sábado, 7 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 2 )



                                  Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas 




Falei com o meu amigo de quatro patas e aprendi que precisava de espaço para ser livre. 
Aprendi a saber ouvir e ele disse-me 

Um cão como eu não é feliz numa varanda. 
Se fosse de barro terias de inventar uma vida para mim, mas não seria eu. 

Não devias mas atravessaste o jardim da tua escola pelo meio das flores. 
Sei que foi um sonho, mas apeteceu-te. 
A mim apetece-me ser teu amigo, sem dono.  
Foi por isso que te lambi a ferida e te olhei. 

Queres ser meu amigo?

Não faças como a flor com espinhos que te rasgou a perna. 
Sabes o que quero de ti?

Coça-me as orelhas, olha para os meus olhos. 


Eufrázio Filipe
 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

GARATUJAS ( 1 )


                                                               Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos 
                                                                               como se fossem garatujas 




Na rua chovia. As folhas das árvores caíam. 
Estávamos no Outono, mas hoje acordei com um sonho lindo. 
Apeteceu-me correr no jardim da escola, mesmo pelo meio das flores. Eu sei que não devia, mas apeteceu-me. 
Estou a falar de um sonho, porque a minha escola não tem jardim com flores. 
De repente tropecei numa flor com espinhos, caí, fiquei ferido numa perna. 
Ali fiquei no chão com muitas dores a chorar. 
De repente apareceu um cão e assustei-me. 
Não sabia o que fazer. 
Ele olhou para mim e lambeu-me a ferida. 
Cocei-lhe as orelhas e abanou o rabo de contente. 
Já acordado pensei no meu sonho lindo e disse 

Nunca mais corro pelo meio das flores, mas quero ter um amigo 
de quatro patas. 


 eufrázio filipe
 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

TRAÇOS A CARVÃO


                                                                                                                 João Cutileiro



Nos mastros mais altos
respiramos sinais
de pássaros públicos
compromissos
com vírgulas nas palavras

caminhos vertebrados
que respaldam
fulgores de timbres

Nos mastros mais altos
exultam eternos
por instantes
traços de carvão
asas enxutas

respiramos
por uma nesga de sol
o fresco ar 
das madrugadas

Eufrázio Filipe

 

domingo, 25 de outubro de 2015

À NOSSA MESA


                                                                                        Justyna Kopania




O que mais me doi
não são folhas caídas
nem palavras soltas

são as romãs
em coro
quando se abrem

a sombra que rebenta
desgrenhada
à nossa mesa

o que mais me doi
não é o Outono
é a falta de relâmpagos

nos teus olhos


Eufrázio Filipe

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A DESBRAVAR ESTRÊLAS






Efémeros nesta lucidez
de vinhedos decepados
antes que o tempo fuja
sem deixar rasto
nem pátria

inscrevo-te
numa aresta de vento
para te ver
sobre as pedras

a sonhar sonhos irrepetíveis

fecho o portão
solto os cães
mas tu ficas

vertigem de luz
a desbravar estrêlas

Eufrázio Filipe