segunda-feira, 9 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 5 )


                                                   Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas 




O Outono brilhou por uma nesga e nós decidimos passear. 
Lá fomos a cantarolar. Música minha, letra do meu avô com arranjos do Oli. 

Pelo caminho até ao jardim da aldeia alguns cães sem abrigo juntaram-se a nós. 
Não sei porquê. 
Talvez gostássem da cantoria. 
Cumprimos o objectivo, chegámos ao coreto. 
Quando nos preparávamos para o concerto, o Oli disse em voz alta. 
Não canto mais. Está aqui muita gente desconhecida. 

A música acabou. 
Começou a chuviscar e os cães choraram. 
 

eufrázio filipe

 

domingo, 8 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 4 )


                                              Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas                                    
   

    Antes de falar com o cão, falei com o avô, que me deu um conselho. 
  
  Se o animal é teu amigo dá-lhe um nome. 
  
  Foi assim. 
  Deitei-lhe um copo de água na cabeça e chamei-lhe OLI. 

   Ele estranhou. 
   Abanou-se todo. 
   Repeti - Oli, Oli, Oli. 
   
   Parece que o estou a ouvir. 
   
   Ninguém pede para nascer. 
   Podias ter evitado o copo de água. 
   Não pedi nada, nem para ser baptizado, mas se foi da tua vontade, aceito que me chames Oli. 
   
   Eu vou chamar-te Timóteo 
   porque já ouvi o teu avô. 

   Aprecio as coisas simples da vida      



      eufrázio filipe

                                            

GARATUJAS ( 3 )


                                                           Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas


 Vim à rua e lá estava aninhado à nossa porta. 
Cumprimentámo-nos antes de lhe dar o entrecosto. 
Não comeu de imediato. 
Olhou para cima ladrou e só depois começou a trincar 

Avô - disseste-me que os cães, à noite ladram 
para as estrêlas. 

Estávamos no Outono, o céu cheio de nuvens, 
não vi estrêlas mas ele ladrou 
baixinho mas ladrou. 

Quando fechei a porta comecei a pensar 
um dia vou à fala com o meu amigo. 

 eufrázio filipe

sábado, 7 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 2 )



                                  Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas 




Falei com o meu amigo de quatro patas e aprendi que precisava de espaço para ser livre. 
Aprendi a saber ouvir e ele disse-me 

Um cão como eu não é feliz numa varanda. 
Se fosse de barro terias de inventar uma vida para mim, mas não seria eu. 

Não devias mas atravessaste o jardim da tua escola pelo meio das flores. 
Sei que foi um sonho, mas apeteceu-te. 
A mim apetece-me ser teu amigo, sem dono.  
Foi por isso que te lambi a ferida e te olhei. 

Queres ser meu amigo?

Não faças como a flor com espinhos que te rasgou a perna. 
Sabes o que quero de ti?

Coça-me as orelhas, olha para os meus olhos. 


Eufrázio Filipe
 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 1 )


                                                               Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos 
                                                                               como se fossem garatujas 




Na rua chovia. As folhas das árvores caíam. 
Estávamos no Outono, mas hoje acordei com um sonho lindo. 
Apeteceu-me correr no jardim da escola, mesmo pelo meio das flores. Eu sei que não devia, mas apeteceu-me. 
Estou a falar de um sonho, porque a minha escola não tem jardim com flores. 
De repente tropecei numa flor com espinhos, caí, fiquei ferido numa perna. 
Ali fiquei no chão com muitas dores a chorar. 
De repente apareceu um cão e assustei-me. 
Não sabia o que fazer. 
Ele olhou para mim e lambeu-me a ferida. 
Cocei-lhe as orelhas e abanou o rabo de contente. 
Já acordado pensei no meu sonho lindo e disse 

Nunca mais corro pelo meio das flores, mas quero ter um amigo 
de quatro patas. 


 eufrázio filipe