noite vou ladrar para as estrêlas me orientarem nesta aventura.
Oli - queres dormir no galinheiro?
Um cão como eu só pode dormir a céu aberto.
Mesmo que chova no paraíso.
eufrázio filipe
Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Oli - tenho uma novidade.
O avô tem um espaço rural para nós. Não é muito grande mas dá para todos.
Queres vir?
A quinta tem portão?
Tem mas não é para te prender é para os outros não entrarem.
Quando vamos à quinta?
Quando despontar uma nesga de sol.
Então vamos amanhã. Ontem à noite quando ladrava para o céu, vi uma estrêla a brilhar nos meus olhos. Foi o sinal, porque nem todas as estrêlas olham para mim.
E foi assim.
No dia seguinte lá fomos a caminho do paraíso.
eufrázio filipe
Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
O Outono brilhou por uma nesga e nós decidimos passear.
Lá fomos a cantarolar. Música minha, letra do meu avô com arranjos do Oli.
Pelo caminho até ao jardim da aldeia alguns cães sem abrigo juntaram-se a nós.
Não sei porquê.
Talvez gostássem da cantoria.
Cumprimos o objectivo, chegámos ao coreto.
Quando nos preparávamos para o concerto, o Oli disse em voz alta.
Não canto mais. Está aqui muita gente desconhecida.
A música acabou.
Começou a chuviscar e os cães choraram.
eufrázio filipe
Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Antes de falar com o cão, falei com o avô, que me deu um conselho.
Se o animal é teu amigo dá-lhe um nome.
Foi assim.
Deitei-lhe um copo de água na cabeça e chamei-lhe OLI.
Ele estranhou.
Abanou-se todo.
Repeti - Oli, Oli, Oli.
Parece que o estou a ouvir.
Ninguém pede para nascer.
Podias ter evitado o copo de água.
Não pedi nada, nem para ser baptizado, mas se foi da tua vontade, aceito que me chames Oli.
Eu vou chamar-te Timóteo
porque já ouvi o teu avô.
Aprecio as coisas simples da vida
eufrázio filipe