terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

FLORES DE SAL







És o meu (a)mar
mesmo que os cães ladrem
sem dono
na praia deserta

desgrenhado na orla
dos belos precipícios
lavras escarpas
arredondas arestas
despojas-te de salivas
nos póros das areias

És o meu (a)mar
voz diáfana de cristais
onde despontam vertebrados
barcos remos e passos

as minhas mãos
nas tuas
flores de sal


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

QUASE (E)TERNOS







A deshoras
vi barcos soltos
perdidos de azuis
e outros mares

colhiam beijos sem mácula
num afago de limos

amarados ao vento
inscritos nas paredes do cais
cumpriam uma rota
contra todos os destinos

quase (e)ternos
a desvendar palavras
em pleno voo

menos livres
que os pássaros


sábado, 24 de janeiro de 2015

PRISIONEIROS DO SONHO






Livres para lá dos limites
num traço esgalhado a pulso

esculpidos no arvoredo
dormem como anjos
a fingir de pássaros

desenham barcos
no pomar das marés
para que tudo aconteça

passo a passo
por sobre as águas
sopram contra o vento

incansáveis
prisioneiros do sonho



domingo, 18 de janeiro de 2015

DESNUDA-SE A ROMÃZEIRA




Neste tempo antiquíssimo
de soluços e mãos dadas
as palavras sem abrigo
com asas enxutas
dedos rendilhados
procuram uma luz sem ameias
alento
para o mar crescer
nos teus olhos

Neste tempo de alaúdes
resiste ao pranto
o relógio de pêndulo
nas paredes da escarpa

desnuda-se a romãzeira


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

POR UM GRÃO DE AREIA





Na safra de outros mares 
anoitecidas as brumas
um pássaro suicidou-se
por um grão de areia

flamejante no lado avesso da vida
nem uma lágrima deixou
no berço
onde medram os aloendros