quinta-feira, 14 de maio de 2015

MAREANTES DO VENTO





Crescemos na nudez das rochas

crescemos e desmaiamos
conforme as marés

Vertemo-nos líquidos
em caudais de sons
ardidos no sal
no delírio da espuma
por todo o corpo

Crescemos na substância das pedras
com asas muito leves

Não somos barco de carregar velas
somos mareantes do vento


Eufrázio Filipe
 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

POR ONDE CORRE O MEU RIO






Na mais dura pedra
navegam sargaços de cristal
água possuída de viagens
que o sol lambe

na mais dura pedra
um barco com gestos a dardejar
desperta
como no princípio da fala

matéria cinzelada
sinal infatigável de vida
que nos trespassa de claridades

uma fenda esparsa
por onde corre o meu rio

 Eufrázio Filipe


 

domingo, 3 de maio de 2015

AMAR UMA PEDRA


                                                        republicado



Todas as fendas da água
dão guarida ao movimento e se desnudam
enquanto a pedra partilha os seus esconderijos

na respiração do azul
onde os peixes se eternizam
partem anémonas para os silos dos sonhos
mas só algumas pautas musicais
quebram o ritmo das marés
quando as mãos se tocam
para atear fogueiras dentro de nós

todas as fendas da água
levedadas
entoam hinos
e se transformam na síntese de outros cânticos

só assim se explica como é possível
amar uma pedra


 Eufrázio Filipe
 

domingo, 26 de abril de 2015

NÃO HÁ PÁSSARO QUE ATIRE UMA PEDRA







Na sombra das varandas
engalanadas
pelas ruas estreitas
desfilam ânforas
à vista dos barcos

relâmpagos contidos
na voragem do tempo

sempre que te ouvem
resgatam um cravo
inscrevem o teu nome
no mais íntimo da pele

mas não há pássaro
que atire uma pedra
contra o vento

 Eufrázio Filipe

quinta-feira, 23 de abril de 2015

FESTA DE BELOS VENDAVAIS


                                                         republicado



Estávamos num conflito de areias
desterrados no deserto
quando choveu
nas nossas bocas 
uma certa água
e os cravos povoaram 
as ruas

mas foi por uma fresta
escancarada 
que te descobri
silvestre e breve
a resistir
no chão onde se despem as pétalas
que voam
sem limites

ainda hoje chove nas nossas bocas
uma certa efusão de cores
perfumes tresmalhados
e areias

mas és tu ABRIL
no mais íntimo dos silêncios
a minha festa de belos vendavais