terça-feira, 7 de abril de 2015

A FINGIR DE PÁSSAROS



                                        publicado no PRESOS A UM SOPRO DE VENTO



A minha escarpa
tem uma janela
escancarada para o mar

mesmo por sobre
barcos de passagem
latidos de cães
e metáforas

Neste sítio fustigado
onde nidificam
ventos e relâmpagos
ouvi um grito
em carne viva
mais real que os verdadeiros

soltei-o
e as palavras voaram
a fingir de pássaros



Eufrázio Filipe


quarta-feira, 1 de abril de 2015

PRIMAVERA





Abri janelas fechei portões
soltei os cães
mas lá no fundo
onde medra a oliveira
vi claramente despontar
não sei o quê
como se as palavras ocultas
fossem perfumes
de cores
em desordem
no chão que pisamos

Abri janelas
para ouvir a chuva
num sopro de vento

não sabia
que te chamavam Primavera


eufrázio filipe
 

sexta-feira, 27 de março de 2015

INACABADA FLOR DE ABRIL



                                                                      reconstruído


Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro nas mãos 
só para desenhar no chão
a dor que sentimos 

chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés

chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
recolher todos os grânulos disponíveis

Hoje vi uma mulher amada
esculpida na praia
a despontar nas areias

inacabada flor de Abril


Eufrázio Filipe

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER


                                                             1930- 2015          


A poesia foi o grande apeadeiro da sua vida. Poesia que reescrevia em cada livro para conforto das palavras. Poeta de galáxias, escarpas e mares infinitos, foi visita assídua de quotidianos, silêncios em voz alta. 
Morreu o Herberto de tantos ofícios,  vive a sua poesia. 

Obrigado por todos os instantes. 

domingo, 22 de março de 2015

A VOZ OCULTA DA LUZ



                                              republicado



As pedras marinhas de tão azuis
regressam à tona
juntam-se para respirar
a paciência das aves
cumprem destinos de migalhas

respiram fundo pelas narinas do vento

Viris e soltas povoam afluentes
puríssimos novos celeiros

talvez por isso queiram voar
contra o rosto das palavras
ou pairar como sinais de penas

As  pedras marinhas
reanimam a voz oculta da luz
que se quer liberta insofrida

a coragem de lutar sobre ruinas




     Eufrázio Filipe