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publicado no PRESOS A UM SOPRO DE VENTO
A minha escarpa
tem uma janela
escancarada para o mar
mesmo por sobre
barcos de passagem
latidos de cães
e metáforas
Neste sítio fustigado
onde nidificam
ventos e relâmpagos
ouvi um grito
em carne viva
mais real que os verdadeiros
soltei-o
e as palavras voaram
a fingir de pássaros
Eufrázio Filipe
Abri janelas fechei portões
soltei os cães
mas lá no fundo
onde medra a oliveira
vi claramente despontar
não sei o quê
como se as palavras ocultas
fossem perfumes
de cores
em desordem
no chão que pisamos
Abri janelas
para ouvir a chuva
num sopro de vento
não sabia
que te chamavam Primavera
eufrázio filipe
reconstruído
Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro nas mãos
só para desenhar no chão
a dor que sentimos
chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés
chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
recolher todos os grânulos disponíveis
Hoje vi uma mulher amada
esculpida na praia
a despontar nas areias
inacabada flor de Abril
Eufrázio Filipe
1930- 2015
A poesia foi o grande apeadeiro da sua vida. Poesia que reescrevia em cada livro para conforto das palavras. Poeta de galáxias, escarpas e mares infinitos, foi visita assídua de quotidianos, silêncios em voz alta.
Morreu o Herberto de tantos ofícios, vive a sua poesia.
Obrigado por todos os instantes.
republicado
As pedras marinhas de tão azuis
regressam à tona
juntam-se para respirar
a paciência das aves
cumprem destinos de migalhas
respiram fundo pelas narinas do vento
Viris e soltas povoam afluentes
puríssimos novos celeiros
talvez por isso queiram voar
contra o rosto das palavras
ou pairar como sinais de penas
As pedras marinhas
reanimam a voz oculta da luz
que se quer liberta insofrida
a coragem de lutar sobre ruinas
Eufrázio Filipe