quinta-feira, 5 de março de 2015

CONCERTO DE PÁSSAROS






O granizo caía abrupto nas nossas vidas,queimava-nos a alma até aos ossos. Nunca mais chovia água de beber. 
Lânguidos os rios mal desaguavam de tanto frio e solidão. O mar vadiava nas frinchas das falésias e os barcos ancorados, aguardavam nos mastros outros ventos. 
Nas ruas havia uma certa efervescência . Um respirar ofegante. 
Nas ruas as esquinas dos prédios despovoadas para os cegos abrirem os olhos. Nas árvores nem uma folha para esconder o arrepio dos pássaros. Nem um piar. Nem um sussurro. 
Ao desnascer da noite alguém acendeu um fósforo e fez-se madrugada. 
Os rios despertaram. O mar deu sinais de chamada. O vento soprou para um afago de velas e os barcos partiram para a faina. 
A Primavera por cima dos escombros convocou-nos para um concerto ao ar livre. As flores despontaram nas nossas mãos, a cantar com os pássaros, como se fossemos livres e somos. 


Eufrázio Filipe

 


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

VERTIGEM DE PALAVRAS







Arredondadas as arestas
nunca os meus olhos
foram exagerados
quando pensava ver os teus
à flor das águas

por sobre as margens
no tempo dos jacintos
e das marés vivas
a desandar por um fio
nada mais aconteceu
a não ser

uma certa vertigem
de palavras na escarpa


Eufrázio Filipe

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

POR UMA NESGA DE SOL






À míngua de relâmpagos
que não caem dos céus
desprendido
sono(lento)
de remelas remos
e memórias vivas
lá estava o barco
a caminhar
por uma nesga de sol
passo a passo
a semear bandeiras
o canto dos pássaros
no chão das águas


Eufrázio Filipe

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ESTÁTUA NO EXÍLIO



                                                                                                       
                                                                


Sereníssima
oriunda dos melhores gestos
aos meus olhos
supera o criador

traz na voz
uma feira de barro
inscreve nas linhas
da palma das mãos
contornos de luz

Musa purificada de palavras
estátua no exílio

celebra o efémero
no mais íntimo dos espelhos


     Eufrázio Filipe



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

ÁGUA DE BEBER







Não pediam esmolas
nem clemência
nem orações

não pediam
não choravam
nem temiam

queriam repartir
o sol a chuva a terra
o mar e o pão

Sem quebrarem uma pétala de sal
vagas altíssimas
mais altas que os céus

flores vermelhas
cor dos lábios
entoadas em coro

distribuíam aos pássaros
na concha das mãos

água de beber